A Finita vive um dos momentos mais importantes de sua trajetória. Celebrando 15 anos de atividade, a banda gaúcha alcançou um novo patamar artístico com o lançamento de Children of the Abyss, álbum que rapidamente conquistou espaço entre os trabalhos mais comentados do Metal Extremo nacional. Unindo a agressividade do Metal Extremo à grandiosidade das orquestrações e a uma narrativa conceitual profundamente elaborada, o disco reafirma a identidade construída pelo grupo ao longo de sua carreira e amplia seus horizontes criativos. Produzido por Thiago Bianchi e ambientado em um universo onde filosofia, mitologia, religião e ocultismo se encontram, o trabalho consolidou a Finita como uma das bandas mais ambiciosas e singulares da cena brasileira contemporânea.
Nesta entrevista, conversamos com a banda sobre a repercussão de Children of the Abyss, os desafios de transformar conceitos tão complexos em música, videoclipes e performances ao vivo, além das reflexões filosóficas que permeiam suas composições. Entre discussões sobre a figura de Caos, a releitura de personagens bíblicos, a construção de uma mitologia compartilhada e a expansão da presença da Finita para novos públicos, incluindo apresentações internacionais, o grupo revela detalhes dos bastidores de um álbum que celebra uma trajetória de quinze anos e aponta os próximos capítulos de uma obra artística cada vez mais grandiosa e provocativa.
Desde o seu lançamento “Children of the Abyss” foi apontado por diversos veículos como um dos grandes álbuns de 2025, marcando também um novo patamar na carreira da Finita. Como vocês estão assimilando essa repercussão e o impacto que o disco vem gerando?
Primeiramente, é um prazer responder a’O Subsolo e falar um pouco sobre nossos últimos trabalhos. As composições e letras do Children of the Abyss abordam o caos e a dissonância, elementos que dialogam com a identidade da banda. A gestação foi longa e bem planejada. O retorno do público e da mídia especializada foi excelente, e ficamos muito felizes em sermos lembrados em tantas listas de melhores do ano. Já esperávamos uma recepção positiva, mas foi surpreendente ver nosso álbum lado a lado com bandas do mainstream como Testament, Paradise Lost e Arch Enemy, que são grandes referências para nós. Essa sensação não tem preço!

O álbum celebra também os 15 anos da banda. De que forma esse momento influenciou as decisões artísticas e o nível de ambição que vocês colocaram nesse trabalho?
São 15 anos de dedicação e vivência no underground. Nosso forte sempre foi tocar ao vivo e viver a cena como banda e como público. O amadurecimento é natural e houve também um reconhecimento progressivo dessa trajetória. Com isso, foi necessário diálogo e reavaliação sobre o que desejamos enquanto banda. Buscar uma abordagem cada vez mais profissional está ligado ao desejo de que nossa arte chegue mais longe e continue encontrando nosso público pelo mundo. Essa postura diz respeito não apenas ao alcance da arte, mas também à necessidade de deixar um legado. A banda é Finita, ou seja, nós partiremos em algum momento, mas a arte é eterna. Queremos deixar uma marca, uma memória linda.
Um dos pontos mais marcantes do disco é a construção de uma mitologia própria, que mistura filosofia, religião e literatura. Como surgiu esse universo e até que ponto ele já estava planejado desde trabalhos anteriores?
Nossas composições estão sempre mergulhadas em reflexões filosóficas, e a filosofia nasce como resposta natural à mitologia. O mythos depende de uma crença, é uma narrativa que atravessa gerações. A filosofia, por sua vez, diz respeito ao logos: busca compreender e conectar logicamente os conceitos já presentes nas narrativas vividas. Acredito que o nascimento desse universo mitológico, como você descreve, surge de um problema filosófico milenar: se Deus é perfeito (onipresente, onisciente e onipotente), como é possível o mal no mundo? Existe o mal? Essa questão é essencial e atravessa a caminhada humana. Se o mal não existe ontologicamente, como sugere Santo Agostinho, como devemos entender a morte, o suicídio, a traição, a dor? Sob esse prisma, a figura de Lúcifer como anjo caído e antagonista do Criador se torna ainda mais complexa, e é nela que exploramos essas questões em trabalhos anteriores. Não chega a ser um universo mitológico próprio, mas sim um ponto de vista diferente sobre um universo compartilhado.
A figura de Caos como Deusa do Abismo e a ideia de uma “segunda guerra dos anjos” são conceitos muito fortes dentro do álbum. O que motivou essa abordagem e que tipo de reflexões vocês queriam provocar com essa narrativa?
