Voltar ao Hellsinki Metal Festival este ano teve um significado especial. Foi justamente na edição de 2025 que fiz minha estreia oficialmente nesse universo de coberturas de shows e festivais: entre fotografias, resenhas, correria entre palcos e aquela sensação de estar finalmente fazendo algo que eu sempre quis fazer.

Por isso, o Hellsinki Metal Festival acabou se tornando um daqueles eventos que ganham um lugar especial na lista de favoritos. Independentemente das bandas que estejam no line-up, existe uma atmosfera própria em Nordis que torna o festival especial. E, claro, quando chegou a edição de 2026, a expectativa estava novamente lá em cima.

Foto: Luciana Paltila

Foto: Luciana Paltila

A conferência “Welcome to Finland (WTF) – Capital of Metal”: preparando o terreno para o festival

Como parte do aquecimento para o Hellsinki Metal Festival, a capital finlandesa recebeu, nos dias 6 e 7 de agosto, o “Welcome to Finland (WTF) – Capital of Metal”, um encontro dedicado a profissionais da indústria musical e, especialmente, do universo do rock e do metal. A conferência aconteceu na tradicional casa de shows Tavastia Club e sua “irmã” Semifinal Club. Os profissionais participantes foram recebidos com drinks e suas credenciais e, em seguida, convidados a acompanhar uma série de painéis com especialistas do setor.

Fotos: Luciana Paltila

A programação foi conduzida pela já querida jornalista alemã-equatoriana Cristina “Kiki” Mlynek, fundadora do Bleeding Metal Podcast e responsável, desde 2023, pelas entrevistas ao vivo do Tuska Forum.

Intranscendence (Chile). Foto: Luciana Paltila

Os três painéis que acompanhei abordaram temas fundamentais para o desenvolvimento da música pesada: a capacidade da Finlândia de voltar a se destacar internacionalmente (Make Finland Weird Again), as estratégias de promoção e descoberta de artistas (Curating, Reacting & Other Promotion) e os caminhos para transformar bandas iniciantes em artistas com carreiras sustentáveis (Baby Bands to Grown Rockstars).

À noite, a conferência deu lugar à música, com apresentações alternadas entre o Tavastia e o Semifinal.

Rioghan (Finlândia). Foto: Luciana Paltila

Entre as atrações estavam as bandas Intrascendence e Mawiza, do Chile, e as finlandesas Rioghan, Enemies Everywhere e Havukruunu. Para mim, foi uma oportunidade valiosa não apenas de conhecer novos artistas e fazer networking, mas também de compreender melhor os bastidores da indústria musical e como a Finlândia vem trabalhando para fortalecer e projetar sua cena musical e, especialmente, seu metal, para o mercado internacional.

A sexta-feira começou um pouco diferente do que eu gostaria. Por causa do trabalho, não consegui participar do segundo dia da conferência WTF – Capital of Metal e tampouco consegui chegar a tempo de acompanhar as primeiras bandas do primeiro dia do Hellsinki Metal Festival. Assim que meu dia de trabalho terminou, foi aquela velha correria: trocar de roupa, passar a maquiagem, pegar as coisas, seguir direto para o festival e tentar aproveitar ao máximo o restante do dia.

E, sinceramente? A energia já estava lá em cima.

O Hellsinki Metal Festival voltou a ocupar Nordis, na região de Töölö, mantendo a mesma estrutura das edições anteriores. Para quem não conhece o local, o festival aproveita tanto a área interna do Helsingin Jäähalli (arena de hóquei no gelo) quanto o espaço externo do estacionamento da arena.

São três palcos no total: o palco interno, localizado dentro da arena, e os dois palcos principais montados na área externa, Hellsinki 1 e Hellsinki 2.

Foto: Luciana Paltila

A localização é, sem dúvida, uma das grandes vantagens do festival, assim como outros festivais que acontecem em Helsinque, como o Tuska. Nordis fica relativamente perto do centro de Helsinque e é facilmente acessível por transporte público, com bondes e ônibus passando pela região.

E existe um momento muito específico em que você sabe que está chegando ao festival: quando começa a aparecer aquela quantidade grande de pessoas vestidas de preto caminhando todas na mesma direção, você já sabe que não precisa nem olhar o mapa. É o metal se aproximando.

Estrutura que funciona

Depois de retirar minhas credenciais, entrei no festival e pude perceber que a organização seguia praticamente o mesmo modelo do ano anterior, o que, nesse caso, é uma coisa boa. Dentro da arena, os corredores estavam ocupados por bares, pequenos restaurantes e uma grande variedade de estandes. Para quem gosta de sair de um festival com uma camiseta nova, um disco, algum acessório ou simplesmente passar horas olhando produtos que provavelmente não precisava comprar, havia opções de sobra.

Foto: Luciana Paltila

Na área externa, a estrutura também estava bem organizada. A área VIP contava com bar exclusivo, enquanto, logo em frente, uma área dedicada à alimentação oferecia diferentes opções para quem precisava recuperar as energias entre um show e outro.


