Em um dia de muito frio e escuridão na capital finlandesa, a noite de 10 de novembro de 2025 tornou-se perfeita para os fiéis do Metal de Helsinque se reunirem: o show da turnê europeia Blood Dynasty Tour, do Arch Enemy, que contou também com mais três nomes de peso da cena atual do Metal, Amorphis, Eluveitie e Gatecreeper. A equipe do Subsolo estava de volta ao já conhecido Jäähalli para mais uma cobertura de muito peso:

Um verdadeiro ataque de quatro bandas que reuniu alguns dos nomes mais marcantes do gênero sob o mesmo teto. Com a fúria ascendente do Death Metal do Gatecreeper, o misticismo sedutor do Folk ancestral do Eluveitie, a maestria melódica dos finlandeses do Amorphis e a dominância afiada e moderna do Arch Enemy, a noite prometia não apenas um concerto, mas uma jornada completa pelas vastas paisagens do Metal contemporâneo. O que se viu foi um evento poderoso, carregado de emoção e despedidas, uma demonstração de como a cena Metal permanece vibrante, diversa e absolutamente viva em 2025.
Apesar de os portões do Jäähalli terem aberto às 17h, a primeira banda só entrou no palco pouco depois das 18h, tempo necessário para o público entrar com calma, deixar seus casacos na chapelaria e pegar um drink antes do espetáculo.

Gatecreeper | Death Metal | Estados Unidos

A primeira apresentação da noite ficou por conta dos americanos do Gatecreeper, que trouxeram a energia do Death Metal Old-school para abrir a noite. Originários de Phoenix, Arizona, a banda lançou seu primeiro EP em 2014 e, desde então, segue em ascensão surpreendente. Ano passado, tive o privilégio de assisti-los também em Helsinque, mas com um clima completamente diferente: os caras tocaram como headliner em uma casa bem menor (Ääniwalli, com capacidade para 800 pessoas) e para um público muito mais underground (apesar de três integrantes do Amorphis estarem presentes na plateia para assistir os americanos)
Este ano, vieram como apoio ao gigante Arch Enemy para um local com capacidade de 8.200 pessoas. Isso mesmo: de 800 para 8.200 — uma baita diferença.
Mesmo tendo lotado a casa no ano anterior, era visível o nervosismo da banda ao abrir um evento dessa magnitude. E, infelizmente, logo no início surgiram vários problemas técnicos: em diversas músicas, os instrumentos simplesmente não saíam nos autofalantes, e demorou pelo menos três faixas para que tudo fosse ajustado. Em alguns momentos, a frustração dos músicos era perceptível, mas, dadas as circunstâncias, entregaram um ótimo show.
Outro ponto negativo foi o espaço limitado no palco: com tantos instrumentos e estruturas das bandas seguintes, sobrou apenas um pequeno retângulo para o Gatecreeper, o que restringiu bastante a movimentação dos músicos. Ainda assim, mostraram profissionalismo e fizeram o melhor com o que tinham.
No final do show, um pequeno mosh pit se formou, e as últimas músicas explodiram em uma energia crua e agressiva. Enquanto o vocalista incitava o público — “Acho que vocês precisam ir mais fundo… Quem precisa trabalhar amanhã? A gente não dá a mínima!” — a plateia respondeu à altura.
Ficou claro que estar nesta turnê é um marco no crescimento da banda: Dark Superstition, lançado em 2024, ainda era novidade, e o Gatecreeper se firma como uma das novas vozes importantes do Death Metal. Se você ainda não conhece, vale muito explorar a curta discografia dos caras. Com sorte, o Brasil verá uma apresentação deles em breve.

Fotos: Luciana Paltila

Eluveitie | Folk Metal | Suíça

Após a breve apresentação do Gatecreeper, apenas 15 minutos foram necessários para preparar o palco, e um pouco antes das 19h os suíços do Eluveitie entraram.
Foi realmente uma surpresa ver tantos rostos novos. A última vez que os vi foi na apresentação humilde no Estúdio Emme, em São Paulo, em 2012. Quase 14 anos depois, é nítida a mudança e o amadurecimento musical da banda. Desde o figurino à qualidade dos instrumentos e execução, fica evidente o quanto o grupo “subiu” na carreira — o que não é necessariamente positivo.

Veja, não estou fazendo aquele velho discurso de tiozão de que “quando era pequeno e underground é que era bom”, não, pelo amor, longe de mim! Mas, simplesmente, no mundo em que vivemos, não existe almoço grátis. E, para uma banda chegar ao patamar atual em que o Eluveitie se encontra, é óbvio que muitos ajustes foram feitos para atender um público maior, para que mais discos fossem vendidos, mais merch tenha sido adquirido e para que o número de plays aumentasse nas plataformas de streaming. Vamos começar pelo figurino: há 14 anos era cada um com seu estilo e o que importava era o que se tocava no palco e a energia que se passava ao público; hoje em dia é muito óbvio que aconteceram muitas consultas de styling e branding: todos os músicos com roupas claramente novas e pretas, combinando entre si.

Sim, esteticamente é muito mais prazeroso ver algo assim no palco, mas, quando as mulheres que antes usavam roupas confortáveis para a vida louca de turnê passam a usar saltos, decotes e coreografias de headbanging ensaiadas, é claro que a essência se perdeu. Nessa mais de uma década que se passou, eu confesso que não acompanhei as infinitas mudanças na banda. Depois de incontáveis mudanças no line-up e da mesmice dos seus lançamentos, Eluveitie se tornou algo não mais atraente para meus ouvidos.