A segunda guerra dos anjos também está associada aos trabalhos anteriores e diz respeito à ascensão de Lúcifer ao plano etéreo e como isso altera a estrutura e as regras do mundo físico. Assim, torna-se possível o retorno de figuras míticas e da magia por aqui. Sobre a Deusa, ela é a figura central deste álbum. A filosofia está associada à luz. A história ocidental moderna nos deixou como herança uma visão positiva da ciência e da filosofia, sem espaço para crença, fé, mito ou metafísica. Mas a contemporaneidade não colheu o progresso esperado. Pelo contrário, estamos mergulhados em caos, guerra, fome, ódio e tantas outras mazelas. A reflexão principal é: como nossa “poderosa” razão nos trouxe até esse caos? A ideia da Deusa é justamente dar um grande passo atrás e observar, sob uma perspectiva privilegiada, a ruína humana pela própria vaidade. Há aqui um retorno ao mito e um chamado à realidade. Os gregos acreditavam em uma deidade originária chamada Chaos, pai de Nyx (Noite) e Erebos (Escuridão), anterior ao logos. Essa deidade não tem gênero, mas escolhemos a figura da mãe como criadora, a partir da qual o álbum se desenvolve.
Musicalmente, o álbum expande bastante a sonoridade da banda, incorporando orquestrações e elementos mais cinematográficos. Como foi o processo de construção desse som e qual foi o papel do Thiago Bianchi nesse resultado final?
O processo de produção deste álbum foi muito divertido, e o papel do Bianchi foi fundamental. O Estúdio Fusão entrou em contato conosco com a proposta de criar “O” álbum da banda. Depois de algumas reuniões com Thiago, começamos a pré-produção, que durou meio ano. Além do cuidado nesse processo, Thiago foi criterioso na gravação, na produção dos clipes e praticamente nos adotou nesse período, dedicando parte de seu tempo para nos aconselhar sobre os próximos passos da banda. Sobre as orquestrações, Thiago nos indicou Pablo Greg, que ouviu atentamente os sons e captou muito bem a identidade e a necessidade da banda. A ideia de criar orquestrações era antiga, mas este pareceu o momento certo.
Os videoclipes têm sido uma extensão essencial da experiência do álbum. “Witch’s Laugh”, por exemplo, traz uma estética ritualística muito forte baseada no Samhain. Como foi transformar esse conceito em linguagem visual?
Witch’s Laugh fala sobre o retorno das bruxas. É uma espécie de Samhain macabro, uma festa regada a sangue humano durante a retomada de um mundo antigo. A construção do roteiro foi conjunta e não nos limitamos em nenhum momento. O final ritualístico bizarro do clipe foi discutido minuciosamente e dirigido com maestria por Thiago. Ele tem um olhar afiado para o cinema, e as lentes do Lemon foram impecáveis. Foi uma experiência única.
Já “Quicksand” apresenta uma releitura ousada da figura de Lúcifer em uma narrativa quase trágica de amor. Como nasceu essa ideia e qual foi o desafio de equilibrar um tema tão sensível com a proposta artística da banda?
O nível de blasfêmia e sarcasmo é alto nesse som, mas é importante salientar que não se trata de uma abordagem superficial. Na obra Ficções, de Jorge Luis Borges, há um conto chamado Três versões de Judas, onde Borges questiona se Judas era mesmo um traidor, se era peça fundamental da vontade divina ou se ele próprio era o filho de Deus que se tornou carne para sofrer pelos nossos pecados. Afinal, Jesus não foi verdadeiramente humano. A narrativa canônica mostra um Jesus divino, impecável, infalível. Esse conto me tocou muito na juventude e ampliou minha perspectiva: e se Lúcifer fosse o filho de Deus enviado à Terra para sentir na pele a experiência humana? Nesse sentido, o abandono, o medo, o ódio, a corrupção, mas também o arrependimento, a empatia, o amor e a criação fariam parte de sua jornada. Dentro dessa perspectiva, Quicksand narra sua paixão por Maria, o estado de embriaguez e a descoberta do poder divino da criação. O insight de Ficções ultrapassa a fantasia: apenas Lúcifer poderia ser o verdadeiro pai de Jesus e ensinar-lhe a “regra de ouro”, pois observou a humanidade desde o princípio e concluiu que não somos tão diferentes uns dos outros.
O lyric video de “Goddess of Disharmony” aprofunda ainda mais o conceito do álbum, trazendo uma perspectiva quase filosófica sobre o caos e a existência. Vocês enxergam essa faixa como o “coração conceitual” do disco?
