Admito que custei para gostar desse álbum, tive que ouvir umas três ou quatro vezes até ele diluir por inteiro e então me conquistar por definitivo a ponto de eu não conseguir tirar ele da cabeça. Na primeira ouvida, pensei que ele seria um ‘7.5’, mas agora ele se aproxima da nota dez, sem a menor dúvida. Ømni é o primeiro álbum do Angra desde o Temple of Shadows que me dá um verdadeiro gosto em ouvir repetidamente, sem pular nenhuma faixa, apenas apreciando o que cada uma tem para oferecer. Digo isso pois cada faixa é única, com construções e propostas diferentes. No entanto, uma coisa é fato e comum na maioria delas: a banda traz em definitivo um som mais grave e poderoso, contando como de característico com um pano de fundo rico em elementos que somam muito na musicalidade apresentada. Em dados momentos, temos riffs que remetem às influências mais power do Angra, mas no geral, temos uma inclinação muito maior para o progressivo, com afinações mais baixas que as de costume da banda e bom uso desse recurso para inserir grandes proporções de peso.

No entanto, isso não é uma regra. O álbum é bem dosado e apresenta vários momentos cleans e suaves, que refletem as peças mais delicadas da obra conceitual por trás de Ømni. A temática é retratada ao longo das dez letras escritas por Rafael Bittencourt para o álbum, que narram o que o guitarrista definiu como um resgate entre passado, presente e também futuro da banda, fazendo ligações desde a jornada espiritual do Caçador das Sombras de Temple of Shadows, as descobertas e mistérios de Holy Land e os conflitos entre amor e ciência enfrentados por Morten Vrolik em Secret Garden. Apenas um gênio com tamanha bagagem e criatividade poderia entrelaçar tudo isso e tornar Ømni o denominador comum na grande história que o Angra contou ao longo destes quase trinta anos de carreira.

Além do trabalho letrístico fenomenal, Rafael faz um trabalho magnífico nas guitarras ao lado do estreante Marcelo Barbosa, que teve espaço de sobra para esbanjar o melhor de sua técnica nos solos. Confesso que, apesar de impressionarem e intimidarem, nenhum me cativou em especial. É fácil notar que temos excesso de virtuosidade nos solos, mas acredito que tenham sido usados na intenção de serem elementos de transição nas músicas. Os solos, que normalmente são os brincos da maioria das canções por aí a fora, são em Ømni apenas mais uma peça em meio ao todo da arte criada pelo Angra. Já os riffs executados pela dupla são inspirados e autênticos, por vezes recorrem a inspirações do passado e presente para construção das peças apresentadas, sendo assim elementos cruciais na dinâmica sonora moldada neste disco.

Além das cordas de Bittencourt e Barbosa, temos um trabalho soberbo e simplesmente impecável de Felipe Andreolli. É de dar gosto ouvir as linhas de baixo de Ømni, que preenchem e transbordam cada música. Andreolli mais uma vez se mostra monstruoso em seu instrumento e demonstra uma noção musical absurda, o que resulta em bass lines que roubam a cena em diversos momento ao longo do álbum. Seu companheiro de condução é o também extraordinário Bruno Valverde, que após passar na prova de fogo que foi a gravação do Secret Garden e dar conta do recado nos inúmeros shows que já fez com a banda, chegou a hora dele se firmar definitivamente como um dos grandes nomes da bateria no Brasil. Não é pouca coisa ter que dividir a cozinha da banda com Andreolli, é necessário ter parâmetros elevados para oferecer no momento das composições, e em Ømni podemos ver que isso dá muito certo. Atentem seus ouvidos para os grooves que surgem aqui e ali no meio das músicas, quebrando o previsível a todo instante.

E agora a vez daquele que é implacável. Ele mesmo, o mago Fábio Lione. Que performance esplêndida do italiano neste disco. Se alguns não ficaram convencidos em Secret Garden, aqui ele solta toda a voz dele, cravando definitivamente a tradição de que o segundo álbum de cada vocalista na banda será uma peça épica. Impecável e incontestável, a interpretação de Lione é até emocionante em algumas faixas, pois bota à tona cada palavra, cada sentimento e cada intenção por trás das letras.

Como disse no começo, Ømni é um disco de difícil compreensão para os ouvidos desatentos. As primeiras faixas, “Light of Transcendence” e “Travelers of Time” já eram conhecidas, a primeira, rápida e detentora de riffs épicos com a tradicional cara de música de abertura de álbum do Angra, havia sido divulgada anteriormente em uma rádio japonesa, enquanto a segunda foi lançada como single pela banda, e era a primeira amostra das tendências graves e percussivas que a banda ia trazer à tona no disco. Estas já tinham o ouvido moldado do ouvinte, que já começavam o disco com essas duas “já esperadas”, então não houveram surpresas… mas isso viria logo em seguida.


