Todas minhas resenhas começam ao pé do palco. Esta começa em Curitiba. O SC Winter Metal Fest aconteceu em 15 de agosto de 2026, na Sociedade 9 de Agosto, em Gaspar/SC, e eu não pude estar fisicamente presente. Minha escala de trabalho, com horários quebrados, muitas vezes torna inviável participar de determinados eventos, principalmente quando envolvem viagens mais longas. A margem entre viajar, aproveitar o festival e retornar a tempo para assumir novamente o trabalho acaba sendo curta demais. Desta vez, precisei priorizar meu trabalho, mas não por isso deixei de acompanhar o festival.

Resolvi seguir a organização à distância, acompanhar a movimentação, reunir informações e, principalmente, manter meu compromisso de apoiar quem trabalha em prol da cena underground. Se não poderia estar diante do palco, encontraria outra maneira de registrar o rolê. E foi aí que esta resenha tomou uma forma diferente.

Pedi a colaboração da “Galera do MAU”, que compareceu em peso ao festival, para compartilhar impressões, comentários e percepções sobre as bandas e tudo aquilo que aconteceu durante o evento. As conversas, relatos e até as brincadeiras que surgiram depois dos shows ajudaram a reconstruir a experiência de quem esteve lá. Por isso, esta não é uma resenha convencional. Ela foi construída a distância, mas coletivamente.

Eu estava em Curitiba. Eles estavam em Gaspar. E, de certa maneira, fomos construindo juntos o registro daquele dia, porque registrar a cena também é uma forma de estar presente. E havia ainda um motivo particularmente importante para que esse festival tivesse espaço aqui: a iniciativa de arrecadação de ração para a ONG Anjos de 4 Patas. Uma ação que não poderia simplesmente passar despercebida, principalmente quando o resultado dela foi uma caminhonete cheia de alimento para aproximadamente 160 animais.

Dois anos para fazer o festival acontecer

O SC Winter Metal Fest vinha sendo elaborado havia cerca de dois anos por um trio de produtores e entusiastas do Metal, unidos pelo propósito de fomentar o gênero como cultura na região. A proposta resultou em uma programação com dez bandas autorais, abrangendo diferentes vertentes do Metal Extremo. O cast foi composto principalmente por nomes de Santa Catarina, com a participação da paulista Helllight.

A Sociedade 9 de Agosto, localizada na Rodovia BR-470, KM 29, no bairro Arraial D’Ouro, em Gaspar/SC, recebeu aproximadamente 300 pessoas. E não era apenas gente da região. O público se deslocou de diferentes pontos do Sul do Brasil, com presença de headbangers desde Curitiba/PR até Criciúma/SC. Excursões também foram organizadas para facilitar o deslocamento, enquanto outros produtores locais contribuíram para fortalecer a divulgação e a realização do festival.

Os portões abriram pontualmente ao meio-dia. Havia preocupação com a possibilidade de chuva, mas a estrutura do evento era completamente coberta, com exceção da área destinada ao camping. O clima acabou colaborando: a chuva apareceu de maneira leve no final da tarde e voltou durante a noite, sem comprometer a programação. Para a Helllight, aliás, a chuva acabou funcionando quase como parte do cenário. Mas chegaremos lá.

A programação começou com a Alkila, responsável por abrir os trabalhos e colocar o festival em movimento e, infelizmente, não foi possível acompanhar integralmente sua apresentação. Ainda assim, um dos momentos finais do show chegou até nós: a banda convocou o público para um intenso wall of death, encerrando sua participação em meio a muita movimentação e adrenalina.

Mesmo sem uma cobertura completa da apresentação, a reação do público naquele momento deixou claro que a Alkila cumpriu sua missão de abrir o festival mantendo a energia em alta desde os primeiros momentos.

 

Fotos: Greice Granna Flores

Inpurge

Inpurge subiu ao palco reafirmando por que vem se consolidando como um dos nomes mais interessantes do Groove Metal na cena. Mais uma vez ficou evidente uma evolução constante, embora o nível já fosse bastante alto desde a primeira apresentação. O baixo soava extremamente pesado e bem equalizado, enquanto a vocalista demonstrou grande domínio técnico e uma expressividade capaz de acompanhar cada mudança de intensidade das músicas.

