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Rock Camp: provando o lado social do rock e do metal na Finlândia

Era uma tarde chuvosa de sábado no fim de setembro. Cheguei ao centro cultural de Malmi, em Helsinque, e fui surpreendida por uma multidão de jovens vestidos de cosplay.

Jovens de cosplay na entrada do Malmitalo. Foto: Luciana Paltila

Bom, certamente não eram os jovens que estavam participando no Rock Camp, o evento para o qual eu me dirigia, no mesmo local. Mas aquelas centenas de jovens, com roupas superdivertidas de personagens que confesso não conheço muito bem, chamavam a atenção pela criatividade, pelas cores e por toda aquela agitação. Foi essa energia jovial e animada que me deu as boas-vindas ao chegar a Malmitalo.

Quando finalmente encontrei os corredores onde estava acontecendo o Rock Camp daquele fim de semana,  ouvi, vindo das salas onde aconteciam os ensaios, os sons de guitarras pesadas. No corredor, onde eu aguardava os nossos entrevistados, estavam três jovens com as suas guitarras, aparentemente preparando-se para aquilo que deveria ser uma apresentação. Dava para sentir um pouco do nervosismo e, talvez também, entusiasmo naqueles jovens. Era um momento de preparação, mas também de descontração.

E essa parece ser precisamente a vibe do Rock Camp.

Pouco depois, fui recebida pela diretora do Malmitalo, Tiina Laukkanen, e por Alexander Kuoppala, guitarrista do Children of Bodom e do Thyrargo e um dos instrutores de jovens do Rock Camp. Em seguida, fomos para a sala da diretora, onde começamos a nossa conversa. Nossa intenção com a conversa era entender melhor o que é o Rock Camp, e descobrir como suas atividades ajudam a juventude através do metal.

Malmitalo é um centro cultural em Helsinque. A casa fez parceria para receber o primeiro Rock Camp de três dias em Helsinque. Foto: Luciana Paltila


Rock Camp: música, inclusão e desenvolvimento social

Rock Camp é um projeto social e musical finlandês que utiliza a música, especialmente o rock e o heavy metal, como ferramentas de participação, inclusão e desenvolvimento pessoal e social de jovens.

Em nossa conversa com Kuoppala, compreendi que o projeto, que já tem dezessete anos, começou com a oferta de oficinas musicais que proporcionam aos jovens um espaço para se encontrarem, interagirem, partilharem interesses e descobrirem a música em conjunto. O projeto cresceu ao longo dos anos e hoje, através dessas atividades, os participantes, em diferentes localidades da Finlândia, têm a oportunidade de aprender a tocar diferentes instrumentos, desenvolver competências musicais e experimentar a prática coletiva. Para participar, os interessados precisam fazer a inscrição através do site do programa, ou seja, nada de competição para participar das atividades. E ainda o grande diferencial: os participantes sempre contam com o acompanhamento e a orientação de instrutores experientes.

Aliás, falemos dos instrutores! Os instrutores do Rock Camp são músicos com experiência e carreiras consolidadas na cena musical, particularmente no rock e no heavy metal. Para além de transmitirem conhecimentos técnicos, músicos como o próprio Alexander Kuoppala (Children Of Bodom, Thyrargo), Mathias “Vreth” Lillmåns (Finntroll, …And Oceans, Dispyt), Vesa Ranta (Ex-Sentenced, Cemetery Skyline, The Abbey) e Lauri Tuohimaa (For My Pain…, Charon), entre outros tão competentes, contribuem para criar um ambiente de aprendizagem, partilha e colaboração.

“Queremos que cada jovem possa ser quem é, com o direito de expressar sua própria voz.”

A frase de Alexander Kuoppala, durante nossa conversa, ajuda a compreender uma dimensão do rock e do metal que nem sempre recebe a mesma atenção que os riffs: a capacidade do estilo de criar espaços de expressão, encontro e pertença. Na Finlândia, o Rock Camp parte da música e do metal para trabalhar também questões relacionadas com a inclusão e o bem-estar dos jovens.

O trabalho desenvolvido no Rock Camp permite olhar para o Rock e o Metal para além dos estereótipos que frequentemente associam o gênero à violência, à agressividade ou a comportamentos socialmente problemáticos.

Ensaios, encontros e muita música

Na ocasião da nossa visita ao Malmitalo, em setembro de 2026, o Rock Camp acontecia num formato intensivo de três dias, uma das modalidades oferecidas pelo projeto. Dependendo da localidade e do financiamento disponível, os encontros e as atividades do Rock Camp acontecem de forma diferente. Por exemplo, nas cidades de Oulu, Joensuu e Tampere, o Rock Camp promove encontros semanais, incluindo clínicas musicais, destinadas a esclarecer dúvidas, e sessões de jam, nas quais os jovens podem simplesmente tocar juntos.

