Enterrados de vez? Nem tanto. Acoustenced e Ehdonalainen mantêm o legado e a melancolia do Sentenced bem vivos.

Em uma noite gelada de sexta-feira, caminhamos pela rua Kalevankatu, em Helsinque. O murmúrio e a agitação das multidões nos bares e restaurantes sinalizam que a diversão do fim de semana está apenas começando. Ao passar por um bar específico — que ainda não é o nosso destino —, os acordes de “Noose”, do Sentenced, ecoam pelos alto-falantes, um aquecimento perfeito para o que está por vir. Logo nos lembramos de que esta sexta-feira é 6 de março, data em que o saudoso Miika Tenkula, uma das mentes brilhantes por trás das composições do Sentenced, teria completado 52 anos. Paramos por um instante na calçada, apenas para absorver o momento. A música termina, mas é imediatamente substituída por outro clássico da banda. É difícil ir embora — mas precisamos seguir até o próximo destino, onde uma verdadeira noite dedicada ao Sentenced está prestes a começar.

Ao chegarmos ao Bar Loose, uma placa na entrada anuncia: “NÓS AINDA TOCAMOS SENTENCED”. Logo depois, encontramos Arttu Sairiala, da banda Ehdonalainen, que nos convida para o backstage, onde a entrevista irá acontecer. Em poucos minutos, Make Pöyhönen e Janne Heinonen, do duo Acoustenced, também se juntam a nós — e tudo está pronto para começar. O Ehdonalainen e o Acoustenced são bandas que fazem tributo ao Sentenced, tocando exclusivamente músicas do extinto grupo finlandês. O Sentenced foi uma banda finlandesa de death metal/gothic metal que fez carreira entre 1989 e 2005. A banda fez grande sucesso nos anos 90-2000, lançou pelo menos oito álbuns, recebeu diversos prêmios e excursionou por diferentes continentes (infelizmente nunca na América Latina…). Em nossa entrevista com o Acoustenced e Ehdonalainen, buscamos tentar entender melhor essas bandas e suas ligações com o Sentenced, este grupo que deixou uma marca profunda no coração dos fãs de death/gothic metal. Mas a noite ainda guardava mais surpresas: pouco depois da entrevista, tivemos o prazer de conhecer Nefertiti Malaty, psicóloga, psicoterapeuta e autora da biografia de Miika Tenkula (guitarrista e compositor do Sentenced). E como se isso já não fosse especial o suficiente, descobrimos que ela também é, de certa forma, responsável pela existência das bandas que se apresentariam naquela noite. Naturalmente, não poderíamos deixar de conversar com ela. Nossa entrevista com Nefertiti aconteceu alguns dias depois do show — curiosamente, no Bar Base, aquele bar na rua Kalevankatu onde, naquela noite de 6 de março, o Sentenced tocava nos alto-falantes.

Luciana: Olá, pessoal. Obrigada por aceitarem nosso convite para esta entrevista. Antes de tudo, o motivo de estarmos aqui hoje é o Sentenced, essa banda incrível que infelizmente deixou este mundo em 2005, mas nos presenteou com álbuns maravilhosos. Falando neles, vocês podem nos contar um pouco sobre a relação de vocês com a banda? Por exemplo, vocês foram a shows deles? Quais são seus álbuns favoritos? Quando começaram a ouvir Sentenced?

Janne Heinonen: Bem, eu comecei com o Amok. Foi meu primeiro álbum do Sentenced e eu me apaixonei por ele. Foi uma notícia e tanto quando eles mudaram o vocalista, mas aprendi a amar o Ville (Laihiala) também. E talvez o último álbum (The Funeral Album) seja o meu favorito, não tenho certeza.

Make Pöyhönen: Amok também foi meu primeiro álbum. Depois disso, acho que o Ville é um cantor muito melhor e eu gosto… mas eu nunca vi o Sentenced ao vivo e isso é uma pena.

Da esquerda para a direita: Arttu Sairiala, Make Pöyönen, Janne Heinonen. Foto por Sigryd Bagon.

