A única certeza que temos na vida é a morte. Mais cedo ou mais tarde, ela nos alcança, seja levando alguém que amamos ou a nós mesmos. E talvez resida aí a maior ironia da existência: aquilo que sabemos ser inevitável também é o seu maior mistério. Sabemos que a morte está sempre à espreita, mas o que existe depois dela permanece desconhecido. Nem os relatos de experiências de quase morte, as famosas EQMs, nem os avanços da tecnologia e da inteligência artificial foram capazes de responder com precisão à pergunta que acompanha a humanidade há séculos: o que vem depois da morte?

E dessa forma abrupta, mas longe de ser um movimento sem contexto, que o Sepultura em 23 de dezembro de 2023 anunciava oficialmente sua “morte” ao anunciar a turnê celebrativa de 40 anos. A partir desse episódio muita coisa se desenrolou, como a saída repentina do baterista Eloy Casagrande, a chegada do prodígio Greyson Nekrutman, o desenrolar da Celebrating Life Through Death e a chegada do trabalho que analiso hoje, The Cloud of Unknowing.

Sem a menor cerimônia, a pedrada All Souls Rising atinge os ouvidos em um refrão pra lá de cativante, além de trazer elementos orquestrais. Ao final, a faixa parece uma mistura da agressividade vista em trabalhos como Dante XXI (2004) e aquela pitada seca e Hardcore de A-Lex (2009), o que mais pra frente você verá que faz total sentido. Freando bruscamente o ritmo da audição, eis que surge a faixa que com certeza foi a mais comentada, antes mesmo da chegada do trabalho.

Quando o Sepultura definiu Beyond The Dream como a primeira balada de sua carreira, a afirmação, pelo menos para este que vos escreve, gerou questionamentos. Embora a banda tenha total propriedade para interpretar ou rotular o que é ou não em sua própria obra, é difícil ignorar que músicas da era Derrick Green, como Grief, do The Mediator Between Head and Hands Must Be the Heart (2013), já exploravam elementos típicos de uma balada, mesmo envoltas por uma atmosfera sombria e pesada. Até mesmo Machine Messiah apresentava momentos que apontavam nessa direção.

Mas, no fim das contas, isso é apenas um detalhe. O principal é que Beyond The Dream funciona muito bem como música. A faixa aposta em uma abordagem melódica e reflexiva sem cair nos clichês da balada romântica, reforçando o tom filosófico que permeia o EP. A letra trata da aceitação do fim como uma porta de entrada para um novo recomeço.

Outro ponto de destaque é a participação de Sérgio Britto e Tony Bellotto, da banda Titãs. A colaboração faz sentido não apenas pela qualidade dos músicos, principalmente quando o assunto é a criação de baladas, mas também pela histórica admiração que o Sepultura sempre nutriu pela banda paulista. O resultado é uma composição madura, sensível e bem construída, que talvez não seja (para mim) a primeira do grupo, mas certamente merece ser celebrada por seus próprios méritos.

O lado mais groovado da banda aparece em Sacred Books, uma faixa poderosíssima que faz o pescoço sacudir e a tradicional careta de aprovação surgir no rosto. E aqui o Sepultura aposta o peso em mais uma experimentação certeira: um incrível solo de piano que, em momento algum, descaracteriza ou reduz a força da composição. Pelo contrário, agrega ainda mais ao resultado final, encaixando-se de forma tão natural que parece estranho imaginar que instrumentos como esse não sejam usados com mais frequência dentro desse tipo de sonoridade.

Fechando o EP ao dosar perfeitamente o peso e a ira com momentos mais contemplativos e serenos, The Place é um grito de resistência para aqueles que foram forçados a abandonar a própria terra em busca de sobrevivência. Uma reflexão sobre a tentativa de criar raízes em territórios estrangeiros e a incessante busca por um lugar que, enfim, possa ser chamado de lar.

Lançado oficialmente em 24 de abril de 2026, The Cloud of Unknowing foi gravado de forma totalmente despretensiosa nas imediações do Criteria Studios em Miami. A produção ficou a cargo de Stanley Soares, que não trabalhava com o Sepultura desde A-Lex (2009). Já a capa é assinada pelo artista Corran Brownlee. A princípio a banda restringiu a aquisição das versões físicas do disco para os fãs que adquirissem o pacote VIP para os shows da Celebrating Life Through Death, porém, agora o lançamento em mídia física, pelo menos em terras brasileiras, ficou nas mãos da Dynamo Store.

Em suma, parafraseando o Teatro Mágico, o fim é belo e incerto, e foi exatamente essa sensação que os 16 minutos de The Cloud of Unknowing me deixaram. Assim como na reflexão que abre esta resenha, terminei a audição com mais perguntas do que respostas e inúmeras possibilidades rondando a cabeça.

A primeira delas é que o EP cumpre bem o seu propósito, sobretudo considerando a forma como a música é consumida atualmente. Ainda assim, para quem gosta de mergulhar em trabalhos mais completos, The Cloud of Unknowing desperta uma sensação curiosa. Não exatamente de falta, mas de que existe algo além dessas quatro faixas. Talvez seja apenas uma impressão causada pela curta duração do registro, mas me peguei imaginando a possibilidade de uma segunda parte já pronta, escondida em algum lugar e esperando o momento certo para ser revelada. Pode nunca acontecer, mas foi um pensamento que a audição inevitavelmente provocou. Talvez um possível estágio de negação?

E talvez seja justamente essa vontade de querer mais que se torne um fator decisivo no futuro da própria banda. Afinal, em um mercado movido por reuniões, retornos e despedidas que raramente são definitivas, acreditar que o Sepultura jamais voltará à ativa após o derradeiro show marcado para novembro, no histórico estádio do Pacaembu, em São Paulo, parece um exercício de ingenuidade. Se a intenção do grupo com este lançamento era nos fazer testemunhar um adeus, admito que, de forma sincera e morbidamente egoísta, gostaria que esse moribundo permanecesse respirando por mais algum tempo antes de enfim partir.

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Nascido no interior de São Paulo, jornalista e antigo vocalista da Sacramentia. Autor do livro O Teatro Mágico - O Tudo É Uma Coisa Só. Mentor do projeto Path of Heresy.