Ah, o Power Metal. A porta de entrada para o mundo do Heavy Metal para uns, motivo de chacota para outros. Eu fui um desses que engrenou com mais afinco neste vasto universo, através de bandas como Helloween, Avantasia e o Shaman. Inclusive, meus primeiros shows da vida foram do Angra e André Matos (guardo até hoje o autógrafo que recebi do maestro) na cidade vizinha de Itapira, São Paulo. Mas apesar de citar esses grupos, eu considero a primeira música com uma temática mais Power, que tive contato na vida, fora Rainbow In The Dark do saudoso Ronnie James Dio. Aliás, vamos convir que nosso querido baixinho possa ser considerado um dos padroeiros desta vertente.

Hoje em dia, concordo que o estilo já não conversa mais tanto comigo, mas vira e mexe, gosto de acompanhar os lançamentos dessas bandas que um dia fui fã assíduo.

Agora se engana quem pensa que o Power Metal se resume a rapazes com longas madeixas bem hidratadas e agudos estridentes. A banda que tenho o prazer de dissecar hoje prova justamente o contrário, estou falando é claro, do Brutal Power Metal do Brave.

Advindos da cidade de Itu, São Paulo, a banda possuí mais de 20 anos de estrada, e é atualmente formada por Carlos Bertolazi na guitarra, Ricardo Carbonero no baixo, Rafael Gonçalves na bateria e Sidney Millano nos vocais. O disco de estreia do grupo chegou em 2012, intitulado The Last Battle, que ganhou uma sequência em 2016 com Kill The Bastards. E com isso chegamos a fevereiro do pandêmico ano de 2020, quando o Brave retorna com um terceiro disco, o alvo da resenha a seguir, The Oracle.

Ao darmos o play no disco, somos inseridos a uma ambientação tempestuosa até a entrada das guitarras que entram em uma espécie de looping até a chegada da primeira faixa do álbum.

Firestorm se inicia com uma marcha de bateria cujas guitarras acompanham em uníssono. E é então que somos surpreendidos pelo estilo da banda, que traz uma abordagem mais pesada trazendo influências que me remeteram a bandas mais clássicas como o Grave Digger e o Manowar.

Logo de cara, tenho a plena convicção de que o som da banda vai conquistar os mais puristas e apreciadores de vertentes mais pesadas. A música do Brave não tem firulas e solos intermináveis, daqueles que servem como mero exercício de virtuose para deixar os entusiastas a instrumentistas babando, fazendo dessa forma, o equilíbrio perfeito entre as melodias do Power Metal, mas de uma forma bem mais direta digna, por exemplo, de bandas de Thrash Metal. Talvez essa seja a primeira amostra do que vem a ser o Brutal Power Metal, cuja banda leva a alcunha de criadora.

A letra da música retrata a redenção de um guerreiro em campo de batalha, desferindo furiosamente um último e derradeiro golpe em meio a todo o caos que o cerceia, fazendo deste último sacrifício, um ato que o eternizará na história. Cena essa, que podemos conferir em filmes como 300, Coração Valente, etc.

A faixa título The Oracle, traz um riff mais rápido e cativante fazendo coro com baixo e bateria. Aqui senti certa influência de Blind Guardian nos vocais de Sidney, remetendo-me a uma mescla do espartano Kratos do game God of War com o alemão Hansi Kürsch. Destaque para as diversificadas e divertidas passagens instrumentais.

Se tomarmos as letras do álbum como uma espécie de conto, posso dizer que na sequência temos um flashback com o guerreiro consultando os oráculos antes de partir para a batalha. Eles lhe revelam que para os deuses, apenas a vitória e a conquista importam.  Dessa forma, o guerreiro parte determinado rumo ao seu destino.

We Fight For Odin é um verdadeiro hino de devoção ao deus nórdico da guerra e da morte, e talvez a faixa que mais se aproxima do Power Metal mais tradicional, carregada de uma energia ímpar e um refrão que gruda bem na cabeça por horas a fio. O instrumental permanece cativante e muito bem executado. E aqui temos uma ótima performance dos vocais, que possuem variações constantes no decorrer da faixa.

Valhalla para este que vos escreve foi a melhor música de The Oracle. De início ela pode até enganar o ouvinte com uma pegada meio balada, mas é questão de poucos segundos que o peso tome conta, com direito a vocais que passam por camadas mais épicas, algumas horas quase guturais, até os característicos agudos inerentes do estilo. A letra traz toda a glorificação ao paraíso viking, atingido apenas pelos guerreiros mais nobres e destemidos abatidos em combate.

Wake The Fury é rápida e fazendo jus ao título, carrega o sentimento de uma fúria incontrolável, perceptiva tanto pelo estilo vocal que traz passagens cujo timbre faz lembrar em algumas nuances o grande Rob Halford, quanto pela pegada de todos os instrumentos que atacam sem piedade os ouvidos do ouvinte. Sem sombra de dúvidas, outro ponto alto do trabalho. Este mesmo sentimento é mantido em Fall To The Empire, penúltima faixa do álbum, que é capaz de te transportar para uma grande batalha de proporções épicas.

Mas a calmaria se avizinha assim como o final das batalhas retratas na temática desta terceira obra do Brave. E entre mortos e feridos somos apresentados a triste melodia de We Burn The Heart, que descreve a celebração triunfante do lado vencedor da guerra.

Lançado em 22 de fevereiro de 2020, The Oracle foi gravado e mixado por Marcio Teochi no Teochi Studio em Itu, São Paulo e masterizado no estúdio Absolute Master na também paulista Capivari. Já o bom e velho formato físico, mandado para mim pelo Som do Darma, foi lançado pelo selo Anti Posers Records, trazendo e dando ainda mais beleza a competente arte de capa desenvolvida por Manuel Hellsen da MH Design Art. De fato a edição em CD é um baita item para colecionador algum por defeito.

Devo admitir que talvez os temas abordados pelo Brave, retratando guerras medievais, o paganismo e a mitologia nórdica, são assuntos que deixaram de conversar comigo há certo tempo, o que não significa que o disco seja ruim.

Como disse no começo da resenha, essa é uma ótima banda para se apresentar àqueles que, por algum motivo, possuem uma espécie de trava, ou preconceito, contra o Power Metal, mostrando que nem só de dragões, princesas em castelos e suntuosos cavaleiros em cavalos brancos se sustenta o gênero.

Todos os instrumentistas são fenomenais, e sem sombra de dúvidas, conseguem cativar o público alvo do gênero, que ainda pode recorrer aos trabalhos anteriores da banda, caso o disco deixe um gostinho de quero mais. Mas senti no decorrer da audição, que os vocais mais teatrais de Sidney ganham bem mais destaque, deixando o excelente trabalho dos músicos como um fator quase que coadjuvante.

Em suma meus amigos, The Oracle do Brave é um disco que traz um forte teor de ineditismo, para quem ainda espera algo de novo em uma das vertentes mais saturadas dentro do Heavy Metal. Não é um trabalho cuja audição me será recorrente, mas para os amantes da temática, é um cálice dourado do mais puro vinho asgardiano transbordando!

Tracklist
1-Intro
2-Firestorm
3-The Oracle
4-We Fight For Odin
5- Valhalla
6- Wake The Fury
7- Fall To The Empire
8- We Burn The Heart

 

 

 

 

 

Nascido no interior de São Paulo, jornalista e vocalista da Sacramentia. Autor do livro O Teatro Mágico - O Tudo É Uma Coisa Só. Fanático por biografias e colecionismo.