Jovens treinando no Rock Camp em Helsinque. Foto: Rock Camp

No formato de oficina de três dias que aconteceu em Helsinque, a programação é bem estruturada: começa com a chegada e integração dos jovens e, em seguida, com o agrupamento desses jovens para formarem bandas. Em grupos, os participantes têm a oportunidade de escolher as músicas que querem ensaiar em conjunto e passam a receber orientações dos músicos-instrutores durante os ensaios.

Entre risadas, Alexander Kuoppala reconhece a curiosidade dos jovens em relação à sua própria carreira e diz que frequentemente os participantes estão interessados em aprender a tocar músicas do Children of Bodom:

“Eu chego lá e toco Children of Bodom o tempo inteiro, porque é só o que eles querem aprender. (risos) Agora há pouco mesmo, eles estavam perguntando coisas do tipo “olha, quando você gravou aquele álbum em 1997, como você fez isso e aqui?” Eles estão sempre curiosos e entusiasmados para ouvirem essas histórias e eu amo isso.” (risos).

Pudera né? Acho que qualquer fã de metal na mesma situação desejaria conhecer todas as histórias do guitarrista de uma das maiores bandas de metal da Finlândia!

No fim, os  três dias de atividade culminam com as apresentações de cada banda para o restante dos participantes. As apresentações, no entanto, não se tratam de uma competição. Como explica Kuoppala, os jovens não precisam de dominar perfeitamente os instrumentos ou as músicas: as apresentações podem ser adaptadas para que cada participante tenha a oportunidade de tocar, de acordo com as suas capacidades e os seus pontos fortes. O objetivo é que todos possam participar, tocar e experimentar a experiência de pertencer a um grupo, a uma banda.

Tiina Laukkanen, diretora do centro cultural onde aconteceu o Rock Camp de Helsinque, destaca a importância de oferecer atividades como essas aos jovens a baixo custo. Segundo ela, muitos não têm acesso a escolas de música devido aos preços elevados e também enfrentam dificuldades para frequentar concertos de metal, por causa das restrições de idade impostas pelos eventos:

“Os cursos de música em Helsinque costumam ser caros, você tem que investir uns bons euros ali. Então, na minha opinião, é muito bom que este tipo de atividade esteja disponível para os jovens, mesmo que eles não possam pagar”, comenta Laukkanen.

A maioria das atividades do Rock Camp são de fato gratuitas para os participantes ou, em alguns casos, custam valores simbólicos, como 20 euros, para se custear a alimentação.

Rock Camp para além das bordas da Finlândia

O Rock Camp começou em 2009, na cidade de Seinäjoki, e hoje já desenvolve atividades regulares em pelo menos seis cidades da Finlândia, além de realizar encontros pontuais em outras localidades, como Helsinque. Mas o projeto começou a ganhar uma dimensão internacional nos últimos anos, com a realização de uma edição de alguns dias na Islândia e em Malta. E já na ânsia de perguntar sobre possibilidades na América Latina, a própria Tiina sugere:

”Quem sabe no Brasil?!”. 

E novamente com bom humor, o guitarrista responde e explica que as atividades internacionais, assim como as próprias iniciativas locais, dependem de projetos e de financiamento. A equipe Rock Camp está, por exemplo, tentando no momento viabilizar atividades na Alemanha, que permitiria levar jovens da Finlândia para o país.

“Seria um sonho realizado fazer uma atividade como esta, por exemplo, no Brasil. Toquei lá há alguns anos.”, diz Kuoppala.

Alexander Kuoppala (Children Of Bodom, Thyrargo) e Tiina Laukkanen (diretora do centro cultural Malmitalo). Foto: Luciana Paltila

O peso do metal e o impacto social na vida dos jovens

O valor de uma iniciativa como o Rock Camp não se resume ao número de músicas aprendidas, à formação de bandas ou à capacidade de tocar um instrumento. Esses resultados são importantes, e o prazer de fazer e ouvir música tem, sem dúvida, muito valor próprio. Mas o Rock Camp tem outro peso também, o de apoiar a saúde mental, o bem-estar social e a participação de jovens, criando um ambiente seguro e inclusivo onde cada participante possa desenvolver a sua identidade, expressar-se livremente, fazer novas amizades e aprender a trabalhar em conjunto com outras pessoas, tanto em palco como fora dele. E ainda mais: contar com o apoio de grandes e respeitosos músicos.

Esta iniciativa não se trata de apresentar o rock ou o metal como uma solução automática para o bullying, a solidão ou os problemas de saúde mental da juventude atual. Mas trata-se sim de reconhecer o potencial da música pesada como estratégia pedagógica e social de desenvolvimento e crescimento. Porque, no fim, o importante não é apenas ouvir guitarras e baterias e riffs estrondosos, mas é também garantir que cada ouvinte, especialmente os jovens ouvintes, tenha a oportunidade de fazer ouvir a sua própria voz e o seu próprio som.