Sem sombra de dúvidas, uma das minhas bandas favoritas é o Titãs, não à toa, dentre as mais de 30 resenhas que produzi nesta minha ainda curta carreira jornalística, duas delas foram dedicadas ao grupo, sendo elas dos discos Titanomaquia (1993) e Nheengatu (2014).

E se tem algo que sempre dá um aperto em um fã de determinada banda, é quando um integrante resolve sair. E acredite amigo, essa situação é costumeira em um grupo que teve início como um octeto (isso se não contarmos a saída de Ciro Pessoa antes do lançamento do primeiro disco em 1984).

Se para nós a sensação de “ih e agora?” paira no ar, imagine para quem vive isso de dentro do grupo. Mas posso afirmar sem medo, que Branco Mello, Sergio Britto e Tony Belloto estão mais do que calejados com este tipo de situação, fazendo da reinvenção, uma forte força motriz para dar continuidade a um legado que este ano completou 40 anos de história, com direito até a documentário em plataformas de streaming. Seria pedir demais um DVD com a reunião da formação clássica?

E após a elaboração da primeira Ópera Rock de uma banda da geração oitenta, e a celebração mais intimista de um dos grandes trunfos da carreira (o Acústico MTV) com o álbum Trio Acústico, precisamente, no dia em que datilografo este texto (02 de setembro), Olho Furta-Cor, o décimo sexto trabalho dos paulistas já se encontra entre nós. Então sem mais delongas vamos adentrar mais uma vez neste universo titânico…

O disco começa de forma inusitada, trazendo certo experimentalismo que a banda já não apresentava pelo menos, desde o icônico O Blesq Bloom, lançado há 33 anos  atrás. Apocalipse Só tem uma levada tribal e conta com a participação de um coral infantil.

Uma excelente faixa de abertura, que mescla a inocência das vozes juvenis, com o horror do fim dos dias, e os elementos produzidos por nós mesmos, que sem sombra de dúvidas, são os coadjuvantes pelo nosso autoextermínio. É como se as vozes dos sem futuro, já profetizassem o destino que nos é reservado.

Vale destacar a presença dos vocais de Tony Belloto, que parece cada vez mais confortável com essa nova função dentro do grupo. O guitarrista estreou o gogó de forma tímida em Canção da Vingança na opera rock Doze Flores Amarelas de 2018.

Caos foi o primeiro e único lampejo do novo trabalho a vir a público antes da data de hoje. Cantada por Sérgio Britto a canção apresenta riffs de guitarra que remetem ao bom disco Domingo, lançado em 1995. Já o refrão, não sei ao certo, mas ainda faz com que me lembre do clássico La Bamba do saudoso Ritchie Valens.  A letra foi um presente concebido ao grupo por Rita Lee e Roberto de Carvalho, pais do atual guitarrista Beto Lee, que junto com o baterista Mario Fabre, dão sangue novo aos Titãs.

São Paulo 3 até pode enganar com um inicio mais brando do piano de Sérgio Brito, sugerindo uma possível balada a lá Epitáfio.

Mas, apesar de não ter nada contra a música, felizmente a terceira faixa do disco em nada se assemelha com o hit de A Melhor Banda de Todos os Tempos da Última semana (2001), resultando em uma composição carregada de uma aura psicodélica, com a mesma atmosfera contida em clássicos como o Dark Side of The Moon do Pink Floyd. Ah, é nessa faixa onde você amigo leitor pode encontrar o significado por trás do nome do novo trabalho dos Titãs, então atenção à letra hein!

Os vocais de Branco Mello entram em cena em Como é Bom Ser Simples, que ironicamente, apresenta uma atmosfera simples, porém, como marca registrada dos Titãs, e uma mensagem ácida nas entrelinhas, essa dedicada a um verme que atualmente rege o país.

Muito se especulava  sobre como seria a participação de Branco neste novo trabalho, uma vez que o baixista e vocalista, recentemente se recupera de um problema de saúde. Em entrevista ao podcast Inteligência Ltda, Britto e Belloto afirmaram que as vozes contidas de Mello no disco, vieram das demos que a banda preparava antes de enfim adentrar ao estúdio. O empenho e qualidade fora tão grande, que o grupo conseguira reaproveitar as linhas vocais, agregando-as ao resultado final.

Ah Raul, que faixa meus amigos! De inicio mais abrasileirado, esse rapidíssimo petardo carrega toda a versatilidade, a temática lírica e o peso que consagrou a banda anos atrás. Mais uma experimentação muito bem acertada pelo grupo, e que sem sombra de duvidas, figura entre os pontos altos do álbum.