Arttu Sairiala: Bom, eu nasci em 1993, então eu tinha dois anos quando o Amok foi lançado, por isso não tive a chance de vê-los. Lembro que meu primeiro contato com o Sentenced foi provavelmente em alguma recomendação do YouTube. Eu provavelmente já tinha ouvido Noose ou Killing Me, Killing You antes, mas não tinha gostado. O álbum que me fez gostar de verdade foi o Crimson e o The Cold White Light, especialmente esses dois. E, obviamente, não vi o Sentenced, mas vi todos os membros depois disso em seus projetos paralelos, como o Ville com o Poisonblack, o Sami (Lopakka) com o Kypck e o (Taneli) Jarva ontem mesmo, pela última vez. Então eu os vi muitas vezes, todos eles.

Nefertiti Malaty: Não lembro exatamente quando ouvi pela primeira vez. Acho que naquela época a música não era uma parte tão grande da minha vida. Mas lembro quando The Cold White Light saiu, eu ouvi bastante. Vi o Sentenced duas vezes em festivais. Mas, curiosamente, a banda realmente me marcou mais depois que já tinham encerrado a carreira.

Luciana: Que legal! Eu também, infelizmente, nunca vi o Sentenced ao vivo.

Arttu: Acho que o Otto é o único na nossa banda que viu. O Otto viu na turnê Buried Alive.

Luciana: Que sortudo! E agora, falando sobre o que vocês fazem: como começou a banda tributo (ou o duo) de vocês? O que os motivou a manter o legado do Sentenced vivo?

Make: Bem, nossa história começou, eu acho, completamente por acidente. Fomos ao túmulo do Miika em 2023. Levamos nossos violões e tocamos No One There lá. Fomos apenas para homenagear o Miika e sua música. Não tínhamos planos de fazer mais nada. Mas aí a Nefertiti Malaty, Titi, como a chamamos, viu nosso vídeo e nos convidou para tocar no evento de lançamento do livro dela. O plano era fazer apenas dois shows. Mas acabamos fazendo uma turnê inteira, o ano todo… quantos shows foram? Doze.

Acoustenced tocando No one there do Sentenced, em 2023, na lápide de Miika Tenkula no município de Muhos (FI).

Luciana: Que interessante.

Make: Então fomos “forçados” a continuar.

Luciana: Sim, por favor, continuem!

Arttu: Nós tínhamos uma banda diferente antes, a Elinkautinen, que surgiu com pessoas que gostavam da música do Sentenced. Pelo menos para mim — não posso falar pelos outros —, nunca foi a intenção ser uma banda de tocar ao vivo. Ensaiávamos de vez em quando e tocávamos Sentenced, era divertido. Alguns membros mudavam ocasionalmente e tocávamos uma vez por mês ou a cada dois meses, só por diversão. Mas aí acabamos conseguindo um show em 2023 e a Titi foi assistir. E, na verdade, foi no backstage desse show que nosso baterista, Otto, mencionou que, se fôssemos fazer esse show tributo para o livro, poderíamos fazer uma turnê inteira.

Arttu Sairiala. Foto por Sigryd Bagon.

Acho que foi aí que deu o “estalo” na Titi de que poderíamos fazer mais shows. E aí o Make se empolgou agendando as datas. Mas a banda Elinkautinen não existe mais; uma certa pessoa demitiu dois membros, eu e o Otto saímos do grupo e então formamos a Ehdonalainen. Como ainda tínhamos shows pendentes, continuamos tocando como Ehdonalainen.

Luciana: Muito interessante! Agora, Nefertiti, o Make disse que o Acoustenced só existe por sua causa. Isso é verdade? [risos]

Nefertiti: [risos] Bom, eu gosto de levar esse crédito… [risos] Talvez ele esteja exagerando um pouco. [risos] Mas houve muitas coincidências engraçadas.
Quando estava organizando o lançamento, eu queria bandas cover. Encontrei primeiro o Elinkautinen. Depois vi o vídeo de No One There do Acoustenced em um grupo do Facebook. Achei lindo e convidei-os para tocar. E então tudo cresceu.

Luciana: E o mesmo aconteceu com Ehdonalainen, digo, você os achou no Facebook também?