Um dos momentos mais marcantes aconteceu na metade do set, quando houve a troca de baixo por guitarra e a banda passou a explorar uma afinação ainda mais baixa. O breakdown de Drowned foi particularmente devastador, daqueles momentos praticamente impossíveis de assistir sem começar a bater cabeça. A força da apresentação também ficou evidente quando a baterista precisou pedir que travassem o bumbo, que avançava pelo palco devido à intensidade com que era golpeado.

Um breve discurso sobre “queimar o patriarcado” incendiou ainda mais a apresentação e encontrou uma resposta especialmente significativa entre as diversas mulheres posicionadas na frente do palco, visivelmente felizes e inspiradas pelo que viam. Em um cenário historicamente marcado pela predominância masculina, a presença de uma banda inteiramente feminina em um palco de música extrema ultrapassa a questão estética: a representatividade importa, inspira e ajuda outras mulheres a perceberem que aquele espaço também lhes pertence.

O repertório passou por L.R.F., Violence, Slug, Helpless Hate, Unburnable, Guts, Lockdown e Drowned.

 

Fotos: Greice Granna Flores

Deadnation:

Com uma nova formação e mudanças importantes em sua estrutura, a Deadnation mostrou profissionalismo e capacidade de adaptação. O baixista provisório e o novo guitarrista tiveram apenas cerca de 15 dias para aprender o repertório, mas a apresentação transcorreu com uma segurança impressionante. Mais do que um detalhe curioso, a situação também evidencia algo fundamental no underground: a união da cena e a disposição dos músicos em se ajudarem quando uma banda atravessa momentos de dificuldade.

As Flying V soavam como serras elétricas, impulsionadas pelo clássico HM-2, enquanto o baixo apareceu ainda mais distorcido do que em apresentações anteriores. O baixista, com presença visual digna de um verdadeiro rock star nacional, ajudava a completar uma imagem tão intensa quanto o próprio som.

No centro de tudo, o vocalista parecia ainda mais solto e empolgado, explorando diferentes técnicas de guturais e screams com uma presença de palco verdadeiramente intimidadora. A nova Blood Malestorm também se destacou ao apresentar vocais quase limpos em contraste com alguns dos guturais mais brutais de toda a noite. Uma apresentação que, mesmo diante das mudanças recentes, demonstrou que a Deadnation segue funcionando como uma máquina extremamente profissional.

Entregou uma apresentação visceral, com Sade’s Eyes, Bloodspill, Burned Alive, Sick and Sordid Mind, Returning from Hell, Blood Maelstrom, Redrum, Pierced by Nails e Braindead.

Fotos: Greice Granna Flores

Rise Behavior

Representando Blumenau, a Rise Behavior trouxe ao palco seu Death Metal Melódico, claramente conectado à escola de nomes como At the Gates e In Flames. A apresentação demonstrou um nível técnico e profissional impressionante, com músicos extremamente seguros em suas funções, e destaque especial para o trabalho do guitarrista.

O teclado teve presença marcante nas composições, ajudando a ampliar as atmosferas sem tirar o peso das guitarras. A resposta do público também foi intensa, com diversas rodas se abrindo durante o show. Como surpresa, a banda ainda apresentou uma versão de Powerslave, do Iron Maiden, executada em uma afinação mais baixa e adaptada à identidade sonora do grupo, em uma versão que, segundo a percepção de quem acompanhou a apresentação, trouxe em determinados momentos uma energia que poderia lembrar um pouco o Children of Bodom.

Competência técnica, profissionalismo e energia suficientes para movimentar a plateia fizeram da apresentação da Rise Behavior uma das performances mais consistentes do rolê.

A Rise Behavior levou ao palco seu último lançamento, When Darkness Approaches, além de Prince of Mankind, Raging Seas, The Extinction, Machinery of Chaos, Shining Blade, The End Has Begun e Wreckage Serenity.

Fotos: Greice Granna Flores

Lacrima Mortis:

De Blumenau, apostou em uma apresentação que combinou Death/Doom Metal e uma identidade visual extremamente marcante. Vestidos com túnicas pretas e máscaras inteiramente escuras, os músicos construíram uma presença quase ritualística no palco, enquanto as cordas de forca utilizadas pelos guitarristas reforçavam o imaginário sombrio da apresentação.