Vídeo: Luciana Paltila

Omnium Gatherum (Finlândia)

Meu primeiro show do dia foi o do Omnium Gatherum, no palco Helsinki 2. A banda finlandesa de melodic death metal já é um nome bastante conhecido dentro da cena local e internacional, pois o grupo já soma cerca de três décadas de carreira, e essa experiência fica evidente no palco.

O grupo abriu a apresentação com “The Last Hero”, colocando rapidamente o público em movimento. Uma surpresa para mim foi ver Jukka Pelkonen (voz) novamente no palco. Eu sabia que o vocalista havia ficado ausente de algumas apresentações por causa de um tratamento contra linfoma, então fiquei especialmente feliz em encontrá-lo em plena atividade. E, aparentemente, ele também estava muito feliz de estar ali.

Com músicos muito bem entrosados e uma plateia cada vez mais numerosa diante do palco, o Omnium Gatherum entregou uma apresentação segura e enérgica. Foi um ótimo começo para a minha noite.

Fotos: Michelle Koukkula

Carcass (Reino Unido)

Se o Omnium Gatherum representa muito bem a força da cena finlandesa, o Carcass traz consigo décadas de história do metal extremo internacional. Eu já havia encontrado a banda recentemente no John Smith Rock Festival, mas, apesar de Carcass não aparecer na minha playlist diariamente, vê-los novamente não parecia uma má ideia. Os britânicos mantêm uma precisão impressionante ao vivo, equilibrando brutalidade, melodias e aquele som de guitarra que se tornou imediatamente reconhecível.

O repertório passeou por diferentes fases da carreira, com espaço inclusive para material de “Reek of Putrefaction”, álbum de estreia de 1988, e uma presença bastante forte de “Heartwork, de 1993. Foi interessante observar a dimensão do público diante do palco. Para muitos presentes, aquele era claramente um dos shows mais esperados do dia.

Fotos: Michelle Koukkula

Ikinä (Finlândia)

Na sequência, o festival ganhou uma atmosfera completamente diferente com o Ikinä, banda finlandesa de metal alternativo que canta em finlandês. O idioma, porém, nunca foi uma barreira para o grupo. Pelo contrário: a força das músicas, a presença de palco e a resposta do público mostraram que emoção não precisa de tradução. Mais tarde, no mesmo dia, o Mawiza reforçou esta ideia também.

A apresentação do Ikinä ganhou uma dimensão especial com a participação do Choir of Hecate, coletivo formado por vocalistas femininas da cena metal finlandesa. O resultado foi um espetáculo de mulheres talentosas dando um show de vocal.

Mas o momento que mais me marcou aconteceu quando a música foi interrompida e todas as pessoas na plateia foram convidadas a fazerem 1 minuto de silêncio em homenagem a mulheres que morreram em decorrência de violência. O momento foi acompanhado  de um discurso forte e  foi um daqueles instantes em que um festival deixa de ser apenas entretenimento e destaca também seu papel social. A iniciativa fazia ainda mais sentido dentro do próprio contexto do Hellsinki Metal Festival, que escolheu a Naisten Linja como uma de suas instituições beneficiadas. Naisten Linja é organização sem fins lucrativos finlandesa que oferece apoio gratuito a mulheres e meninas vítimas de algum tipo violência. E acreditem: o silêncio de uma multidão de fãs de metal pode ser tão poderoso quanto o som de uma guitarra.

Fotos: Michelle Koukkula

Bloodbath (Suécia)

Depois de uma apresentação tão simbólica, o clima ficou muito mais sombrio com o Bloodbath. A banda sueca representa a velha escola do death metal de Estocolmo e não precisa de grandes artifícios para provar sua força.  Com Nick Holmes, do Paradise Lost, no comando, o grupo iniciou o set com “So You Die”, clássico do primeiro álbum da banda, “Resurrection Through Carnage”.

O repertório também trouxe material de “Nightmares Made Flesh”, um dos discos mais conhecidos do Bloodbath, e a apresentação manteve aquele equilíbrio entre peso e um certo senso de humor seco que Holmes costuma levar para o palco. Foi pesado, direto e exatamente como deveria ser.

Fotos: Michelle Koukkula

Blackbraid (Estados Unidos)

No palco seguinte, o Blackbraid trouxe uma proposta bastante diferente. O projeto liderado por Jon S. Krieger, conhecido artisticamente como Sgah’gahsowáh, combina black metal com elementos ligados à identidade e à cultura indígena norte-americana. A apresentação foi marcada por uma forte atmosfera visual, com figurinos e símbolos que reforçavam essa identidade. Mesmo sem conhecer todos os significados por trás dos elementos utilizados no palco, era fácil perceber que havia muito mais acontecendo ali do que simplesmente uma apresentação de black metal. O repertório passou por diferentes momentos do projeto, incluindo “The Spirit Returns”, “The Wolf That Guides the Hunter’s Hand” e “Barefoot Ghost Dance on Blood Soaked Soil”.

Fotos: Luciana Paltila

Black Label Society (Estados Unidos)

E então chegou um dos grandes momentos da noite para mim: Black Label Society.

