Lembro-me da primeira vez que me deparei com essas figuras e foi uma das descobertas mais inusitadas e singulares até hoje. Eu tinha por volta de 15 anos e passava um final de semana na casa de meus tios. Enquanto navegava pela internet, ouvia o excelente The Stonewall Concert Celebration, um álbum de releituras lançado pelo saudoso Renato Russo.

E foi acessando o clássico portal Whiplash que me esbarrei com a uma matéria sobre o trabalho de estreia dos suecos, o primoroso Opus Eponymous de 2010. Lembro-me que a música que me pegara logo de cara fora Ritual de apelo sombrio, mas ao mesmo tempo pop. Revisitando a obra tempos depois, encontrei grandes petardos como Stand By Him, Elizabeth e Death  Knell.

Apesar da ótima qualidade do disco, creio que a forma na época com o que a imprensa na época buscava denominar o som do Ghost, tenha sido totalmente equivocada, comparando o grupo como uma mescla entre o Marcyful Fate e o Blue Oyster Cult. Talvez seja esse tipo de comparação que fez com que muito “metaleiro truezão” se decepcionasse ao primeiro contato com a banda, esperando sonoridades mais extremas como as da trupe dinamarquesa de King Diamond e Cia.

O grande Gastão Moreira,um cara das antigas que também se declara um admirador  do grupo, certa vez, usou uma frase perfeita para defini-los “O Ghost é uma banda pop travestida de satanista”.

Mesmo adquirindo algumas boquinhas tortas por parte do público mais ortodoxo, o Ghost prosseguiu firme e forte, lançando outro petardo, Infestissuman (2013). A turnê deste segundo trabalho rendeu a banda uma vergonhosa participação no icônico festival Rock in Rio. Mas não pense que Tobias Forge e seus Nameless Ghouls tocaram mal, ou tiveram comportamentos repudiáveis. A falta de respeito veio do próprio público que estava na plateia, que clamava aos berros pela próxima banda da noite, os veteranos do Metallica.

Creio que abrir para um medalhão em um país cujo público de rock e metal aprecia tudo, menos novidade, realmente tenha sido uma tarefa non grata.

O terceiro álbum Meliora veio em 2013 após o lançamento do excelente EP If You Have Ghosts, trazendo mais faixas interessantíssimas como Cirice, Absolution e From The Pinnacle To The Pit. Este foi o último álbum a contar com a sonoridade mais consolidada dos dois trabalhos anteriores. Faço tal afirmação, pois Prequelle (2018) traz um Ghost repaginado, buscando soar como a melhor banda pop dos anos 80 que nunca existiu, segundo o próprio Tobias Forge.

Trata-se de outro trabalho tão primoroso quanto os demais da discografia, soando pesado em algumas nuances aqui e acolá, sem o medo de ousar nos elementos mais chicletes, vamos assim dizer.

E finalmente chegamos a 2022, e entre pandemias e guerras, o Ghost pos fim a um hiato de quatro anos sem um álbum completo de estúdio. O último lançamento da banda até então foi o EP Seven Inches of Satanic Panic  que trouxe duas faixas inéditas e pra lá de psicodélicas, Kiss The Go-Goat e Mary On A Cross.

Impera foi lançado no dia 11 de março, data esta que escrevo este texto. E antes mesmo de sequer ouvi-lo já posso acrescentar um diferencial ao trabalho. Dessa vez os nomes dos músicos que acompanham Forge são creditados. Nas guitarras temos Fredrick Akesson do Opeth, os teclados ficam por conta de Martin Hederos. Já a cozinha da banda foi composta pelo próprio Tobias em parceria com o versátil baterista Hux Nettermalm. Se a mesma formação permanecerá em turnês, isso já é uma incógnita.

Iniciando pela capa, se em Prequelle tivemos referências a Sepultura neste novo trabalho, o easter egg da vez é o icônico cultista Aliester Crowley, muso inspirador de muitas lendas por aí, como Ozzy Osbourne e Raul Seixas.

Imperium abre o quinto registro da banda de forma linda, repleta de violões e um arranjo que gradualmente vai crescendo acompanhando de rufares de bateria. Um início épico e majestoso.

Confesso que Kaisaron é uma faixa bem atípica e alegre que causa um sentimento de estranheza, mas o refrão parece remediar um pouco. No decorrer da canção notei algumas pitadas de Rock Progressivo que me remeteram, não sei por que, ao Dream Theater.    

