A última sexta-feira, dia 14 de fevereiro, serviu como um dia de comemoração aos românticos de plantão que decidiram importar o Dia dos Namorados americano (Valentine’s Day) para usar como desculpa para presentear seus pares, inundar os feeds das mídias sociais e buscar locais para celebração. Ao se pensar na cidade brasileira que nunca dorme, São Paulo, os destinos de uma sexta à noite se tornam ainda mais vastos, mas foi em um antigo cinema japonês na Liberdade, hoje tombado e transformado em uma casa de shows, que muitos pombinhos, assim como solteiros, marcaram presença para uma noite inesquecível.
Isso porque, após mais de sete anos e no mesmo local, retornava o Vapors of Morphine, trio que carrega o legado da grande Morphine viva, para espalhar a boa música e proporcionar aos fãs um mix temporal com muita criatividade e harmonia sonora. E era justamente com esse entusiasmo que o público ia se formando na calçada ao lado de fora do Cine Jóia, onde foram adentrando à medida que a casa abriu, poucos minutos passados das 20h. Em seu interior, logo à esquerda, o espaço do merchandising tanto do Vapors quanto da Wry, banda sorocabana e referência do Alternative Rock nacional, que, na ativa desde os anos 90, ficaria responsável pela abertura, inicialmente marcada para às 21h, mas com antecipação divulgada pelas mídias para às 20h45.
O interior da casa, marcado também por uma iluminação mais fria, assim como o clima condicionado, que contrastava com o lado de fora, era bem recebido pelos fãs, que pouco a pouco iam se posicionando pelos cantos do Cine Jóia, que tem como grande diferencial sua pista inclinada, oferecendo boa visão do palco independentemente de onde você esteja e por onde se era possível ver os integrantes da Wry dando os últimos ajustes em seus instrumentos antes da apresentação.
E pontualmente, no novo horário combinado, com o projetor marcando WRY pela parede da casa, subia Mario Bross (vocal e guitarra), Luciano Marcello (guitarra), William Lenotti (baixo) e Italo Ribeiro (bateria), iniciando a noite com Where I Stand, música que, para aqueles não familiarizados com a sonoridade da banda, logo se viram em um ambiente convidativo de ritmo cativante que aos poucos passava a contagiar os presentes. Os canhões de luz brancos vindos do palco passavam a aquecer em contraste ao azul, trazendo uma iluminação condizente com a energia apresentada pela banda.
Seguindo com outro single, Travel manteve a energia, com um refrão cativante que envolvia as cabeças e os corpos que começavam a ir de um lado para o outro dançando, à medida que as pessoas iam quebrando o gelo e crescendo em interesse pela proposta da banda, que lembra nomes como My Bloody Valentine, Strokes e Travis, mas com uma pegada própria em seu som de efeito etéreo. Uma Pessoa Comum mostrou esse lado mais brasileiro em sua sonoridade, sendo o primeiro representante do setlist cantado em português, onde, a essa altura, já era possível perceber algumas bocas, tanto entre as que cantavam com propriedade quanto aquelas que pareciam criar uma maior afinidade no momento.
Mas, com certeza, um dos destaques da noite foi Bitter Breakfast, uma música com um instrumental intenso e emocionante que crescia conforme se desenrolava e que te fazia prender a respiração e realmente sentir um emaranhado de sentimentos que, aparentemente iniciados em melancolia, te desprendia conforme as batidas incessantes dos pratos e as guitarras puxavam cada vez mais para um desfecho iminente.
O tempo todo, Mario ainda pontuava a alegria por estar ali tocando pela primeira vez no Cine Jóia, e isso era visível em sua energia, indo de um lado para o outro e até descendo no nível inferior do palco, se aproximando o máximo possível do público, quando não estava no maior estilo shoegaze, se projetando também para baixo, agachando e dando curtos saltos ao longo do show. Houve um momento em que chegou até a brincar sobre estarem em começo de carreira, o que realmente era um reflexo de qualidade de entrega que só o tempo e a experiência trazem.
Já caminhando do meio para o fim do set, a mudança aparentemente de última hora do setlist ajudou a contribuir um pouco com uma pequena confusão sobre o tempo em que teriam efetivamente no palco e sobre a necessidade de cortar ou não algumas músicas, o que era decidido e resolvido sempre de forma muito espontânea, em um aparente conforto, mas que resultou também em um leve problema no início de uma música, que chegou a ser interrompida e recomeçada.