A empolgação de Zakk Wylde era perceptível antes mesmo do começo do show. O guitarrista apareceu no palco algumas vezes para filmar e fotografar o público com o próprio celular, o que naturalmente provocou uma reação bastante animada da plateia.

Enquanto nós, fotógrafos, aguardávamos o início da apresentação no pit, encontrei uma querida colega que não via há anos e, embora eu soubesse que ela era uma grande fã de Zakk Wylde, descobri naquele momento que o nível de devoção era ainda maior do que eu imaginava! (*risos*) Carol tem no pescoço nada menos que a assinatura do próprio Zakk transformada em tatuagem! A história é ótima: anos atrás, ela encontrou o guitarrista, pediu um autógrafo e avisou que pretendia tatuá-lo. Ele aparentemente não acreditou muito na ideia, mas assinou mesmo assim, e ela cumpriu a promessa.

Carol e sua tatuagem com o autógrafo de Zakk Wylde. Foto: Luciana Paltila

Quanto ao show, o Black Label Society entregou exatamente o que se esperava: riffs pesados, solos de guitarra, muito volume e uma presença de palco que continua funcionando depois de tantos anos. “Funeral Bell”, “In This River”, “Fire It Up” e, claro, “Stillborn” fizeram parte de um repertório que combinou clássicos com material mais recente. Zakk Wylde não precisa reinventar a guitarra para continuar sendo um grande guitarrista. Seu estilo já é conhecido e, justamente por isso, reconhecível em poucos segundos. Foi uma apresentação impactante e, para mim, um dos grandes momentos da sexta-feira.

Fotos: Michelle Koukkula

Cryptopsy (Canadá)

Logo depois, ainda com o impacto do Black Label Society, era hora de mudar completamente de ambiente e acompanhar o Cryptopsy. A banda canadense subiu ao palco com cerca de dez minutos de atraso, algo relativamente incomum em festivais finlandeses. A movimentação dos profissionais atrás do palco dava a entender que havia algum problema sendo resolvido.

Quando os músicos finalmente entraram no palco, porém, não houve espaço para reclamações. O Cryptopsy mergulhou de cabeça no technical death metal e entregou uma apresentação extremamente intensa. Eu confesso que conhecia pouco a banda antes do festival, mas saí dali entendendo por que ela é considerada uma referência para muitos.

Fotos: Michelle Koukkula

Mawiza (Chile)

Pouco depois, fui para o palco 3 para acompanhar o Mawiza, banda que eu já havia conhecido no dia anterior durante a conferência Hellsinki Capital of Metal.  Já naquela ocasião, os integrantes haviam sido extremamente simpáticos e demonstrado muita empolgação com a primeira passagem pela Finlândia. Por isso, estava bastante curiosa para vê-los no palco do festival.

O Mawiza vem de Wallmapu, território ancestral do povo Mapuche, na América do Sul, e utiliza Mapuzungun, sua língua ancestral, nas músicas. A proposta da banda une groove metal, temas ligados à natureza, à defesa do meio ambiente e à preservação das culturas originárias. Coisa linda de se ver e apreciar!

No palco, isso ganha ainda mais força. Os integrantes aparecem caracterizados com elementos que remetem às suas raízes, acompanhados de símbolos, objetos e movimentos cuja riqueza nem sempre é possível compreender completamente sem conhecer o contexto cultural. Ainda assim, a energia é impossível de ignorar. Foi, sem dúvida, uma das melhores apresentações da minha noite!

As primeiras filas estavam cheias de fãs muito animados, e fiquei especialmente feliz ao encontrar, no dia seguinte, várias pessoas usando camisetas do Mawiza. Ver uma banda latino-americana, tão ligada às suas raízes indígenas, conquistando espaço e público na Europa foi uma das experiências mais bonitas dessa cobertura.

Fotos: Luciana Paltila

Accept (Alemanha)

E então chegamos ao final do primeiro dia.

No palco principal, os alemães do Accept tinham a missão de encerrar a programação e, considerando o tamanho do público, estavam claramente sendo tratados como a maior atração da noite.

A banda entregou um show de heavy metal clássico, com sua formação baseada nas guitarras gêmeas, riffs marcantes e refrões feitos para serem cantados em coro. E cantamos! “Princess of the Dawn”, “Fast as a Shark”, “Balls to the Wall” e “I’m a Rebel”, por exemplo, tiveram coro em massa. É incrível ver uma banda com carreira de 50 anos dando uma aula de como se fazer um verdadeiro show de heavy metal!

Depois de um dia inteiro de shows, a imagem de milhares de pessoas reunidas diante do palco para acompanhar o Accept foi um encerramento perfeito. A banda parecia satisfeita, o público estava ainda mais, e o festival comprovava mais uma vez que consegue equilibrar nomes históricos, apostas contemporâneas e representantes de diferentes vertentes do metal.

Fotos: Michelle Koukkula

Para mim, o primeiro dia do Helsinki Metal Festival 2026 terminou com uma mistura excelente de reencontros, descobertas e grandes performances. E, considerando que aquele era apenas o primeiro de dois dias, ainda havia muito metal pela frente.