Nefertiti: Sim, e também com Mourning Wood. Acho que os encontrei pesquisando na internet. Adorei o estilo deles. No final, virou um evento grande, com versões acústicas, sons mais pesados e atmosferas diferentes. Foi uma combinação perfeita.

Luciana: Nefertiti, você provavelmente já respondeu essa pergunta muitas vezes. Você escreveu um livro maravilhoso, o Melankolian Mestari (Mestre da Melancolia), sobre Miika Tenkula, que foi um dos cérebros por trás do Sentenced. O que primeiro te inspirou a escrever?

Melankolian Mestari (Mestre da Melancolia) é a biografia de Miika Tenkula escrita por Nefertiti Malaty.

 

Nefertiti: É, eu tive uma grande inspiração de um livro. Foi do Viljami Puustinen, que é autor e jornalista e escreveu a biografia de Petri Walli, apelidado de Pete, que era o vocalista de uma banda chamada Kingston Wall. Kingston Wall foi grande nos anos 90, mas não exatamente mainstream. Eles eram mais underground, mas muito populares. Era um tipo de rock progressivo. Então, Petri Walli morreu em 1995. Ele se jogou de uma torre de igreja, cometeu suicídio. O livro era incrível. Eu amo esse livro. Acho que ele ficou no fundo da minha mente e, de alguma forma, pensei que o Miika Tenkula também era esse tipo de pessoa misteriosa. Então imaginei que ele merecia um livro assim. Não foi algo totalmente planejado. Eu estava ocupada com outras coisas na minha vida, mas um dia eu estava no Facebook, em um grupo profissional de psicólogos. Lá alguém estava pedindo músicas que expressassem luto. Então eu escrevi Mourn (Sentenced), e uma pessoa chamada “Miia Tenkula” curtiu meu comentário. Eu não fazia ideia de quem era Miia Tenkula. Então perguntei: “Você conhece Miika Tenkula?”. Fui dormir e, na manhã seguinte, quando abri as redes sociais, ela respondeu: “Sou irmã do Miika”. Ela também é psicóloga e psicoterapeuta, como eu. E nós estávamos no mesmo grupo há anos. Então eu não pude fazer outra coisa além de dizer: “Tenho pensado em escrever um livro sobre seu irmão e imaginei que precisaria encontrar a família.”

Luciana: Nossa, que coincidência! Em que ano foi isso?

Nefertiti: Agosto de 2021. Depois ela perguntou aos pais e eles disseram sim. Então comecei no início de 2022. Foi um projeto de cerca de dois anos.

Luciana: Que história incrível! Parece que tudo se alinhou no momento certo.

Nefertiti: Sim, uma coincidência enorme.

Nefertiti Malaty. Foto por Jonne Räsänen/ Otava.

Luciana: Houve momentos especiais, emocionais ou difíceis durante o processo de escrita?

Nefertiti: Posso contar uma história engraçada e outra mais tocante. A primeira pessoa que fui entrevistar foi Taneli Jarva [Taneli foi o primeiro cantor do Sentenced]. Ele tem um estúdio de tatuagem em Kerava, e fui fazer a tatuagem da logo do Sentenced, que ele desenhou. Então eu estava deitada lá, fazendo a tatuagem, enquanto fazíamos a entrevista ao mesmo tempo.

Luciana: Então foi uma entrevista dolorosa! [risos]

Nefertiti: Sim! Mas, ao mesmo tempo, você não pensa tanto na dor quando precisa se concentrar. Mas sim, conhecer a família do Miika também foi muito emocionante. Fui até a casa deles; são pessoas adoráveis. E escrever sobre os últimos anos dele foi difícil emocionalmente. Como você talvez saiba, o Miika quase não dava entrevistas. Era uma vida meio misteriosa.

Luciana: Agora, voltando às bandas, como foi para vocês essa experiência de fazer uma turnê junto ao lançamento do livro da Nefertiti e como isso impactou vocês?

Make: A turnê do livro foi uma experiência absolutamente fantástica. No fim das contas, éramos apenas uma banda de covers e pudemos tocar para milhares de pessoas assim, do nada. É uma oportunidade única na vida.

Janne Heinonen. Foto por Sigryd Bagon.

Janne: Quando você consegue tocar as músicas da sua banda favorita para fãs que sentem o mesmo que você, é sensacional.