“Let me tell you a little tale, maybe you have heard it before.”. Com uma voz doce e suave que começa a maior surpresa e espanto desse álbum. Diria que é a primeira faixa de Ømni em que a banda chuta o balde (mas não última), como quem diz “se é pra chocar, que seja logo de cara”. Sandy é quem inicia a faixa “Black Widow’s Web”, e de fato não compromete e cumpre bem seu papel na introdução melódica da música. Todo o auê em volta da participação da cantora acaba sendo bem aproveitado pelo Angra, que ganhou, só nessa participação, algumas centenas de ouvintes curiosos a mais. Outras centenas de “imigrantes” vieram por causa da outra participação nessa faixa: Alissa White-Gluz, vocalista da banda de Death Metal Melódico Arch Enemy. Assim que seus guturais ecoam logo no verso, após a vez de Lione, o choque é instantâneo. Primeiro pelo peso abusivo do instrumental, segundo por vermos algo que muitos sequer imaginavam no Angra. E sabe o que é o melhor disso? É que ficou muito bom. A música possui um bom refrão, com bom aproveitamento dos dois vocalistas, mesclando a classe do italiano com a agressividade da canadense, que em outros momentos aquieta sua fera para dar vez ao uso de sua voz clean, que também é excelente e faz um acompanhamento perfeito para Lione.

Passado o choque dessa breve passada pelo Death Metal, voltamos às experimentações mais tradicionais da banda: corais, refrões altos, coros e linhas instrumentais exuberantes. Falo de “Insania”, que de toda sua composição, para mim, o maior destaque fica para o trabalho conjunto de Andreolli e Valverde. O groove que conduz a música é absurdo e coloca ela em um nível acima em termos de musicalidade, te fazendo quase esquecer as guitarras e vocal, tamanha qualidade impressa pela dupla. Na faixa seguinte, é a vez de outro músico surgir como destaque: Rafael Bittencourt, que canta a bela e sincera balada “The Bottom of My Soul”. Aliás, acostume-se com o vocal do guitarrista sendo bastante presente (na faixa #2 já havia aparecido de forma efetiva), pois caso não tenha acostumado com as faixas de Secret Garden, aqui ele surge tanto quanto no disco de 2014. Com belos arranjos e uma boa interpretação vocal por parte de Rafael, a música é uma acalmada nos ânimos e um toque na alma no ouvinte antes de voltarmos à carga máxima, como ocorre com a poderosa “War Horns“, que é explosiva, com riffs pesados e intensos. Lione narra um cenário apocalíptico com fúria, enquanto a transição das guitarras que martelam na cabeça para belas orquestrações é um charme na composição, além daquele que é o maior destaque, ficando por conta da participação do ex-guitarrista da banda Kiko Loureiro (atual Megadeth), que faz seu registro na canção com um solo técnico, chamativo e épico, que podemos dizer que tem de fato sua assinatura.



A #7 de Ømni é o ponto alto de toda a obra, por ser mais um momento em que a banda ousa em sua composição. É ouvindo o começo dessa música que vejo que o Angra tem uma fanbase única. Analise a seguinte verso: 

Olha o macaco na árvore, há outro naquele galho.

Onde que eu não to vendo?

Embaixo daquela flor.

Pense se essas frases, em português mesmo, fossem inseridas em qualquer música de qualquer outra banda o quanto que os fãs dela iriam reclamar e perguntar “o que c@%@&#@$ é isso?“. Mas aqui, em “Caveman” tudo faz enorme sentido com o conceito do disco e soa simplesmente genial, e os fãs da banda compraram totalmente essa ideia. O ritmo tribal é contagiante, mas de repente ele dá vez para uma linda melodia que conduz o melhor refrão desse disco, com letras que fazem alusões filosóficas e históricas, além de ficarem na cabeça junto à voz marcante de Lione. É uma música que traz também referências sonoras em alguns momentos a outras fases da banda, como em Holy Land e Temple of Shadows, deixando alguns fãs já animados para ver o impacto dela ao vivo -inclusive eu.