Mas fato este que não foi visto como algo de tanta relevância para os presentes, que, a essa altura, já se encontravam dançando ou balançando a cabeça e completamente envolvidos com a banda. Com In the Hell of My Head fechando a apresentação, Mario ainda convidou a todos a cantarem junto com a banda no refrão, puxando um verdadeiro coro de “ÔôÔôÔ’s”, que se estendeu do começo ao fim, enquanto este ainda se projetava com um dos pés em uma das caixas de som conforme as últimas batidas fechavam o ótimo começo de noite.
À medida que os músicos desconectavam seus equipamentos para dar espaço para a atração principal, o Cine Jóia pouco a pouco começava a ser preenchido cada vez mais por uma multidão de corpos que se alinhavam pelo local. Ainda que houvesse espaço entre as pessoas, era nítido que tínhamos uma casa bem cheia para acompanhar o trio formado por Jeremy Lyons (baixo e vocal), Tom Aery (bateria) e Dana Colley (saxofone e vocal), único membro fundador do Morphine, banda formada em 89’ que se viu ganhando grande destaque ao longo dos anos, até a repentina morte de seu vocalista, baixista e fundador Mark Sandman, falecido em 99’ em decorrência de um ataque cardíaco em cima do palco enquanto se apresentavam. Colocando um fim prematuro à banda, os membros remanescentes continuaram ao longo dos anos a celebrar a vida do companheiro, através de lançamentos de músicas póstumas e até uma turnê para o álbum The Night, gravado em 1999, mas com lançamento apenas em 2000.
Foi então que Dana, Jerome Deupree, na época ainda assumindo a bateria, e Jeremy, recém-alistado, passaram a performar as músicas do Morphine e, consequentemente, gravar um novo material sob o nome Vapors of Morphine, uma banda que, acima de tudo, respeita e perpetua um legado deixado em palco, ao mesmo tempo que continua a produzir uma música característica de suas origens.
E foi exatamente nesta pegada, aos gritos do público, que o trio se instalava e se preparava às 22h, adiantando-se também do horário previsto original, começando a noite com Have a Lucky Day, música do Morphine e que, para todos ali, mais se retratava como uma “Lucky Night”. Afinal, se iniciava uma performance há muito antecipada e que se destaca dentro do rock e seus subgêneros. Com o logo da banda em animação tremeluzindo no topo do teto e imagens psicodélicas sendo espelhadas pelas paredes, o som imediatamente somado à experiência visual já dava uma amostra de uma jornada lisérgica que tomaria conta dos corpos e mentes de todos nós. Outro inegável elemento, fosse você um conhecedor ou não da banda, era a imponência do saxofone barítono misturado ao baixo slide de duas cordas e às batidas lentas e cadenciadas da bateria, que trazem uma complexidade sonora quase indescritível sobre o quão hipnotizante é tal experiência.
Imediatamente, os aplausos e gritos tomavam conta, conforme Dana arriscava algumas poucas palavras em português, o clássico “Boa noite, São Paulo. Tudo bem?”, que tão classicamente se mostra efetivo quando o músico se dispõe a alcançar a plateia em sua própria língua. Em uma primeira trinca, tivemos ainda Good e The Other Side, músicas do álbum Good, uma sequência de clássicos do Morphine que lentamente fazia os corpos seguirem as danças rítmicas das batidas, até os derradeiros momentos e transcendentais solos de saxofone, que pareciam transportar a um daqueles filmes de época dos anos 60, em um pequeno bar de jazz em alguma cidade americana.
Mas foi em I’m Free Now, do álbum Cure for Pain, que o coro de vozes dos presentes se juntou ao refrão em uníssono, ao fundo do sax que elevava a intensidade do momento, possivelmente marcando um dos primeiros grandes destaques da noite, bem refletido nos rostos e sorrisos dos músicos.
Tivemos então a primeira de duas músicas que compõem produções originais do Vapors of Morphine, iniciando com Drop Out Mambo, de seu álbum mais recente, Fear and Fantasy, que já chegou mudando um pouco o ritmo das coisas, tanto pela substituição do baixo pela guitarra quanto por seu início, onde Tom alternava entre batidas com uma mão e chocalhos com a outra, trazendo todo um ar tropical à música. Aqui, o calor da melodia fazia com que as pessoas começassem a se movimentar ainda mais.
A segunda música, Renouveau / Daman N’Diaye, de seu primeiro álbum, A New Low, serviu para assentar os ânimos e levar o público a uma viagem introspectiva, guiada apenas pelo som e pelas imagens que lembravam uma lâmpada de plasma, transformando aquele momento em uma experiência sensorial completa. É raro presenciar esse tipo de imersão, onde elementos visuais de telão complementam tão bem o espetáculo, não sendo apenas um fator decorativo, mas uma real extensão daquilo que está sendo ouvido, quase como uma manifestação visual da música.
