Sem sombra de dúvidas uma das bandas que servem de porta de entrada para o mundo do Rock ou Metal é a Donzela de Ferro. Ela faz parte de um grupo que chamo de “Starter Pack”, ao lado de bandas clássicas como o Black Sabbath, AC DC, Van Hallen, entre outros.

Lembro-me da primeira música deles que tive contato. Wasted Years era uma das faixas de um CD que meu falecido pai certa vez me emprestou. Era uma espécie de coletânea de camelô que continham além do Maiden, Dio, Rush, Twisted Sister e por aí vai. E muito tempo se passou e consumi tanto, mas tanto a obra dos ingleses (principalmente os clássicos que não saem dos repertórios dos shows) que acabei por ficar ultra saturado de Eddie e da turma toda, abandonando de vez o sexteto, ouvindo raramente uma faixa ou outra dos novos trabalhos.

E aqui cabe uma retratação. Na resenha que fiz sobre o Icon of Sin, concluí que o debut da banda era o melhor disco que o Maiden nunca havia lançado e que o mesmo há tempos não me surpreendia como nos meus tempos de pivete. E eis que poucos meses depois, o samurai Eddie munido de sua Katana aplicou o golpe de misericórdia.

Senjutsu, que verdadeiro turbilhão de sensações…

Bom, devo iniciar a minha análise, dizendo que a primeira audição deste disco foi feita de maneira totalmente equivocada, e que de primeira, pouca coisa me chamou atenção. Crianças, uma dica, nunca ouçam um trabalho inédito de uma banda enquanto fazem caminhada. Mas foi debatendo com meus colegas de equipe e ouvindo uma segunda, terceira e até mesmo quarta vez, que este décimo sétimo registro de estúdio me pegou em cheio.

De forma soturna Senjutsu, se inicia como um exército marchando lentamente para o campo de batalha, focado e ciente de que aquela pode ser uma viagem sem volta. Admito que seja uma faixa um tanto quanto incomum para a abertura de um álbum, mas a canção vai ganhando cada vez mais forma, até uma catarse de proporções épicas, elemento este, explorado pela banda desde Brave New World de 2000.

Pois essa atmosfera de batalha parece ainda persistir com a chegada da galopante Stratego. Aqui a sensação de que a batalha começou é bem nítida (pelo menos no meu imaginário) e o pau está torando pra valer. Ouvi algumas críticas em relação a algumas passagens de guitarra que acompanham a linha dos vocais de Dickinson, chamando-a pejorativamente de guitarrinha de Karaokê. Bom, para mim isso é irrelevante e não prejudica em nada a audição. Talvez a minha ressalva em relação a segunda faixa, seja a mixagem dos vocais, que soam um tanto quanto abafados dos demais. Uma ótima música com um apelo comercial certeiro e um ótimo refrão. Não à toa, ela foi escolhida como o segundo single do trabalho junto à faixa que dissertarei a seguir.

 

The Writing On The Wall. Essa foi polêmica, dividindo opiniões. Vale lembrar amigo leitor, que Senjutsu marcou também por ser o primeiro álbum do Iron Maiden em seis anos, o maior hiato na discografia da banda até então. Mas voltando a faixa…

A tal polêmica, não podia ser diferente, foi em relação à sonoridade tão singular, apresentando uma atmosfera Western. Há aqueles que sempre cobram novidades de uma banda clássica, mas é engraçada a reação destes cidadãos quando o grupo decide enfim sair um pouco de suas fórmulas mais tradicionais. Vi comentários comparando a música (pasmem) com Bon Jovi (ah se as músicas dele fossem assim e menos, mas bem menos, farofadas).

Não serei hipócrita, e realmente, é uma música singular na carreira da banda e também a mais fora da curva do trabalho todo. Estranha bem no início, mas é questão de minutos até o refrão chiclete grudar e dificilmente sair da cabeça.