Arttu: Sim, é o que tenho dito para as pessoas e para meus amigos músicos: é pura sorte sermos nós ali tocando. Poderia ser qualquer um — porque não temos nada de especial. Bem, talvez o Acoustenced seja um pouco diferente porque eles fazem ao menos um pouco de música autoral. Mas como nós apenas “copiamos” o Sentenced e tocamos as músicas deles, qualquer um que praticasse poderia fazer. Foi certamente algo que nunca esperávamos que acontecesse. Foi uma turnê e tanto, com altos e baixos, mas a maior parte foi muito boa.

Make: Nunca mais.

Luciana: Nunca mais? Por quê?

Arttu: Porque as bandas talvez não sobrevivessem se continuassem em turnê! [risos]

Luciana: Entendi. [risos]

Arttu: A turnê deixou uma chama acesa. Eu tenho outro projeto de banda e, se tivéssemos a chance de tocar para uma fração do público que tivemos na turnê do Melankolian Mestari, seria brilhante. Mas provavelmente foi algo único.

Luciana entrevista as bandas Acoustenced e Ehdonalainen. Foto por Sigryd Bagon.

Luciana: Entendo, claro. Ainda sobre  o lançamento do livro, bem ele acabou se tornando algo muito maior, com a turnê chamada “Sentenced Ilta” (Noite de Sentenced). Nefertiti, você imaginava que a coisa toda chegaria a esse ponto?

Nefertiti: Nunca. Foi um ano incrível com músicos incríveis e uma atmosfera única. Havia homens finlandeses chorando — o que não é comum. Foi um sentimento coletivo muito especial. Como autora, acho que nunca mais farei algo assim.

Luciana: Como o público reagiu a esse formato de lançamento com música?

Nefertiti: Foi maravilhoso. Acho que deveria haver mais eventos assim. Claro, tive o privilégio de poder fazer isso. Exigiu muito tempo e dedicação.

Luciana: Imagino. Infelizmente não pude ver nenhum desses shows, mas felizmente estamos aqui hoje para mais.

Bom, voltando ao assunto Sentenced: as letras das bandas são conhecidas pela melancolia, profundidade emocional e também pela forma irônica como falam da vida e da morte. Muitos fãs, inclusive eu, têm conexões pessoais com essas letras. Então nos contem: qual letra do Sentenced mexe mais com vocês quando estão tocando ou cantando?

Janne: Para mim, é Broken. Me lembra da minha juventude, de alguma forma. Eu estava “quebrado” naquela época. Não estamos todos em algum momento? Essa me atinge em cheio.

Make: Todas são tão “finlandesas”, cada letra é fantástica, mas acho que Brief is the Light é a minha.

Arttu: Sim. Provavelmente Farewell para mim. É por isso que eu sempre a incluo no setlist da nossa banda, porque é a minha música. Essa e talvez Aika multaa muistot. Essas duas.

Janne: Devo dizer que o Sami Lopakka não recebe o crédito que merece por essas letras.

Luciana: Verdade.

Janne: Ele é um ótimo compositor.

Arttu: E também um escritor de livros.  Ambos os romances dele são brilhantes.

Luciana: Verdade! Bem, o Sentenced tinha um som muito distinto, equilibrando peso com melancolia e melodias fortes. Existe algum aspecto técnico ou musical que seja particularmente desafiador ao tocar as músicas deles ao vivo?

Janne: Bem, o Make disse um dia que queria cantar em tons mais altos que o Ville, porque o Ville cantava bem baixo.

Make: Sim, um pouco mais alto funciona melhor para a minha voz.

Janne: Eles costumavam baixar meio tom nas guitarras; nós tocamos na afinação padrão.

Arttu: Acho que tenho sorte porque tenho quase a mesma extensão vocal que o Ville. Consigo ir talvez um pouco mais grave, mas nem de longe tão agudo, mas a média é bem parecida, o que facilita.

Foto por Sigryd Bagon.

