Há noites que não são apenas “shows”, mas verdadeiros momentos de consagração para a história da nossa cena underground. O que se presenciou no último dia 6 de junho, no palco do Clay Highway Bar, em Curitiba, foi exatamente isso: uma comunhão brutal que mobilizou a nata do Metal Extremo nacional. Um daqueles eventos que transcendem a condição de simples show e se transformam em um verdadeiro encontro de gerações do Metal nacional.

O evento, com participação especial de Marcello Pompeu, vocalista do lendário Korzus, consolidou-se como um dos momentos mais relevantes do calendário Underground curitibano em 2026. E contou com a cobertura em peso dos principais veículos especializados e, logicamente, O Subsolo marcou presença firme, honrando nosso compromisso inabalável de apoiar o Underground; a magnitude provou que a capital paranaense continua sendo um dos epicentros mais efervescentes do Heavy Metal brasileiro.

A proposta da noite já era ambiciosa por si só: unir o peso das pratas da casa, um tributo avassalador ao gigante do Thrash Metal de todos os tempos, Slayer, e a presença ilustre de uma das maiores lendas vivas do nosso cenário, tudo isso executado por músicos renomados e profundamente respeitados. O resultado? Um baita show de quase duas horas, discursos emocionados e um público que lotou as dependências da casa, transformando o local em um caldeirão.

A responsabilidade da abertura ocorreu por conta da Royal Rage. Cria legítima da cena curitibana, a banda destilou seu Thrash Metal técnico com a maestria de quem domina o palco como poucos, e mais uma vez demonstrou por que é considerada um dos nomes mais respeitados do Thrash Metal nacional. Com uma performance técnica extremamente entrosada, o grupo aqueceu o público para o que viria a seguir.

Fotos: Vladimir Silverio

Mas foi quando os integrantes da Atrocitus tomaram o palco para dar início ao bloco mais aguardado da noite, acompanhados por uma seleção de músicos gabaritados da cena extrema, que a atmosfera da casa ganhou contornos especiais. Mais do que um tributo ao gigante Slayer, o espetáculo se transformou em uma homenagem coletiva da história do Metal Extremo brasileiro. Durante quase duas horas, músicos renomados da cena nacional conduziram uma verdadeira viagem pela discografia da banda norte-americana, mesclando clássicos eternizados pelo quarteto de Los Angeles com momentos dedicados ao repertório autoral dos músicos envolvidos. A proposta não era apenas fazer um cover comum, mas sim uma entrega com a propriedade de quem vive e respira o gênero.

A entrada de Pompeu foi recebida com entusiasmo imediato. Com impressionantes 43 anos de trajetória dedicados ao Heavy Metal, o vocalista demonstrou por que permanece como uma das figuras mais respeitadas do gênero no Brasil. Em diversos momentos da apresentação, sua conexão com o público ficou evidente. Relembrando sua última passagem pela capital paranaense ao lado do Korzus, destacou o carinho que recebe dos fãs e afirmou que o apoio da plateia faz com que ele continue se sentindo útil para o Heavy Metal brasileiro.

Fotos: Vladimir Silverio

O vocalista também fez questão de exaltar os músicos presentes no palco, apresentando cada integrante individualmente e ressaltando o orgulho que sente ao ver talentos da cena nacional mantendo viva a chama do Metal Extremo. Em um dos momentos mais simbólicos da noite, destacou que Curitiba deveria sentir orgulho de seus representantes, afirmando que muitos dos nomes responsáveis pela construção e manutenção da cena local estavam essa noite reunidos naquele palco.

A apresentação foi marcada por sucessivos momentos de intensidade. Clássicos do Slayer foram recebidos com euforia, servindo como uma espécie de esquenta para o tão aguardado show do gigante do Metal que contará com a apresentação do Korzus neste próximo 17 de dezembro no Allianz Parque em São Paulo, grande conquista de orgulho para a banda. Rodas surgiram naturalmente no meio da pista e o público respondeu com a devida energia do início ao fim. Durante a execução de Angel of Death, um dos pontos altos da noite, Pompeu convocou os presentes a incendiarem o salão, incentivando a formação do maior mosh da noite. O resultado veio imediato com uma descarga de adrenalina para os amantes do Thrash Metal.

A sinergia entre os músicos no palco era palpável. Durante as apresentações dos integrantes, o clima de camaradagem e respeito ditou o tom, com direito a momentos descontraídos, como quando Pompeu elogiou a precisão milimétrica de Pettrus na bateria e brincou com a semelhança visual do guitarrista Vitor com um dos personagens da saga Harry Potter, rendendo gargalhadas e aplausos da plateia.

Isto não foi apenas bandas entregando música, os artistas presentes transmitiram uma mensagem clara sobre a importância do fortalecimento da cena Underground. Em diversos momentos, foi ressaltado que sem o apoio do público, das casas de shows, dos produtores e dos veículos especializados, torna-se cada vez mais difícil manter projetos ligados ao Metal Extremo ativos e relevantes. Uma mensagem especialmente importante em tempos nos quais a resistência cultural do Underground continua sendo fundamental para a sobrevivência do gênero.

O encerramento trouxe um dos momentos mais emocionantes da noite. Antes das últimas músicas, Pompeu agradeceu nominalmente todos os profissionais envolvidos na realização do evento, desde equipe técnica, operadores de som e iluminação até colaboradores dos bastidores, reforçando que cada pessoa presente teve participação direta no sucesso da apresentação. Também fez questão de agradecer à empresa responsável pelo suporte logístico da turnê e, principalmente, ao público que lotou a casa.

“Vocês são meu combustível”, declarou o vocalista, arrancando aplausos da plateia. Em seguida, afirmou que continuará subindo aos palcos enquanto sua música continuar representando algo para as pessoas, destacando que poucas sensações se comparam à energia de tocar diante de uma audiência apaixonada.

O que aconteceu no Clay Highway Bar naquela noite foi muito mais do que um tributo ao Slayer. Foi uma demonstração prática da força da cena Underground brasileira, reunindo músicos experientes, bandas em ascensão, imprensa especializada e fãs apaixonados em torno de um propósito comum: manter vivo o espírito do Heavy Metal.

E, naturalmente, O SubSolo não poderia ficar de fora. Afinal, apoiar o Underground sempre foi nossa principal causa.

 

Especialista em traduzir o peso do Metal em conteúdo autêntico, crítico e sem filtro. Nem tudo que eu escrevo é sobre música, mas tudo começa nela, porque há conexões que nascem no som e só se revelam depois do último acorde, no silêncio da noite. Entre palcos e bastidores, registro o que poucos percebem, algumas histórias não cabem em palavras, mas ainda assim, eu tento.