Magic Mirror” é mais uma que sinto influências da própria sonoridade que a banda já havia apresentado em outrora, neste caso sinto novamente um vibe similar à de algumas faixas de Temple of Shadows, mas obviamente somando à tendência mais contemporânea que a banda trouxe no geral deste disco. O background sonoro é rico, e pequenos nuances dão brilho à canção. O trabalho instrumental é novamente impecável, com um interlúdio que vai de encontro ao metal progressivo sem pensar duas vezes. O oposto ocorre em “Always More”, onde a banda deixa de lado esse som mais massivo e volta pras baladas. Em termos de beleza, esta é de longe a vencedora. O arranjo das guitarras e demais instrumentos faz sua mente viajar, imaginar belos momentos em sua vida, pensar em cenas típicas de filme. A voz de Lione é emotiva como a letra pede, sendo o elemento perfeito para tornar essa música aquela que vai fazer muito headbanger olhar pra baixo pra não demonstrar que está com os olhos embargados de lágrimas -digo isso por já ter lido relatos emocionados sobre essa música.

As duas últimas faixas são as “faixas-título” do disco. “Ømni – Silence Inside” começa com um throwback in time à lenda do Caçador das Sombras. Impossível não lembrar da linda introdução de “The Shadow Hunter“, mas também é impossível não notar a beleza própria dos arranjos deste início da faixa #10 de Ømni, que me fez imaginar algo sendo desconstruído ou desmontado em camera lenta. A sensação permanece ao entrarem guitarras furiosas de Bittencourt e Barbosa, com abuso de peso e wah-wah. A melodia cadenciada e muito bem trabalhada toma as vozes de Rafael Bittencourt, que depois dá vez para Fábio Lione entoar os refrões. A letra leva Ømni em seu título por se tratar exatamente dos questionamentos e construções filosóficas que foram feitas ao longo do disco. Se no começo o disco busca de alguma forma salvar a humanidade com os conhecimentos futuros, agora destaca que “estamos cada dia melhores em destruirmos aquilo que o amor e o caos constroem. Será que nosso Deus não pode estar errado?”. Tudo indica que estamos de volta na destruição do mundo que é contada em Rebirth, ou seja, um retorno direto na própria narrativa que Bittencourt começou anos atrás. E tal fato merece mais atenção e estudo, pois em Ømni temos a certeza de que todos os conceitos já explorados pelo Angra estão relacionados de alguma forma.

Ainda em êxtase pelo disco que se passara, “Ømni – Infinite Nothing” é a faixa final, remetendo diretamente à composição de “Gate XIII” do álbum de 2004. Uma peça orquestral montada com passagens de todas as faixas anteriores, encaixadas em uma linda música que encerra de forma épica o trabalho que coloca o Angra como forte postulante à detentor do álbum do ano. A turnê mundial de promoção do Ømni desde já tenho certeza que será um sucesso, e torço para que todas as faixas sejam executadas na íntegra, e que mais trabalhos relacionados à este fantástico disco sejam lançados pela banda, como Rafael garantiu que poderia ocorrer em entrevistas concedidas anteriormente.


Com isso encerramos a experiência de Ømni, que é um registro definitivo de que o Angra nunca deve acabar, pois sempre se renova e se modifica de forma inteligente. É injusto querer comparar com os clássicos de tempos anteriores para dizer qual é melhor ou pior, pois é muito nítido como cada um dos discos ajudou a construir o Angra que conhecemos hoje e como influenciaram na composição das faixas do disco que será lançado oficialmente no dia 16. Ømni é um tributo ao passado, um brinde ao presente e uma ode ao futuro que está por vir… ou talvez já tenha vindo para alguém que veio de dias à frente do nosso e que hoje vive entre nós para espalhar seu conhecimento adquirido em forma de música… 


MÚSICOS

  • Fábio Lione – vocais
  • Rafael Bittencourt – guitarra e vocais
  • Marcelo Barbosa – guitarra
  • Felipe Andreolli – baixo
  • Bruno Valverde – baterista
FAIXAS
  1. Light of Transcendence
  2. Traveler of Time
  3. Black Widow’s Web (feat. Sandy Leah & Alissa White-Gluz)
  4. Insania
  5. The Bottom of My Soul
  6. War Horns (feat. Kiko Loureiro)
  7. Caveman
  8. Magic Mirror
  9. Always More
  10. Ømni – Silence Inside
  11. Ømni – Infinite Nothing
Onde há espaço para escrever, tenha certeza que irei deixar minhas palavras. Foi assim que me tornei letrista, escritor e roteirista, ainda transformando minha paixão por música em uma atividade para a vida. Nos palcos, sou baixista da Dark New Farm, e fora deles, redator graduado em Publicidade e Propaganda para o que surgir pela frente.