Uma declaração do rapper Major RD trouxe à tona uma discussão importante sobre a relação entre o Rock, a periferia e as barreiras sociais que ainda podem dificultar o acesso de novos artistas à cena musical.
Durante sua participação no programa Charla na Mix, o artista falou sobre sua vontade de ter seguido carreira como cantor de Rock e afirmou que, em sua percepção, o gênero acabou se fechando para pessoas vindas das favelas.
“Um fodão de Rock, ele nunca vai abrir a porta para um favelado, porque o Rock se fechou pra favelado”, declarou Major RD
A fala repercutiu justamente por levantar uma questão que vai além das preferências musicais: quem consegue ter acesso aos instrumentos, aos espaços, às oportunidades e às estruturas necessárias para construir uma trajetória dentro do Rock?
Ao explicar seu ponto de vista, Major RD também destacou as diferenças nas condições de produção entre o Rap e o Rock. Segundo ele, começar no Rap pode exigir inicialmente uma estrutura mais acessível, como uma batida e um microfone. Já montar uma banda de Rock envolve instrumentos, músicos, equipamentos e, muitas vezes, um investimento financeiro consideravelmente maior.
O rapper também relembrou o verso da música SÓ ROCK 2, lançada em 2022 ao lado de Xamã e Young Ganni: “Eu queria ser cantor de Rock, mas do Rock eu não posso ser”.
A frase ganha outro significado diante de sua declaração recente. Não se trata necessariamente de uma rejeição à sonoridade do gênero, mas de uma percepção sobre as dificuldades de encontrar espaço em um ambiente que, na visão do artista, não oferece as mesmas possibilidades para todos.
A manifestação de Major RD merece atenção porque toca em uma questão que acompanha diferentes gerações da música pesada: o acesso à cena não depende apenas de talento e vontade.
O custo de instrumentos, ensaios, gravações, deslocamentos e equipamentos pode representar obstáculos concretos para músicos que não possuem condições financeiras favoráveis. Além disso, oportunidades de circulação, contatos e espaços para apresentações nem sempre estão distribuídos de maneira igualitária.
A discussão também chegou à banda Black Pantera, que se manifestou em apoio à reflexão sobre as dificuldades enfrentadas por artistas periféricos para conquistar espaço e estrutura dentro da música.
Formado por músicos que carregam referências da cultura negra e periférica em sua identidade artística, o grupo construiu sua trajetória no Rock e no Metal brasileiro enfrentando diferentes barreiras ao longo do caminho.
O Rock nasceu e se desenvolveu a partir de diferentes influências culturais e sociais, conquistando públicos de diversas origens. No Brasil, a cena underground também foi construída por pessoas que, muitas vezes, precisaram improvisar equipamentos, organizar os próprios eventos e criar espaços independentes para fazer sua música acontecer.
Por isso, a declaração de Major RD não deveria ser recebida apenas como uma provocação ou uma crítica generalizada ao gênero. Ela abre espaço para uma reflexão necessária sobre a distância entre o discurso de que o Rock pertence a todos e as condições reais oferecidas a quem deseja fazer parte dele.
Talvez a questão não seja determinar quem pode ou não fazer Rock, mas entender quantas pessoas talentosas deixam de chegar até ele porque nunca tiveram acesso às ferramentas, aos contatos ou às oportunidades necessárias.
O Rock não precisa abandonar suas raízes, sua identidade ou sua essência para ampliar suas portas. Mas precisa estar disposto a reconhecer que talento não tem CEP, classe social ou endereço.