Destaque para o clipe, que contém uma fantástica animação e um primoroso crossover que amarra todas as fases da banda com personagens e easter eggs por todos os lados. Quem é fã xiita vai identificar tudo.

 

E se The Writing on The Wall vem para quebrar o clima deixado por Stratego, Lost in a Lost World mantém o ritmo da antecessora, porém, o elemento progressivo da banda faz a canção crescer gradativamente, deixando-a grandiosa. Ah, a tal guitarrinha de karaokê persiste aqui também, mas ressalto não ver o menor problema nisto. Esta é mais uma das canções do álbum que ficaram mais palatáveis conforme fui reouvindo.

Days of Future Past. Essa irá com certeza agradar os fãs da fase mais clássica da banda. É a faixa mais curta de Senjutsu, com modestos quatro minutos e três segundos. Rápida, direta e com um refrão que me remeteu a The Wicker Man.

E chegamos à última faixa do lado A, pois assim como The Book of Souls (2016), lidamos com um álbum duplo (em CD) devido à longa duração das faixas, assunto que também gerou certas discussões e que abordarei mais a frente. Para quem prefere as plataformas de streaming nada muda.

Time Machine, canção de número seis. Essa infelizmente, não me pegou. Por mais que eu tente, não consigo em hipótese alguma gostar do refrão da canção, que não sei por que cargas d’água me remete a uma espécie de balada preguiçosa de hard rock setentista. Loucuras da minha cabeça que tentei ao máximo esclarecer neste parágrafo.

E finalmente chegamos a uma das minhas músicas favoritas deste play, Darkest Hour. Não consigo me decidir se gosto mais dela, ou de uma faixa mais adiante. O que dizer desta música?

Bom, apesar de no início ela me fazer lembrar Wasting Love (baladinha sem vergonha que não me desce,mas muitos amam) essa canção é um verdadeiro hino, apesar de ter quase certeza que ela não entrará no repertório da turnê do disco. Mera especulação, só pressentimento mesmo. Ela é épica sem soar piegas, tem um refrão maravilhoso, melodia e letras que me trazem um sentimento de redenção, que toca até as profundezas da minha alma. Qualquer tentativa de explicar o meu sentimento ao entrar em contato com essa obra prima não chega nem perto da real sensação.

Agora chegamos a uma trinca que somadas o tempo de duração, chegam a pouco mais de 30 minutos (calma ainda vou chegar nesse assunto).

Death of The Celts é gêmea de The Clansman, presente no questionável Virtual XI (1998) e que junto Sign of The Cross, foi adotada por Bruce Dickinson, sendo executada nas inúmeras turnês do grupo mundo a fora. A estrutura segue quase a mesma da irmã mais velha, porém, sinto que falta um pouco mais de emoção em algumas partes. É uma ótima música e tem bons momentos, mas não chega a ser um dos pontos altos do trabalho.

The Parchment é outra que preciso ouvir mais vezes, pois não me pegou, e tão pouco tem algum momento que me faça lembrar dela. Buscarei prestar mais atenção nessa faixa, mas por enquanto mantenho o argumento anterior.

E chegamos ao gran finalle com Hell on Earth, música que divide o posto junto a Darkest Hour de melhor canção do álbum. Ela possuí uma estrutura muito similar a When The Wild Wind Blows do The Final Frontier (2010) com uma longa introdução e melodias fantásticas tanto de voz quanto dos instrumentos. E que refrão meus amigos. Se alguém reclamou dos excessos no decorrer do álbum, o fato de não repetir mais este refrão foi uma falta média da Donzela de Ferro, pois poderia ouvir isso por horas e nunca deixaria de me empolgar. Por outro lado, talvez seja essa ânsia pela repetição que me faça revisitar a música e cada vez mais gostar dela.

Bem meus amigos e chegamos ao final de mais um álbum dos ingleses do Iron Maiden. E sinceramente, eu pensei que nunca fosse o autor de uma resenha desta banda que tinha praticamente abandonado. Foi este trabalho que me fez querer conhecer mais essa fase progressiva do Brave New World pra frente (apesar de que Rock Progressivo não seja a minha praia) que não tive paciência para desfrutar na adolescência.