Musicalmente, o contraste entre uma guitarra carregada de distorção e outra com sonoridade quase limpa ajudava a construir atmosferas densas e melancólicas. O som e os vocais extremamente graves dialogavam com temáticas tristes e depressivas, resultando em uma apresentação pesada, lenta e profundamente atmosférica.

A Lacrima Mortis apresentou uma novidade em primeira mão: One Last Word, música inédita que em breve deverá estar disponível nos serviços de streaming.

O repertório também incluiu Cathedral of Despair, The Ruins of Desolation, Optare Mortem, Imprisoned in Death, Words of Blood e Shades of Destiny.

Fotos: Greice Granna Flores

Voorish

A Voorish foi outro dos momentos destacados pelos relatos coletados para esta cobertura. voltou, e voltou bem. O show da Voorish marcou a primeira apresentação da banda após uma reformulação tanto na formação quanto nas próprias músicas. O resultado foi um Black Metal direto ao ponto, sem excessos e com a sensação de que absolutamente nada estava sobrando, ou faltando.

O timbre das guitarras se destacou pelo equilíbrio entre distorção e limpeza, enquanto baixo e bateria trabalharam em perfeita sincronia para sustentar um som preciso e eficiente. A participação de William, da Deadnation, acrescentou ainda outro elemento à apresentação.

Com músicas que convidavam naturalmente ao headbanging, a Voorish entregou, possivelmente, o melhor som de palco da noite: limpo, equilibrado e perfeitamente adequado à agressividade da proposta.

A banda estava retornando aos palcos e entregou uma performance bastante elogiada. O trabalho de som também foi apontado como o melhor do festival, permitindo que a apresentação tivesse peso e definição.

O repertório foi formado por Covered in Scars, Black Crows, Dark Ages, Regrets, This Is Where You Died e Filth.

Para uma banda que estava voltando aos palcos, não poderia haver cenário muito melhor do que esse: público, estrutura e uma oportunidade de mostrar novamente sua força ao vivo.

Fotos: Greice Granna Flores

Volkmort:

Diretamente de Timbó/SC, a Volkmort apresentou seu Death/Doom Metal envolta em uma densa camada de fumaça. O efeito visual, combinado com as luzes do palco, fazia com que o público enxergasse principalmente as silhuetas dos músicos, criando uma atmosfera particularmente interessante para a proposta da banda.

O pedestal do vocalista também chamou atenção, especialmente pelo detalhe de uma caveira que ele retirou durante uma das músicas. Mas o espetáculo não se limitou ao aspecto visual: as composições apresentaram diferenças perceptíveis entre si, evitando a monotonia, enquanto o timbre das guitarras se destacou pela qualidade. Os solos, por sua vez, surgiam de maneira interessante dentro das construções mais pesadas e atmosféricas.

A banda entrou em cena com Presságio do Apocalipse, Cold Winds, Returning to the Bloody Field, Doomology of War, Destructive Obsession, From Glory to Abyss e Triumphus Mortis.

Mas, aparentemente, o público acabou ganhando um elemento visual adicional durante a apresentação.

A fumaça.

Muita fumaça.

Will Sumeragi resumiu a situação no grupo de maneira bastante espontânea:

“Tava muito bom, tirando a fumaceira no show da Volkmort, que só deu pra ver a sombra deles kkkkkkkkkk.”

A história não terminou aí.

Os próprios integrantes da Helllight entraram na brincadeira:

“Já tem fumaça pro próximo show também.”

É um daqueles pequenos episódios que dificilmente aparecem em uma ficha técnica de festival, mas que acabam fazendo parte da memória de quem esteve lá.

A Volkmort tocou, a galera curtiu. E, em alguns momentos, aparentemente, apenas imaginou quem estava por trás daquela cortina de fumaça.

Fotos: Greice Granna Flores

Helllight:

Quando a noite chegou e a chuva fina começou a cair, o cenário ganhou uma atmosfera particularmente adequada para a Helllight, de São Paulo. A banda trouxe seu Funeral Doom para Gaspar com um repertório composto por Dying Sun, Loneliest Dark, Dead Moment, Desperate Cry e As Daylight Fades. O encontro entre a sonoridade lenta, densa e melancólica da banda, a temperatura e a chuva criou um dos momentos mais atmosféricos do SC Winter Metal Fest.

Se a Volkmort teve sua apresentação parcialmente engolida pela fumaça, a Helllight parece ter encontrado na própria noite chuvosa um aliado natural para sua proposta.