Mas claro que é desafiador quando você toca músicas como Aika multaa muistot, No One There e We Are But Falling Leaves e, logo depois, vêm Northern Lights, Rot to Dead e New Age Messiah. Equilibrar técnicas vocais tão diferentes é difícil. Essa é provavelmente a tarefa mais árdua, porque com três vocalistas e técnicas diferentes, pode ser um desafio, mas estou tentando.

Luciana: Eu entendo. Bom, eu tenho uma pergunta aqui que é de uma fã de Sentenced. Ela se chama Elli. A Elli é brasileira e ela pergunta: vocês já consideraram unir forças com outros músicos ou bandas para gravar um EP ou álbum tributo ao Sentenced?

Arttu: Não.

Make: Não.

Luciana: Não? [risos] Podem dizer por quê?

Make: Bem, acho que se algum dia fizermos um álbum, seria acústico. Com uma banda completa, talvez não. Aí precisaríamos de mais músicos. Mas eu e o Janne definitivamente gravaremos algumas músicas algum dia, com certeza.

Arttu: Mas eu acho que, no nosso caso, como somos um tributo ao Sentenced e fazemos o que o Sentenced já fazia, não vejo sentido em gravar de novo, porque seriam apenas versões piores de músicas já gravadas.

Make: É, teria que ser algo novo.

Arttu: Talvez se alguma banda me convidasse para cantar no álbum deles, fosse um cover de Sentenced e fosse bem feito, aí talvez. Mas…

Luciana: Um arranjo diferente e tudo mais?

Arttu: Sim, mas provavelmente não. Mas nunca diga nunca.

Luciana: Legal. Tenho duas perguntas para cada banda agora. Vamos começar com o Acoustenced. Esta também é uma pergunta de outro fã de Sentenced, o Bruno. Ele perguntou assim: como vocês adaptam os arranjos das músicas originais para a versão acústica?

Make: Bem, acho bem fácil arranjar as músicas porque as melodias são ótimas. Me refiro às melodias vocais e às guitarras solo do Miika. Geralmente começo cantando e testando um acorde ou outro, e então eu e o Janne finalizamos o arranjo.

Janne: Sim, geralmente o Make faz a primeira versão e trabalhamos juntos. Eu escrevo algumas partes para a minha guitarra… É como tentar encontrar a essência da música primeiro e depois pensar no que o Miika poderia ter pensado ao compor, já que ele escrevia muito no violão. Então é quase como fazer uma engenharia reversa da música.

Make: E eu costumo fazer até duas ou três versões diferentes.

Luciana: De cada música?

Make: Sim. Toda música pode ser tocada de um jeito lento e bonito, mas eu também quero tocar algo rápido, então…

Janne: Embora estejamos velhos, então desacelerar é bom. [risos]

Luciana: [risos] Entendi. Que interessante tudo isso. Ainda nesse tópico, existe alguma música que funciona melhor nesse formato acústico e quais foram as mais difíceis de adaptar até agora?

Make Pöyhönen. Foto por Sigryd Bagon.

Make: Quase todas as músicas funcionam bem. Mas acho que as dos primeiros álbuns talvez sejam um pouco difíceis de traduzir. Até agora, talvez Nepenthe e Vengeance is Mine sejam as mais complicadas.

Janne: Se a música for muito baseada em um riff de guitarra, pode ser difícil se você não conseguir transpor para o acústico. E se houver muitas mudanças de compasso, você fica pensando: “que diabos eu vou tocar aqui?”. Fica meio chato no violão se não houver aquele riff por baixo. Aí você tem que usar a criatividade.

Luciana: Criatividade pura. Obrigada. Agora, as duas perguntas para o Ehdonalainen. Vocês tentam reproduzir as músicas de acordo com as versões originais o mais fielmente possível ou se permitem alguma liberdade de interpretação?

Arttu: Nós geralmente tentamos seguir as gravações ao vivo, se houver. Mas não somos tão rígidos. Temos algumas músicas em que fazemos coisas diferentes. Obviamente tentamos chegar o mais perto possível. O Santtu improvisa alguns solos porque recriar o que o Miika Tenkula fazia é impossível às vezes ou muito difícil. E acho que combina bem com a banda e os shows quando você improvisa solos que já eram improvisados no disco. Pode render momentos divertidos; quando tocamos Dance on the Grave, sempre tem uma parte de solo estilo free bird e coisas assim. Então, sim e não. Tentamos ser fiéis, mas também nos divertimos no processo.

