Se uma coisa é certa, é que em muitas vezes, o Heavy Metal acaba sim soando repetitivo e algumas bandas acabam se tornando uma versão emulada das próprias influências (e falo isso a nível global).

Mas este não é o caso da banda que apresento hoje. Senhoras e senhores, com vocês o Uhrutau.

Este Power Trio atualmente é formado pelo guitarrista e vocalista Maurício Bortoloto, o baixista Pedro Ghoneim e o baterista Matheus Vazquez.  O nome da banda faz menção ao pássaro noturno e misterioso da Amazônia, cujas lendas, o colocam como um ser amaldiçoado e um sinônimo para o mau agouro.

O grupo teve início no final de 2017, quando Dhieego Andrade (hoje ex-baterista), que já tocava há certo tempo com Maurício em bandas cover e o conhecera no curso de música da Unicamp (faculdade situada na cidade de Campinas, interior de São Paulo), o convidara para juntos formarem uma banda de Heavy Metal. Quando as primeiras composições começaram a tomar forma, logo Pedro foi integrado ao trio. A partir de então, o Uhrutau passou a executar as próprias músicas, passando por palcos de cidades distintas como São Paulo, Araraquara entre outras.

E após essa rápida introdução para você, que assim como eu, ainda não tinha ouvido falar sobre a banda, vamos mergulhar em Memory, o trabalho de estreia do Uhrutau.Abrindo com a faixa título, Memory demonstra uma boa sintonia do grupo como um todo, mas destaco aqui a cozinha da banda que acaba se sobressaindo mais. Há passagens sucintas nesta faixa que logo de cara, já demonstram todas as diversas camadas e facetas que o som do Uhrutau irá oferecer no decorrer da audição.

Na sequência temos Carnival, primeiro single de divulgação do trabalho. De atmosfera caótica, a canção apresenta a versatilidade de Bortoloto, cujos vocais, transitam entre o melódico e um gutural pra lá de competente. Apenas com este primeiro contato com os dois primeiros sons do disco, pude constatar que a veia progressiva e o virtuosismo da banda são executados de uma forma totalmente natural e nada robótica. É como se os próprios integrantes quisessem mais do que apenas demonstrar a técnica apurada, fazendo isso, ao mesmo tempo, em que se divertem e levam consigo o ouvinte.

Alcohol carrega uma atmosfera trôpega que casa perfeitamente com o título que carrega, dando a sensação a quem está ouvindo, do clássico balançar que só o efeito alcoólico é capaz de proporcionar.

She tem um início bem enérgico e talvez seja a faixa com a sonoridade mais “pra cima” do disco e conta com a participação especial de Fábio Caldeira, que além de assumir os vocais de uma das bandas de Power Metal com maior evidência da cena brasileira (o Maestrick) destacou-se recentemente ao escrever em conjunto com Edu Falaschi, todo o enredo do disco Vera Cruz. História esta que se tornou um romance de mais de 300 páginas, lançado pela editora mineira Estética Torta. Vale ressaltar, o quanto os momentos guturais casaram de forma competente com as passagens mais melódicas cantadas por Caldeira.

Gaze At The Flames é a música de menor duração em Memory e sem sombra de dúvidas a mais experimental também, apresentando uma sonoridade mais “noise” por entre um clima de completa melancolia.

Despertando-nos desse estado quase catatônico, somos arrebatados pelos poderosos Riffs de Parricidal uma das músicas mais pesadas de todo o play, com direito até a passagens de Blast Beats.

Wicked traz mais um excelente trabalho das quatro cordas de Ghoneim. Este foi o segundo single de divulgação do disco, e segundo o vocalista e letrista do grupo, a faixa é um manifesto anticapitalista. E acredite amigo, o refrão dessa música chega a ecoar na cabeça por certo tempo.  Segundo a banda, das oito composições presentes no álbum, Wicked é a mais ouvida e quista pelo público.

E fechando o disco, Stray Dog tem uma pegada rápida e mudanças de andamento quase esquizofrênicas e frenéticas, proporcionando um sabor dissonante ao final da audição. Gravado nas imediações do Estúdio Family Mob, o primeiro disco do trio sofreu atrasos provenientes da pandemia que nos assolava com força brutal até pouco tempo atrás. Neste mesmo estúdio cujo nomes de peso como Crypta, Krisiun e Ratos de Porão já passaram, a banda produziu este primeiro trabalho trazendo elementos muito distintos para a sonoridade do disco, buscando referências no Black Metal do Oathbreaker, no Indie do The Strokes, no progressivo do Dream Theater , no Power Metal do Angra e o metal experimental do Sumac. Tudo isso ainda, somado com as vivências dos músicos pela música brasileira e o jazz.

A produção e mixagem do álbum foi feita totalmente por Maurício Bortoloto. Já a masterização, ficou a cargo de Leonardo Nakabayashi.

Se pudesse resumir este primeiro trabalho em uma única palavra, usaria o termo “diferentão” para descrever Memory. A obra consegue reunir de forma harmoniosa, todas as influências que a inspirou, porém, de uma forma que se você não é o tipo de pessoa que gosta de pesquisar sobre esse tipo de coisa quando se escuta um disco, jamais saberia de qual fonte o Uhrutau bebe. A produção dispensa comentários, tendo em vista o nível do estúdio onde o trabalho fora concebido. Destaque também, para a intrigante arte de capa feita por Leonardo Lin que talvez pelo estilo dos traços, me lembrou muito a pintura Os Retirantes de Cândido Portinari.

O único fator que prejudicou um pouco a minha imersão ao trabalho, fora a ausência de um encarte, mesmo que simples, dentro da singela edição em CD que a banda colocou no mercado. E talvez por se tratar de um disco recentemente lançado, as letras são de difícil acesso, não estando disponíveis sequer no Spotify. Por este que vos escreve não ser um exímio instrumentista, gosto de focar minhas resenhas com mais ênfase na interpretação de cada música.

Mas não pense que você amigo leitor sairá sem saber ao menos um pouco sobre o que se passa nos versos de cada faixa. Segundo uma entrevista que a banda cedeu ao site Gaveta de Bagunças, Bertoloto afirma que a psicanálise foi o grande guia estético para Memory, levando as temáticas das letras a tratar de assuntos não de forma muito direta, mas próxima de uma associação livres de ideias, como o que ocorre em uma terapia. Além disso, temas como questões pessoais, políticas e afetivas que os integrantes vivenciaram enquanto compunham o disco, também se fizeram presentes.

Em suma, neste trabalho de estreia, o Uhrutau soube criar com perfeição uma aura singular em torno do próprio trabalho, em uma verdadeira miscelânea sonora, resultando em um disco de sonoridade bastante distinta e não linear. O trio não teme despejar técnica apurada em suas composições, mas faz todo o talento e habilidade se sobressair de forma natural, diferente de muitas bandas dentro do Metal Progressivo.

Agora, basta aguardamos para testemunharmos as futuras mutações que esta tão prolífera linha criativa da banda irá nos proporcionar em trabalhos que ainda estão por vir.

Tracklist:
1-Memory
2-Carnival
3-Alcohol
4-She
5-Gaze At The Flames
6-Parricidal
7-Wicked
8-Stray Dogs

Nascido no interior de São Paulo, jornalista e antigo vocalista da Sacramentia. Autor do livro O Teatro Mágico - O Tudo É Uma Coisa Só. Fanático por biografias e colecionismo.