Com 30 anos de estrada, a Helllight levou ao palco toda a experiência acumulada por uma das bandas veteranas da noite. A apresentação encontrou um excelente equilíbrio entre peso e melodia, com timbres de baixo e guitarra muito bem distribuídos e longos momentos instrumentais que permitiam que as composições respirassem.

Outro destaque foi o uso eficiente do VS, integrado à apresentação sem se sobrepor ao trabalho dos músicos. O baterista, que também assume vocais, acrescentou mais uma camada à performance, enquanto os vocais limpos se mostraram especialmente bem executados. Uma apresentação madura, atmosférica e musicalmente rica, conduzida por uma banda que claramente sabe como utilizar suas três décadas de experiência.

Fotos: Greice Granna Flores

Darkken

De Balneário Camboriú, A  Darkken entregou uma apresentação marcada pela técnica e pela intensidade. Os diversos solos foram executados com segurança, enquanto o baixista também se destacou pela qualidade de seus vocais. Na bateria, Fabio Napoli, chamou atenção pela técnica apurada e pela precisão durante a apresentação. Velocidade e precisão, uma performance que, em alguns momentos, remetia à energia e ao estilo explosivo de Joey Jordison.

A faixa The Torment esteve entre os grandes destaques do repertório, mas foi principalmente a entrega do vocalista que ajudou a manter a apresentação em alta. Com muita presença de palco e dedicação total ao show, a banda construiu uma performance intensa e tecnicamente consistente.

A Darkken apresentou Candlelight, Suffering Reborn, The Death Haunts You, Glorian in Tenebris, Slowly Dying, Profane Vengeance e Dominion.

Fotos: Greice Granna Flores

The Torment

Coube à The Torment uma das situações mais difíceis de qualquer festival: subir ao palco no fim do evento para um público já bastante reduzido. Ainda assim, a banda não se deixou intimidar. Pelo contrário, chamou quem permanecia no local para mais perto e conseguiu segurar e envolver a pequena multidão até o final.

Formado em duo e contando com o auxílio de VS, o projeto apresentou uma performance sustentada por uma bateria precisa e muito bem executada, além de vocais bastante agressivos. O vocalista demonstrou grande presença de palco, interagindo constantemente com o público e repetindo o chamado que acabou se tornando uma das marcas da apresentação: “vamos lá, demônios e demônias!”.

Em um momento mais pessoal, uma das músicas foi dedicada à esposa do vocalista. No fim, diante de um público pequeno e do cansaço natural de um evento já chegando ao encerramento, a The Torment fez exatamente o que uma banda precisa fazer: entregou tudo. Verdadeiros guerreiros, provaram que um grande show não depende necessariamente do tamanho da plateia, mas da disposição de quem está no palco para fazer aquela apresentação valer a pena.

O repertório passou por Thunder on the Lost Sea, In a Deep Darkness, Hermit, The Tale of the Azure Jay, In the Ancient Forest, Land of a Cursed Spell, Iron Raven, Roots of an Ancient Land e Ghosts of a Troubled Mind.

Fotos: Greice Granna Flores

Mas o festival não acontecia apenas no palco

Com capacidade para aproximadamente 800 pessoas, a Sociedade 9 de Agosto ofereceu uma estrutura ampla, incluindo campo de futebol e estacionamento na área externa. Na área coberta foram instalados food trucks, expositores, feirantes, flash tattoo, merchandising das bandas e outros espaços voltados ao público.

O camping também teve uma função que ia além da comodidade. A organização disponibilizou a área justamente pensando em uma alternativa mais segura para quem consumisse bebidas durante o festival, evitando que as pessoas precisassem dirigir imediatamente depois do evento. Essa preocupação com responsabilidade também apareceu na própria política de ingressos.

Além das modalidades inteira e meia-entrada, o SC Winter Metal Fest trabalhou com ingresso social mediante a doação de 1 kg de ração. Quem não apresentasse a ração poderia contribuir com R$ 5,00, valor igualmente destinado à mesma causa. E foi aí que uma das histórias mais bonitas do festival começou.

Todo o material arrecadado foi destinado à Anjos de 4 Patas, ONG de proteção animal de Gaspar/SC. O resultado foi uma caminhonete do seu Rogério completamente carregada de ração. E em cima das doações estava Bobby.

A imagem resume muito do que aconteceu.