Agora vamos a parte mais trabalhosa deste texto. Afinal de contas Senjutsu é um bom trabalho?

Sem sombra de dúvidas, sim. Mas é preciso colocar alguns pontos nos is.

Primeiro de tudo, é importante ressaltar o quanto uma banda com tantos anos de estrada consegue ainda causar comoção e uma ampla roda de debates como o Maiden fez com este lançamento.

E talvez o distanciamento que tive com o trabalho do grupo tenha me feito bem no final das contas, pois desta forma, consegui entender os pontos de vista de quem gostou ou não de Senjutsu, e até mesmo da própria banda.

Eu entendo perfeitamente a expectativa de quem se frustrou com mais um álbum do Iron Maiden na mesma linha de raciocínio iniciada há mais de 20 anos. Há quem diga que os britânicos lançam sempre o mesmo trabalho, e realmente o grupo tem uma sonoridade característica que pouco varia e, por vezes, pode soar sim repetitiva. Eu realmente consigo compreender quem colocar esse trabalho como o melhor do ano, e também aqueles que o colocarão como a maior decepção.

Tendo a ousadia de tentar pensar como um dos membros de uma banda que está na ativa desde o final da década de 70, cheguei a uma conclusão que para os mais saudosistas não é a mais fácil de aceitar (e nem é esse o intuito).

Creio que a essa altura do campeonato Steve Harris e o quinteto, talvez estejam tomando ciência de que a jornada esteja de fato, chegando ao fim e, com isso, sinta a necessidade de deixar uma obra que funcione mais como uma realização pessoal e individual do que comercial. Afinal de contas, para agradar as massas basta tocar os clássicos já batidos do passado nas turnês e receber a glória, que já nem deve ser um objetivo a se alcançar (sendo apenas a consequência de uma carreira, que tem seus altos e baixos, mas que pode e deve se considerar mais do que solidificada).

Algumas músicas de Senjutsu poderiam, e funcionariam mais, se um pouquinho de gordura fosse cortado. Mas eu compreendo que uma banda com três guitarristas deve mostrar serviço (o Dream Theater tem apenas um e consegue ser chato) afinal, quem quer entrar no campo pra não ficar um pouco que seja com a bola? Que analogia horrível, eu sei.

Inclusive, para aqueles da geração mais imediatista, recentemente foi lançada a versão Bruno Sutter’s Cut em que o humorista fez algumas lipoaspirações nas faixas (para muitos um ato de heresia e que somou mais uma polêmica para o trabalho).

Em suma, Senjutsu  pode ser um dos últimos suspiros do Iron Maiden. Se bem que ouço essa frase desde 2010 com The Final Frontier .

Uma obra que de início pode demorar a ser assimilada, mas que mostra a força de verdadeiras lendas, artistas consagrados que já não sentem mais a necessidade de provar algo para alguém. Que desejam acima de tudo se agradar no estúdio, para agradar o público ao vivo com a pirotecnia e o repertório com os bons e velhos clássicos de sempre.

Não é o melhor álbum da banda em trinta anos, como vi várias afirmações do tipo pela internet, mas com certeza, figura entre as obras mais marcantes de um grupo que ainda carrega coroa mais pesada da história do Heavy Metal (valeu pelo desfecho Maykon!).

 

TRACKLIST
01) Senjutsu
02) Stratego
03) The Writing On The Wall
04) Lost In A Lost World
05) Days Of Future Past
06) The Time Machine
07) Darkest Hour
08) Death Of The Celts
09) The Parchment
10) Hell On Earth

Consegue encontrar as referências de The Writing On The Wall?

Nascido no interior do estado de São Paulo em 1994, vocalista da Sacramentia, jornalista, fanático por colecionismo e biografias.