Início Atrocitus Cobertura: Atrocitus e In Flames (Curitiba/PR)

Cobertura: Atrocitus e In Flames (Curitiba/PR)

Sem contar muito com a aprovação do credenciamento, a confirmação veio de forma inesperada e mudou o rumo do dia. Ajuste de última hora, uma desculpa prática para viabilizar a chegada, e deu certo. Sem o tradicional esquenta pré-show, mas sempre muito bem alinhadas, Amanda e eu estávamos prontas para entregar mais um trabalho à altura: consistente, bem executado e pensado para reforçar o reconhecimento d’O SubSolo pela qualidade, mantendo-o sempre no radar.

A responsabilidade de abrir a noite caiu nas mãos da Atrocitus, e não poderia ter sido diferente. A banda tratou isso como se deve, sem qualquer sinal de hesitação diante do tamanho da ocasião. Orgulho da cena curitibana, entrou sem introdução morna, sem rodeios. O trio ocupou o palco do Ópera de Arame com segurança que não denuncia a formação enxuta. Três músicos, mas com energia e controle suficientes para preencher cada vão do espaço, sustentando um som encorpado e presença firme. Desde os primeiros minutos, a proposta ficou clara. Nada de aquecimento tímido. Plateia sentada, circulação limitada. A solução veio no microfone: “já que estão sentados e não dá para fazer mosh, vamos bater cabeça nessa porra”. Com o breakdown entrando preciso, pesado, e funcionando como ponto de virada. A resposta não veio em roda, mas veio. Palmas no tempo certo, cabeças acompanhando, energia começando a subir, transformando uma plateia inicialmente contida em resposta ativa dentro do que o formato permite.

Sem pista livre, o público se adapta. A energia passa a circular de outra forma, e a banda mostra leitura de ambiente ao ajustar a condução sem perder intensidade. Em uma das pausas, o agradecimento à Taga surge direto, reconhecendo quem viabilizou a noite. Não soa protocolar, mas como fala de quem entende seu lugar dentro da cadeia que sustenta o underground. O set segue com material autoral, incluindo faixa do primeiro EP, composta durante a pandemia, executada com firmeza e satisfação visível. Entre as músicas, a banda se aproxima do público, convida para acompanhar nas redes e eventualmente chamar para trocar ideias. No centro disso tudo, Pettrus (Petherson Trudes) na bateria chama atenção por um contraste curioso. Expressão carregada, quase agressiva em alguns momentos, quebrada por um sorriso constante, leve, quase angelical,  que transborda satisfação genuína pelo momento importante que esta vivenciando no palco.

A limitação de espaço vira elemento incorporado. Em vez de insistir no impossível, o baixista e também vocalista: Huan Cruz, propõe resposta em palmas durante outro breakdown. Funciona. A plateia entra no ritmo, e o ambiente ganha corpo. Quando a última música chega, o clima já está estabelecido. Aquecido, participativo, pronto para o que viria depois. A Atrocitus encerra sem sobras, cumprindo uma abertura que não apenas prepara terreno, mas afirma identidade.

Setlist:

  • Ansiedade
  • Veneno
  • Responsa
  • Estátua
  • Existência
  • Peste
  • Repulsa
  • Martírio
  • Alienado

Fotos: Amanda Luz

Com a casa cheia e dentro do horário, a In Flames sobe ao palco sem introduções longas. A mudança é imediata. Todo mundo de pé. Não há negociação possível com um show desse porte. O vocalista aparece vestindo Carcass, (Uma das minhas bandas favoritas) referência que dialoga diretamente com parte do público e reforça a linha de influência que atravessa décadas do Metal.

A banda entra ajustada, segura, e estabelece conexão rápida. Com extremo carisma, a condução do show passa por interação constante. Conversas curtas, comandos diretos, pedidos de palmas, incentivo aos gritos. O público responde de imediato e sem esforço. Em determinado ponto, anunciam uma música de “uns 30 anos atrás”, puxando o set para uma camada mais antiga da discografia e conectando diferentes fases da carreira. O espaço novamente impõe limites físicos, mas não reduz a entrega. Sem possibilidade de movimentação ampla, a reação se concentra em intensidade. Bate cabeça contínuo, braços para o céu, e plateia em uníssono com o coro de “Olê olê olê olê, In Flames, In Flames” crescendo orgânico. A banda administrou bem esse retorno, demonstrando profunda gratidão e deixando o público participar sem perder o controle da dinâmica.

Na reta final, a energia se mantém estável. Não há queda, não há dispersão. O encerramento vem acompanhado de uma fala direta do vocalista. “I love you guys. This means the world to us. Thank you, thank you, thank you.”. Em seguida, um emotivo discurso que finalizou com um pedido simples e objetivo: “Respeito entre irmãos e irmãs”. A mensagem não se alonga, mas cumpre função.

Setlist:

  • Pinball Map
  • The Great Deceiver
  • Deliver Us
  • The Quiet Place
  • In the Dark
  • Voices
  • Cloud Connected
  • Artifacts of the Black Rain
  • Trigger
  • Only for the Weak
  • Meet Your Maker
  • State of Slow Decay
  • Alias
  • The Mirror’s Truth
  • I Am Above
  • Take This Life

 

Fotos: Amanda Luz

O fechamento da noite também passa por quem fez ela acontecer. A Taga, responsável pela organização do Bangers Open Air, carrega um peso que se reflete diretamente na execução deste tipo de evento. Ter seu nome associado a essa noite reforça a dimensão do que foi entregue. Ao lado da Planeta Brasil e dos demais envolvidos na organização, sustentaram uma operação consistente do início ao fim. Logística bem resolvida, horários cumpridos e estrutura à altura de um dos cenários mais lindos e marcantes de Curitiba, criando as condições para que Atrocitus e In Flames entregassem seus shows com fluidez, sem interferência no andamento.

Para nós, enquanto O SubSolo, fazer parte dessa cobertura também carrega significado. É espaço conquistado e oportunidade que se traduz em responsabilidade. Uma noite que se sustentou na execução, na leitura de público e na resposta coletiva, sem depender de excesso para se provar, à altura do que foi proposto.

In Flames We Trust.🔥

Especialista em traduzir o peso do Metal em conteúdo autêntico, crítico e sem filtro. Nem tudo que eu escrevo é sobre música, mas tudo começa nela, porque há conexões que nascem no som e só se revelam depois do último acorde, no silêncio da noite. Entre palcos e bastidores, registro o que poucos percebem, algumas histórias não cabem em palavras, mas ainda assim, eu tento.