Seu Rogério recebeu alimento para ajudar a manter os aproximadamente 160 animais acolhidos no abrigo, e era visível a felicidade diante da quantidade arrecadada. Não foi apenas uma ação anunciada no ingresso. Foi uma ação que chegou ao destino.

Uma das coisas mais comentadas de pessoas que trabalharam no festival e que não fazem parte da cena Metal foi justamente sobre a educação das bandas e do público. Existe uma percepção externa de que uma música agressiva, uma estética pesada e letras sombrias necessariamente correspondem a pessoas agressivas. O SC Winter Metal Fest mostrou justamente o contrário.

Como foi dito pela própria organização: “apesar de a música e a estética serem agressivas, todos têm um bom coração”. A caminhonete cheia de ração foi uma prova concreta disso.

Todos desde já com as roupas de ir.

Nos comentários compartilhados para esta resenha, também apareceu outra característica importante: a vontade de repetir a experiência.

Anne Louise resumiu sua impressão com um simples:

“Foi animado!”

E, logo depois, veio a expectativa:

“Tô aqui na expectativa pelas próximas edições!!!!”

Pode parecer apenas uma mensagem descontraída em um grupo de rolezeiros no WhatsApp, mas ela representa algo importante para um festival em sua primeira edição. A melhor resposta que um evento pode receber não é apenas um elogio depois do encerramento. É o público já perguntando pela próxima edição.

Outro detalhe revelado pelos relatos foi a quantidade de funções acumuladas pela própria equipe. Quando Ranieri comentou que não havia conseguido acompanhar muita coisa, a explicação foi quase um retrato do trabalho invisível de um festival independente.

Ele estava atuando como:

Eletricista, marceneiro, assistente de palco, fotógrafo, entregador, comprador, responsável pela logística, motorista de carreta, motoboy e gerente de pista.

Enquanto o público estava diante do palco, o boy multitasking encontrava-se resolvendo problemas, carregando coisas, organizando equipamentos, fazendo compras, cuidando da logística e garantindo que a programação continuasse. Esse é o tipo de trabalho que raramente aparece nas fotos oficiais. Mas é justamente ele que permite que as boas experiências existam.

E isso merece ser lembrado.

O SC Winter Metal Fest também reservou espaço para uma série de expositores, transformando a área coberta em uma pequena extensão da própria cena underground. Entre os presentes estiveram: Riff Store, especializada em roupas voltadas ao universo do Rock; Black Hole Productions, com CDs, vinis e camisetas; Rise Rock Store, com camisetas; Nocturna Custom e You.Topia, reunindo brechó e artigos personalizados; Viking Storm, com artigos de temática viking; Deusa Tattoo, levando o trabalho de tatuagem para dentro do festival; Dark Work 3D, com impressões em 3D inspiradas no terror e na cultura geek;Hippies Góticos Serigrafia, com camisetas; e True Metal Records e Bre Chic, reunindo gravadora e brechó.

Também estavam previstos espaços para Academia Duggen, Molotov Distro com CDs, vinis de Punk Rock, Hardcore, Crust e outras vertentes, e Ação Anéis. Por motivos de força maior, esses três não puderam comparecer.

Mas há um detalhe que considero particularmente importante registrar: os espaços foram mantidos reservados mesmo diante dessas ausências. Isso demonstra respeito pelos expositores que haviam confirmado participação e pela proposta de construir uma feira diversificada em torno do festival. Imprevistos acontecem. E, em vez de simplesmente redistribuir os espaços, a organização manteve o compromisso assumido.

Esse tipo de atitude diz bastante sobre a maneira como se pretende construir uma cena. A feira não era apenas um complemento aos shows. Era espaço para lojas, selos, artistas, tatuadores, brechós, artesãos e pequenos empreendedores que fazem parte do nosso ecossistema do underground.

E se estamos falando de construção coletiva, é fundamental registrar também os patrocinadores que acreditaram na iniciativa: Academia Duggen, Riff Store, Black Hole Productions, Rise Rock Store, Batera Hub e ValvEnhance. O apoio desses parceiros foi parte importante da estrutura que permitiu que a primeira edição acontecesse.

Em eventos independentes, cada parceria representa mais do que uma marca estampada em uma divulgação. É uma demonstração de confiança em uma proposta que ainda está começando. Por isso, os patrocinadores também fazem parte da memória desta primeira edição.