O único músico que se mantém desde o início é o vocalista Chrigel Glanzmann e, desde o início do Eluveitie, mais de 23 músicos passaram pelo line-up (sem contar os músicos convidados e os contratados somente para turnês).

Em resumo, a apresentação foi de alta qualidade, mas, infelizmente, não empolgou o público. Mesmo quando a banda tocou seu maior clássico, Inis Mona, era visível a falta de animação dos presentes, por mais que os músicos tentassem fazer com que os espectadores cantassem o refrão, sem sucesso. Talvez porque uma banda de Folk não cabia numa noite destinada ao Death Melódico; talvez porque simplesmente a maioria não gostou da apresentação.

Comparar as apresentações em que estive presente foi realmente frustrante e talvez, a atitude mais saudável seja encarar o Eluveitie atual como um projeto totalmente novo, focar na técnica — e não mais no famoso “feeling”.

Fotos: Luciana Paltila

Amorphis | Progressive Metal | Finlândia

Com mais uma troca rápida de palco, exatamente às 20h o Amorphis iniciou seu show. Desde o primeiro instante, uma energia completamente diferente tomou a plateia — afinal, os queridinhos do Metal nacional e orgulho finlandês estavam diante de seu público.
Formada em 1990, em Helsinque, a banda possui uma carreira longa e sólida. Começaram fazendo um Death Metal agressivo, mas ao longo dos anos incorporaram elementos do Metal Progressivos e do Death Melódico até se tornarem referência nesse híbrido.

A apresentação contou com o baixista sueco Victor Brandt (Dimmu Borgir, Cemetery Skyline), substituindo temporariamente Olli-Pekka Laine. Brandt mostrou-se confortável e bem integrado em todos os shows que ele fez com a banda.
Apesar de o set de 50 minutos parecer curto, deixou o público em êxtase. A alternância entre vocais agressivos e limpos de Tomi Koivusaari, unida à técnica e melodia dos músicos, cria uma dinâmica poderosa. Mesmo para quem, como eu, já viu a banda ao vivo mais de seis vezes, o Amorphis sempre traz uma sensação reconfortante.
Antes da última música, The Bee, Olli-Pekka Laine foi chamado ao palco. Seu afastamento repentino da turnê permanece um mistério, mas o retorno já havia sido confirmado. A banda agradeceu imensamente a participação de Brandt, que deixou o palco para que o line-up tradicional encerrasse o show.

O curto show deixou o público querendo mais — o que diz muito sobre como a performance foi eficaz e emocionalmente ressonante. Dado que muitos em Helsinque cresceram acompanhando o Amorphis, a presença da banda em casa demonstrou que, mesmo depois de tanto tempo, ela se mantém firme e forte na cena do Metal finlandês.

Fotos: Luciana Paltila

Arch Enemy | Melodic Death Metal | Suécia

Por volta das 21h20, as luzes se apagaram e o grande headliner da noite se preparou para entrar. Antes do show, uma bela homenagem ao príncipe das trevas, Ozzy Osbourne, com Bark at the Moon ecoando pelo Jäähalli enquanto a banda aguardava atrás de seu gigantesco backdrop.

Como headliners, o Arch Enemy encontrou um público já preparado e ávido pela sua apresentação e mesmo assim conseguiu elevar as apostas. O set list foi fortemente baseado no material de seu novo álbum Blood Dynasty, mas também revisitou os favoritos dos fãs, fazendo o show parecer tanto atual quanto clássico.

A banda parecia mais entrosada do que nunca: a vocalista Alissa White-Gluz animava o público e engajava com o mesmo em cada música tocada. Algo que podia se sentir era a agressividade que se destacava e um pouco aumentada na execução das novas músicas, passando a impressão de que a banda, que comemora este ano 30 anos de carreira, se consolida mais do que nunca como uma lenda mundial do Death Melódico.

Outro fator intrigante foi o comportamento de Alissa White-Gluz, emergindo com um figurino sempre marcante e uma apresentação extremamente enérgica que entregava ferocidade com feminilidade. Sua apresentação foi simplesmente incrível; seu carisma, profissionalismo e engajamento com o público deixaram todos os presentes extasiados. Alissa parecia genuinamente feliz na apresentação, o que difere totalmente da apresentação em Helsinque de 2024, onde todos os movimentos pareciam ensaiados e robóticos. Menos de duas semanas depois, Alissa anunciou sua partida do Arch Enemy em suas redes sociais, o que não me deixa parar de pensar que o comportamento e a atitude eram realmente de uma despedida de um casamento que durou doze anos.

O Arch Enemy fechou a noite com autoridade de lenda, uma performance que equilibrou material novo e clássicos, espetáculo e precisão musical. Para o público de Helsinque, muitos dos quais acompanharam o Arch Enemy por anos, isso soou como uma coroação: uma banda olhando para o futuro enquanto honra seu legado. Com o Blood Dynasty recém-lançado, o Arch Enemy provou que, após três décadas, não está se acomodando nas glórias do passado — ainda está faminto, evoluindo e entregando.

Em resumo, o que tornou a noite em Helsinque tão memorável foi o contraste: do Death Metal cru do Gatecreeper, passando pelo Folk sensual do Eluveitie, até o Prog e Death Melódico do Amorphis e Arch Enemy — juntos, ofereceram um espectro completo da música pesada contemporânea.
Ao final, restaram na plateia memórias de uma noite intensa: poeira, suor, guitarras rugindo e uma multidão que atravessou desertos, florestas e a melancolia do inverno finlandês para, enfim, se encontrar diante dos portões de uma verdadeira “dinastia de sangue”.

Agradecemos à FULLSTEAM AGENCY pelo credenciamento e pelo evento de enorme sucesso.