Essa música é conceitualmente central no álbum e alia a ideia de caos criador à dissonância. O lyric compara a figura grandiosa da deusa do caos e da dissonância à frágil, efêmera e vaidosa figura humana. O universo existia muito antes de nós e existirá muito depois. Aceitar isso é assustador, mas também libertador.
Em “Sketch Art”, há uma abordagem extremamente humana e dolorosa sobre o processo criativo, com referências a Vincent van Gogh. O que essa música representa para vocês dentro da narrativa do álbum?
Essa música tem uma história diferente das demais. Estamos próximos de lançar um livro contando a narrativa principal que atravessa os últimos trabalhos, dividido em treze capítulos. Ao terminar o manuscrito, Fernando percebeu que havia um capítulo não associado a nenhuma música. Ele surgiu naturalmente durante a escrita e explorava a visita do Anjo Gabriel a Maria, anunciando sua gravidez e revelando que Jesus, filho de Lúcifer, fazia parte de um plano divino maior. A expectativa era que surgisse uma música sobre esse tema. Ao compor, escrevi sobre a chegada de um salvador ao mundo. Mas tudo o que desce ao plano material e finito se corrompe e sofre com a ignorância própria e alheia. A filosofia platônica, por exemplo, sugere que nossa alma, ao entrar neste mundo por intermédio do corpo, esquece experiências passadas e se torna refém das ilusões sensíveis. Esse mundo de incertezas gera sensação de abandono e falta de sentido. É como se fôssemos rascunhos de uma obra de arte esquecida em um sótão, buscando reconhecimento. Um ser divino poderia não ser reconhecido e também estaria sujeito à corrupção da sensibilidade. Assim funciona com a verdadeira arte: muitas vezes vemos mercadorias vendidas como arte, enquanto a arte genuína é ignorada pelo público comum. O clipe faz uma analogia interessante sobre ser artista em um mundo que não percebe a arte. As dúvidas, a busca pela perfeição, o entorpecimento, as formas de esquecimento da realidade e, por fim, o suicídio como fuga da dor. A personagem principal é uma pintora que passa por todas essas etapas. O clipe foi lançado no dia da morte de Vincent van Gogh como homenagem, lembrando que ele se matou com um tiro no peito e não teve reconhecimento em vida. Cabe fazer uma reflexão aqui: a verdadeira arte não deve se importar muito com a massa e com o mercado. O artista deve criar a sua arte de maneira genuína e esperar que ela reverbere em quem realmente tem condições de compreendê-la. O suicídio pode ser uma trágica consequência de quem caiu em uma armadilha da vaidade humana. Vivam, meus queridos! A vida é boa e feliz, mas quando a tristeza e a melancolia os encontrarem, transforme-as em arte!
A Finita também é conhecida por suas apresentações ao vivo performáticas e teatrais, e recentemente vem expandindo sua presença, incluindo shows internacionais como na Argentina. Como tem sido levar esse universo tão denso para o palco e para diferentes públicos?
Não existe nada melhor do que o chão do palco e a arte construída junto ao público. Cada show é único, e nos dedicamos muito para apresentar não só a música, mas também uma experiência visual equivalente. Para nós, cada música é um conto, um capítulo que deve ser apresentado ao seu modo. Então não é apenas música, mas também teatralidade, arte visual, merchandising, tudo pensado a partir de um ponto de vista artístico. Estamos muito felizes em tocar em outros estados e, recentemente, na Argentina. Queremos viajar mais, conhecer novos públicos, produções diferentes e outros artistas. Há muitas bandas boas que só são verdadeiramente vividas ao vivo, e essa barreira espacial o mundo virtual nunca vai transpor.
O espaço está aberto para vocês deixarem uma mensagem para seus fãs e os leitores d’O Subsolo.
Nossa existência só faz sentido para quem também ouve esse chamado obscuro e caótico do Metal Extremo. Precisamos lembrar que o underground é algo único e valioso, e vivemos um momento mágico que nem todos percebem. Muitos são nostálgicos ou pessimistas em relação ao futuro, mas nós temos uma perspectiva diferente: hoje existem muitas bandas boas, a qualidade dos equipamentos, dos shows e das gravações melhorou muito. Tudo é mais acessível e contamos com mídias especializadas excelentes, como O Subsolo, que nos conectam cada vez mais à arte obscura. Cabe a nós separar o que é arte do que não é, valorizar aquilo que nos toca e tornar nosso universo cada vez mais forte. Por isso, finalizamos agradecendo imensamente a este espaço tão importante e a todo o público da Finita, aos que sempre estiveram fortes conosco e também a vocês que estão chegando. Este é, sem dúvida, o tempo certo!