O Vale do Itajaí precisava disso

O Vale do Itajaí sempre teve seus festivais de Metal. Mas muitos deles pararam nos últimos anos, inclusive alguns nos quais não cheguei a participar, pois ingressei tarde nos rolês brasileiros. E outros simplesmente deixaram de existir, vivendo apenas nas memorias e nos papos da galera.

E não é justo que uma região tão fértil para o gênero fique sem um evento capaz de reunir suas bandas, nossa galera e todos aqueles que movimentam a cena. O SC Winter Metal Fest veio justamente ocupar esse espaço. Não apenas com uma promessa grandiosa, mas com dez bandas autorais, uma estrutura pensada para o público, uma feira, camping, ação social, parceiros, produtores e aproximadamente 300 pessoas dispostas a estar ali. E o mais importante: pessoas vieram de longe. De Curitiba a Criciúma.

Excursões foram organizadas, produtores locais ajudaram, bandas tocaram. Expositores se prepararam, patrocinadores apoiaram, a equipe se desdobrou, público compareceu. E uma caminhonete saiu carregada de ração.

Fotos: Greice Granna Flores

Em Curitiba, mas com o coração em Santa Catarina

Destaque especial para a Galera do MAU:

Talvez esta seja a parte mais pessoal desta resenha, eu não estava em Gaspar. Não vi a fumaça da Volkmort pessoalmente, não acompanhei a técnica de Fabio Napoli diante do palco, Não ouvi One Last Word sendo apresentada pela primeira vez, não estava lá quando a Helllight encontrou a chuva, não vi a caminhonete do seu Rogério sendo carregada. Mas acompanhei tudo isso através de quem estava lá, Pedi que a “Galera do Mau” compartilhasse suas experiências, Ouvi opiniões, reuni setlists, coletei comentários, conversei com quem participou, e transformei tudo isso em um registro.

É uma maneira diferente de fazer uma resenha, mas não é menos legítima. Porque o jornalismo de cena também é feito de memória. E, muitas vezes, alguém precisa parar, reunir as informações e dizer: “isso aconteceu, essas pessoas fizeram, essas bandas tocaram e isso merece ser lembrado”É por isso que faço questão de registrar este festival. Porque, mesmo morando em Curitiba, meu coração nunca deixou Santa Catarina.

E porque apoiar a cena underground não significa estar em absolutamente todos os lugares. Às vezes significa encontrar uma maneira de estar presente mesmo quando não podemos viajar. Desta vez, minha presença foi construída pelos relatos da galera que esteve em Gaspar, eles emprestaram seus olhos, eu transformei suas impressões em palavras. E juntos construímos esta memória.

Juntos, construímos o evento. Juntos, eternizamos a memória.

O SC Winter Metal Fest foi um conjunto de pessoas colocando tempo, dinheiro, trabalho, conhecimento e paixão em uma ideia que levou cerca de dois anos para sair do papel. Foi público viajando quilômetros, uma equipe acumulando funções, foi expositor preparando sua banca. Foi patrocinador acreditando na iniciativa.

Produtor ajudando produtor, camping pensado para a segurança, ingresso solidário, foi ração chegando a um abrigo, foi Bobby felizão em cima da caminhonete o seu Rogério sorrindo.

Foi a expectativa do público por uma segunda edição. E é exatamente por isso que este festival merece ser registrado. Aproveitem também para conhecer o trabalho da Anjos de 4 Patas e, quem sabe, dar uma força ao seu Rogério e aos animais que dependem do abrigo.

E a todos que fizeram parte desta primeira edição, organização, bandas, equipe, patrocinadores, expositores, parceiros e público, fica nosso agradecimento. Porque o underground não se mantém vivo sozinho. Ele precisa de gente disposta a fazer, e, em Gaspar, no dia 15 de agosto de 2026, muita gente fez.

Eu estava em Curitiba.

Vocês estavam lá.

E, juntos, eternizamos a memória. 🤘

Especialista em traduzir o peso do Metal em conteúdo autêntico, crítico e sem filtro. Nem tudo que eu escrevo é sobre música, mas tudo começa nela, porque há conexões que nascem no som e só se revelam depois do último acorde, no silêncio da noite. Entre palcos e bastidores, registro o que poucos percebem, algumas histórias não cabem em palavras, mas ainda assim, eu tento.