Mas o sentimento de estupefação acabou logo na sequência com a chegada de Mary Won’t You Call My Name?, onde voltávamos para a era Morphine com muito ritmo e energia, com destaque para a voz de Lyons, que praticamente convidava todos a cantar o refrão antes de um solo absurdo de saxofone, com os pedais sintetizadores levando o Cine Jóia abaixo. Algumas músicas depois, tivemos também Sharks, música que conta com pequenos monólogos feitos por Dana, onde até mesmo aqui era acompanhado pelo público, com pequenas pausas antes de um verdadeiro jam musical realizado pelo trio.
A essa altura, a relação entre artistas e fãs era tão leve e alegre que, entre as pequenas pausas para conversa, ao questionar o público se tudo estava bom ou se faltava algo, Dana percebeu uma brincadeira de uma pessoa dizendo estar com sede. Em um ato inesperado de humildade, ele ofereceu uma cerveja ao fã, que mal podia acreditar no gesto. Dana precisou até reorganizar suas próprias bebidas para poder distribuí-las depois, assim como Jeremy, ocasionalmente repassando também uma cerveja.
Apesar da sonoridade grave dos instrumentos e do acalento do ar-condicionado, o sentimento naquele espaço era de completo calor e animosidade. Entre alguns dos destaques finais, tivemos Lasidan, o único cover não pertencente ao Morphine, e sim a Ali Farka Touré, um expoente do Blues Africano, em uma excelente reinterpretação guiada pelo saxofone.
E talvez uma das músicas mais aguardadas da noite, Radar chegou com todo seu peso, gingado e, é claro, a impressionante performance de Dana Colley tocando dois saxofones ao mesmo tempo. Feito que, segundo ele mesmo em uma entrevista para a página (e que você pode acessar clicando aqui), não é algo de alta complexidade, mas que, ao vê-lo executar, parece algo de outro mundo. O público foi à loucura ao presenciar tal momento, incluindo uma pessoa da mesa de som que exclamou: “Ele vai realmente tocar com dois sax ao mesmo tempo?”. Sim, ele tocou.
Souvenir veio na sequência, desacelerando os corações, mas trazendo uma emoção e paixão fora de série em toda sua sonoridade introspectiva, marcando também o “fim” da apresentação. No entanto, o público, clamando por ao menos mais uma música, aguardava ansiosamente o retorno da banda ao palco. O trio atendeu rapidamente, retornando poucos segundos depois, com Lyons dizendo animado: “Bom, qual música poderia ser a que falta, não é mesmo?”. E ao som do baixo, se iniciava Buena (para a tristeza dos que esperavam The Night), mas sem deixar a desejar, culminando no solo mais rápido e insano de saxofone feito por Dana naquela noite.
E engana-se quem achou que havia acabado, pois, finalizando as quase duas horas de apresentação e 20 músicas, chegou French Fries with Pepper, música conduzida por Dana juntamente com o público, até o clamor final do refrão: “Ooooooohhhhh French Fries with Pepper!”, o que, naquela altura, se tornava uma ótima dica do que comer após o show.
Entre um abraço coletivo e uma saudação a um público que os ovacionava sem parar, fechou-se a passagem do Vapors of Morphine pelo Brasil, reforçando por completo o legado iniciado com Mark Sandman, que não só se mantém de pé, mas que vive e respira criatividade através de três músicos que, ainda que estejamos apenas no começo do ano, certamente já ingressaram para a lista das melhores performances de 2025.
Setlist Wry
- Where I Stand
- Travel
- Uma Pessoa Comum
- I Feel Invisible
- Morreu a Esperança
- Bitter Breakfast
- Sister
- Quero Dizer Adeus
- Contramão
- Sem Medo de Mudar
- In the Hell of My Head
Setlist Vapors of Morphine
- Have a Lucky Day (Morphine cover)
- Good (Morphine cover)
- The Other Side (Morphine cover)
- I’m Free Now (Morphine cover)
- Drop Out Mambo
- Renouveau / Daman N’Diaye
- Mary Won’t You Call My Name? (Morphine cover)
- A Head With Wings (Morphine cover)
- Let’s Take a Trip Together (Morphine cover)
- Sharks (Morphine cover)
- Lasidan (Ali Farka Touré cover)
- Blue Dream
- All Wrong (Morphine cover)
- Honey White (Morphine cover)
- Thursday (Morphine cover)
- Cure for Pain (Morphine cover)
- Radar (Morphine cover)
- Souvenir (Morphine cover)
Encore:
- Buena (Morphine cover)
- French Fries With Pepper (Morphine cover)