Spillways é uma música com uma vibe totalmente oitentista, que me remeteu àquelas clássicas cenas de filmes, quando o protagonista se prepara ferrenhamente para encarar o derradeiro desafio ao final da trama. Destaco aqui o excelente trabalho dos teclados, o solo de guitarra e claro, o refrão chiclete que vai ressoar por muito tempo na cabeça do ouvinte.

Call Me Little Sunshine traz toda a sonoridade característica que quem acompanha o trabalho da banda a longo prazo já está habituado. Ela é soturna, porém, com a veia pop que o Ghost estabeleceu no decorrer da carreira.

Hunter’s Moon foi o primeiro lampejo de Impera, muito tempo antes de o álbum ser anunciado, sendo inserida na trilha sonora oficial do filme Halloween Kills em 2021. Traz ainda a sonoridade clássica da banda mesclada em alguns pontos com o célebre tema composto pelo grande John Carpenter. Pude notar em alguns andamentos no decorrer da faixa, algumas pitadinhas de elementos encontrados em Square Hammer, música do EP Popestar de 2016. Destaco aqui o uso de coros utilizados ao fundo, que se um pouco mais altos, dariam outra cara para a canção. Sem dúvida um dos pontos altos da audição.

Chegamos à metade do disco com Watcher In The Sky que poderia facilmente ter sido lançada nos tempos do Meliora. Ela possuí riffs cadenciados e um refrão que até funciona bem, mas não é tão expressivo. Uma faixa mediana.

Dominion é um rápido presságio para Twenties, divulgada como último single antes da chegada de Impera. A canção carrega um riff poderoso que engana facilmente àqueles que tentam garimpar algo de mais extremo no do Ghost. Vi um comentário a respeito dessa música, que dizia que retirando uns palavrões aqui e acolá, ela seria perfeita para ser cantada por algum vilão dos filmes da Disney.

Uma mescla entre Life Eternal de Prequelle e He Is, outra do Meliora resultou em Darkness At The Heart of My Love. Um belo dedilhado marca o início dessa balada melancólica que agrega ainda mais elementos do experimentalismo mais moderno visto no início do disco. Ao final, temos uma peça épica que consegue, ao mesmo tempo, se adequar aos moldes radiofônicos de países cuja programação não se baseie tiranicamente em sertanejo…

Griftwood até começa com uma boa levada de guitarras e possuí tanto apelo comercial quanto a antecessora. É uma faixa “ok”, nada mais e nada menos que isso.

Bite of Passage é uma soturna ponte de 30 segundos que leva o ouvinte até a  última e mais longa faixa do álbum todo. Respite of Spitafields é climática e possuí diversas camadas e passagens distintas entre si. O final apesar de tentar transpor uma sensação de apoteose acaba sendo brando demais, finalizando a audição com um gostinho agridoce.

Desta safra mais moderna de bandas da última década como o Gojira e Jinjer, por exemplo, talvez o Ghost seja a única que chega a me causar certo comichão e curiosidade em cada lançamento. Mesmo divulgando alguns singles antes do lançamento de cada trabalho, a certeza de como será a estrutura do álbum como um todo é totalmente incerta. E é justamente esse ineditismo e de certa forma, mistério que faz com que eu sempre tenha esse interesse pelas novidades dos suecos.

Em relação a Impera, tive a mesma sensação de quando se acaba de sair de uma seção de cinema ainda digerindo o filme que acabou de assistir, ainda se decidindo se o achou realmente bom ou mediano. O quinto álbum do Ghost tem sim bons momentos, mas creio que assim como ocorreu em Senjutsu do Iron Maiden, este seja aquele tipo de obra, que necessite de mais audições para gradualmente se tornar cada vez mais palatável.  

       Tracklist 

  1. Imperium
  2. Kaisarion
  3. Spillways
  4. Call Me Little Sunshine
  5. Hunter’s Moon
  6. Watcher in the Sky
  7. Dominion
  8. Twenties
  9. Darkness at the Heart of My Love
  10. Grift Wood
  11. Bite of Passage
  12. Respite on the Spital Fields

Nascido no interior de São Paulo, jornalista e vocalista da Sacramentia. Autor do livro O Teatro Mágico - O Tudo É Uma Coisa Só. Fanático por biografias e colecionismo.