Luciana: Sim, por que não se divertir, certo? E vocês provavelmente já encontraram muitos fãs fiéis de longa data. Vocês têm algum momento memorável que viveram durante essas apresentações?

Arttu: Sim! Foi há exatamente dois anos, aqui mesmo no Bar Loose. O mais memorável — você não pode nem dizer que ele era um “super fã” — foi quando eu fui ao balcão pedir uma cerveja, e um senhor idoso veio me dizer que eu estava com uma camiseta legal. Eu estava com uma camiseta do Sentenced, obviamente. Aí eu pensei: “bom, obrigado, mas não é nada especial, já que nesta noite temática tem umas cem pessoas com a mesma camiseta”. Então ele me mostrou que tinha uma tatuagem do Sentenced. Eu achei legal. E então ele disse: “É, eu sou o pai do Miika Tenkula” [risos]. Aquilo me deu um choque. Felizmente, o Antti, nosso baixista, veio me socorrer [risos]. Eu o joguei direto “na fogueira” e disse: “Olha, nós somos da banda que toca hoje, este é nosso baixista”, e fugi da cena de tão nervoso que fiquei. Mas depois disso, encontrei o Kaleva, pai do Miika, várias vezes. Mas também ouvimos muitas histórias tristes de pessoas próximas ao Tenkula, amigos e fãs que tiveram problemas de saúde mental… Pessoas que vêm aos nossos shows dizer que um amigo ou ente querido cometeu suicídio e que aquela era uma música especial para eles… Ouvimos muito disso.

Luciana: Sim, imagino. Bom, estamos quase chegando ao fim e tenho uma última pergunta para todos. Nefertiti, será que existe a possibilidade de traduzir o seu livro para outras línguas, como inglês ou português? Seria incrível levar esse projeto do “Sentenced Ilta” para o Brasil! 

Nefertiti: Sim, eu gostaria muito de ver o livro traduzido. Muitas pessoas já pediram, mas descobri que é um processo bem complicado…

Luciana: Eu entendo, claro. Agora, Ehdonalainen e Acoustenced a última para vocês: O Sentenced conquistou muitos fãs ao redor do mundo, inclusive na América Latina e no Brasil, mas infelizmente nunca tocou lá. Ainda existe um público no Brasil que ficaria feliz em ver alguém tocando Sentenced ao vivo. Se a chance surgir um dia — e espero que apareça —, vocês teriam interesse em tocar fora da Finlândia, especialmente no Brasil?

Foto por Sigryd Bagon.

Make: Sim, com certeza!

Arttu: Engraçado você perguntar, porque estivemos em Istambul há alguns meses. Lá também existe uma banda de tributo ao Sentenced. Mas, quero dizer, obviamente é divertido tocar em outros lugares. É difícil de organizar, mas…

Janne: Nós não temos empresário.

Luciana: Ah, então vamos encontrar um!

Make: Talvez você possa organizar! O emprego é seu! [risos]

Luciana: Perfeito, temos um acordo! [risos]

Arttu: É, como eu disse, nunca diga nunca.

Janne: Sim, precisariam ser alguns shows, você não vai até lá para fazer apenas um.

Make: Vamos ver. Quem sabe um dia. Espero que dê certo!

Luciana: Eu também! Bom, pessoal, muito obrigada pelo tempo de vocês! Foi maravilhoso conversar com todos!

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Confira alguns registros das bandas Acoustenced e Ehdonalainen tocando Sentenced no Bar Loose (Helsinque, FI), em 06.03.2026.

 

Fotos e vídeos: Luciana Paltila

 

A banda Acoustenced é formada por: Make Pöyhönen (voz e violão) e Janne Heinonen (violão e backing vocals)

A banda Ehdonalainen é formada por: Arttu Sariala (voz), Santtu Koskinen (guitarra), Tomi Lehtinen (guitarra), Antti Saati (baixo), Otto Uotila (bateria).

 

Agradecimentos ao Acoustenced, ao Ehdonalainen e à Nefertiti Malaty. Kiitos teille! 🙂