Um Mundo é mais acalentadora e relaxante, uma típica baladinha para os momentos de contemplação entoada aqui pelos vocais de Belloto. Boa faixa.

Há de Ser Assim parece ainda carregar a temática da Ópera Rock, divagando sobre a quebra das pontes invisíveis que pela tecnologia, agora inexistem, fazendo-nos ser capazes de compadecer com pessoas que se quer conhecemos. Tendência essa cada a cada vez mais há de ser assim.

Uma bela e melancólica canção é assim que defino Papai e Mamãe, que aborda uma espécie de dilema de um adolescente trancado no quarto, enquanto divaga sobre os rumos que os pais querem impor à própria vida.

A boa e velha pegada Punk Rock retorna à sonoridade dos Titãs com a enérgica Eu Sou Mal, rebeldemente cantada por Tony Belloto.

Por Galletas é uma quase valsa cantada por Sergio Britto em espanhol, sobre àqueles que clamam serem os portadores da virtude e salvadores da pátria, mas que ao final, não passam de patifes da pior extirpe que exploram de todas as formas o povo em troca de míseras migalhas.

O Melhor Amigo do Cão traz de volta ao disco a inconfundível voz de Branco Mello, que aqui, parece prestar homenagem aos nossos tão queridos companheiros de quatro patas, que apesar de travessos, em muitas vezes, são muito mais providos de emoções humanas do que nós mesmos.

Preciso Dizer propicia um momento folk à sonoridade do disco, em uma canção atípica, porém, de temática necessária em tempos onde a intolerância e o preconceito reinam absolutos.

Os Riffs mais pesados de Miss Brasil 200 Anos me remeteram a Rock Is Dead de Marilyn Manson. Aqui a banda parece tecer uma crítica não aos padrões de beleza, mas aos significados que atribuímos ao uso das cores em nosso dia a dia, afinal de contas, há muitos líderes religiosos por aí, que vestidos de branco, mancham a alma com os crimes cometidos contra os próprios fiéis.

Fechando o disco, São Paulo 1 diferente do que já fora feito em músicas icônicas da música brasileira, como em Sampa de Caetano Veloso, retrata a capital paulista como uma entidade de beleza própria, constituída de elementos que nem sempre são os mais belos aos olhos, mas que são essenciais para a formação da imagem desta emblemática cidade.

Composto durante o isolamento causado pelo período pandêmico que recentemente passamos, Olho Furta-Cor foi gravado e mixado nas imediações do estúdio Midas, propriedade do produtor Rick Bonadio. Mas felizmente o dedo deste enfadonho ser pesou menos sobre a banda (diferentemente do que ocorreu em 2009 com Sacos Plásticos), e a contribuição de Sérgio Fouad contribuiu para que o disco preservasse a identidade sonora dos Titãs.

É gratificante demais quando recebemos um bom disco de uma banda que nitrimos uma admiração de longa data. Posso dizer que os 60 minutos de sono perdidos acordando às 05:22 da manhã desta sexta-feira não foram em vão. As 14 faixas que compõem este décimo sexto trabalho do grupo, comprovam que a criatividade do trio original se mantém mais forte do que nunca. Algo que vale a pena se considerar, é a própria postura da banda, que pareceu não querer entregar um disco pop com o intuito de forçadamente emplacar alguma faixa nas trilhas de novelas globais. De primeira, o retorno de Bonadio me causou essa má impressão. Os Titãs já entenderam o atual momento em que o mainstream nacional passa, regado por mediocridade e imbecilidade criativa, (especulação minha).

E uma vez não precisando provar absolutamente mais nada a ninguém, o trio remanescente se empenhou ao máximo em entregar um trabalho onde a liberdade criativa rolou solta, ao mesmo tempo, que preservou a identidade da sonoridade que há quarenta anos cativa gerações.

O resultado foi um excelente e carismático trabalho de um dos maiores representantes do nosso Rock nacional, que demonstra ainda ter muita lenha para queimar.

Tracklist
01-Apocalipse Só
02-Caos
03-São Paulo 3
04-Como é Bom Ser Simples
05-Raul
06-Um Mundo
07-Há de Ser Assim
08-Papai e Mamãe
09-Eu Sou o Mal
10-Por Galletas
11-O Melhor Amigo do Cão
12-Preciso Falar
13-Miss Brasil 200 Anos
14-São Paulo 1

 

 

 

 

Nascido no interior de São Paulo, jornalista e vocalista da Sacramentia. Autor do livro O Teatro Mágico - O Tudo É Uma Coisa Só. Fanático por biografias e colecionismo.