Fundada em 2020, a Finis Hominis é fruto da negatividade e do horror de três músicos experientes do underground da Grande São Paulo. Criada sob influência do mais puro Sludge Metal de bandas como Grief, Dystopia, Noothgrush e Primitive Man, mescladas ao peso do Death Metal e Crust Punk, o power trio transmite, em sua música, a raiva e a tristeza crescentes no capitalismo tardio.
A partir de agora, tentarei representar aqui o meu resumo e a minha perspectiva de cada faixa para que não fique maçante ao leitor, porém gostaria de imergir ao máximo, mesmo que em uma atmosfera resumida.

Dando play na primeira faixa do álbum, chamada Alucinações Hipnopômpicas, já somos surpreendidos por uma introdução apenas com baixo e bateria. O som traz a sensação de como se estivéssemos chegando a uma morte lenta, colapsando o Doom com gutural e fry screams. Os riffs trazem bastante influência de Black Sabbath, porém imergindo na violência do Doom Death. A afinação é baixa, igual à energia da faixa. A partir de 4:30, conseguimos ouvir a clara influência do Old School Death Metal, com um cadavérico cadenciado digno de um gira-cabeças. Ao final dessa explosão de sete pés abaixo do solo, é perceptível o vocal como se estivesse representando dor ou sofrimento. Esse tipo de técnica, fundida ao riff, nos faz realmente sentir a mensagem por trás da música.
No segundo round, temos MOLOCH. Essa já me causou arrepios desde a primeira batida no prato. A faixa é instrumental, onde conseguimos ouvir vozes ao fundo, e traz um mergulho aos dias vividos e entregues ao capitalismo. O riff de atmosfera tétrica nos faz realmente pensar no sofrimento coletivo, como é citado na faixa. Nos exatos 2:27, a sonoridade que vem aos meus ouvidos é de extrema qualidade de composição. O fritado sonante vindo da guitarra deixa o ar mais lutuoso. Essas horripilações mortuárias dos riffs, seguidas das frases falando tudo o que nós, trabalhadores, sentimos todos os dias, me causam um ar de esperança, sensação que representa êxito na música por nos fazer questionar. A voz que regurgita as palavras ao decorrer do som é calma, porém carrega a sensação de raiva e desprezo pelo capitalismo.
O duo de vocais em 4:17 me lembra bastante um som da banda Putrid Requiem, por me causar a mesma sensação de agonia e questionamento existencial.
O Homem que Virou Suco. O início já me pega: “trabalhar é pior que morrer”. O riff inicial, vindo da influência Slam/Hardcore, me interessa muito, pois adoro essa vibe da guitarra soando, seguida de um trio de notas. Essa faixa já apresenta algo um pouco mais “enérgico”, mas ainda assim imergindo no funeral do Doom Death. O vocal é mais rasgado nessa faixa, trazendo também um diferencial entre as músicas, mas mantendo a identidade.
Em 4:08, eu pensei: “filhas da puta, que riffeira!”. A bateria cadenciando com a guitarra e a voz entrando no primeiro segundo em que a desgraça começa me lembrou, na hora, tudo que eu mais escuto: Death Metal Old School. Até o final dessa resenha eu posso mudar de ideia, mas essa é minha preferida.
Ultra Processado já começa com um gore grindzera, mas ao fundo conseguimos ouvir os agudos fritando. Essa trata de um tema delicado, sobre o que chega até a mesa do trabalhador: alimentos de qualidade duvidosa, pois eles nos vendem o câncer!
Em 00:56, me chama bastante atenção, pois eu gosto dessa vibe em que a voz fica exatamente em cima do início do riff. O flow, forma em que as palavras são cantadas, traz exatamente a entonação que o momento precisava. Em 1:37, traz bastante morbidez, que entra em harmonia com a voz representada por guturais.
Sorumbático. Nessa, os cadáveres tomam conta, os agudos cozinhando em cadência, acompanhados do “tintintin” na cúpula dos pratos. Esse detalhe pode parecer inútil, mas é o que faz o som ficar mais “doente”. O som passa desse ritmo para uma tocada clássica vinda do Death Metal dos anos 80, acompanhada de um vocal que parece estar dentro de uma caverna. Durante a resenha desse som, eu bati cabeça algumas vezes. Esse é um dos sons que sai mais do Doom e parte claramente para um Death Metal.
Seco. Aqui o som sai da violência e volta para a putrefação do Doom. Eu acho interessante a forma como eles colocaram a ordem desses sons, pois parece que contam uma história com os riffs, de forma que nós, ouvintes, conseguimos imaginar que os sons complementam algo que foi iniciado desde a primeira faixa, como um bumerangue.
Alucinações Hipnagógicas. Consigo sentir como se fosse um início, um recomeço. O bumbo da bateria está muito interessante aqui, pois as batidas do mesmo soam junto da caixa, acompanhadas novamente de vocais de dor. O nome da música faz muito sentido com todo o contexto da vida exaustiva que é representada várias vezes nas composições. O som traz essa dinâmica de toques falsos ao pegar no sono. É como se pudéssemos imaginar a situação por conta das vozes de sofrimento e das guitarras lentas que acompanham.
O play contém exatos 9:58. Um ser humano leva, em média, de 10 a 20 minutos para pegar no sono. Então podemos, nessa ideia que talvez não seja intencional, com a duração dessa faixa, perceber a finalização desse full álbum, que emenda todo o contexto do mesmo, trazendo, na última frase, “Não tenho forças para trabalhar”. Isso me trouxe como se fosse uma morte lenta e degenerativa por consequência da exploração que acontece com milhões de pessoas.
A produção também é destaque, visto que a mixagem do álbum está em perfeita qualidade, dando para ouvir exatamente todos os instrumentos com precisão e um timbre invejável. Gostaria de deixar em ênfase a faixa de nome Sorumbático, que foi a minha preferida dessa imersão em uma história.
Escrevi essa resenha enquanto ouvia cada faixa e ia resenhando sobre ela para que eu demonstrasse aqui o real sentimento que tive ouvindo o álbum. Gostaria de parabenizar a banda pelo trabalho impecável!
FORMAÇÃO
Mega – baixo e voz
Vitu – guitarra e voz
João – bateria
TRACKLIST
01) Alucinações Hipnopômpicas
02) Moloch
03) O Homem Que Virou Suco
04) Ultraprocessado
05) Sorumbático
06) Seco
07) Alucinações Hipnagógicas












