Já fazia muito tempo que eu estava ansiosa para conhecer o John Smith Rock Festival, um dos principais festivais de rock e metal da Finlândia. Depois de participar, no ano passado, da edição de inverno, realizada em um espaço coberto e bem menor do que a tradicional edição de verão,  a expectativa para viver a experiência completa de três dias era enorme. Além disso, eu já havia escutado inúmeros elogios de colegas e amigos que frequentam o festival há anos.

Realizado em Peurunka, na região de Laukaa, a cerca de 30 minutos da cidade de Jyväskylä, o John Smith combina música pesada, uma estrutura bem organizada e uma paisagem tipicamente finlandesa, cercada por florestas e às margens de um lago. Uma combinação difícil de superar. A edição de 2026 aconteceu entre os dias 16 e 18 de julho.

A viagem até o festival

A aventura começou ainda na manhã de quinta-feira, quando deixei Helsinque de trem rumo a Jyväskylä. Foram aproximadamente três horas de viagem, um trajeto bastante tranquilo graças à excelente malha ferroviária da Finlândia, que torna esse tipo de deslocamento simples e confortável.

Ao chegar à cidade, fui diretamente retirar a pulseira do transporte oficial do festival, que oferece ônibus entre Jyväskylä e a área do evento. Com tudo em mãos, passei rapidamente pelo apartamento alugado para deixar as malas, arrumar-me e finalmente seguir para o primeiro dia de festival. Durante o trajeto de ônibus até Peurunka, a paisagem já começava a dar o tom do fim de semana: sol, muito verde, lago, e aquela atmosfera tranquila que é tão característica da Finlândia.

Primeiras impressões

A chegada ao festival foi bastante organizada. A retirada da credencial de imprensa aconteceu sem filas, assim como a entrada no evento. Enquanto atravessava os portões, ainda era possível ouvir os últimos momentos da apresentação do Awake Again, banda que infelizmente não consegui assistir por causa do horário da viagem. Várias pessoas comentaram depois que o show foi excelente, o que só aumentou a vontade de vê-los em outra oportunidade.

Abrindo o dia com Kneel Before the Death (Finlândia)

A primeira apresentação que consegui acompanhar foi a do Kneel Before the Death, banda finlandesa de Deathcore fundada em 2013, que entrou na programação substituindo o Profane Omen.

A mudança aconteceu porque o vocalista da Profane Omen precisou cancelar a apresentação por questões de saúde, uma notícia que decepcionou muitos fãs — inclusive eu, que estava bastante curiosa para assistir ao grupo.

Mesmo assim, o Kneel Before the Death entregou exatamente o que se espera de uma grande banda do metal finlandês: riffs pesados, uma performance intensa e um público bastante animado ocupando a frente do palco Smith. Foi uma ótima maneira de iniciar oficialmente a cobertura do festival.

Fotos: Luciana Paltila

O show mais esperado: Charon (Finlândia)

Se havia uma apresentação que tornava essa viagem especial para mim, era a do Charon. Essa banda finlandesa de Gothic metal marcou profundamente minha adolescência.

Após encerrar suas atividades por muitos anos, o Charon retornou recentemente aos palcos, lançou música inédita e iniciou uma série de apresentações. Tive a felicidade de vê-los ao vivo em 2025, em Helsinque, mas fotografar a banda durante um festival era uma experiência completamente diferente (que sonho!). Quando os primeiros acordes de “Bitter Joy” começaram, confesso que foi difícil decidir entre fotografar ou simplesmente aproveitar o momento como fã (*risos*).

O show aconteceu com a área do palco John cheia e contou com efeitos pirotécnicos praticamente do início ao fim. Visualmente, foi espetacular. Para os fotógrafos, porém, a situação exigiu alguns cuidados extras, pois sempre que há pirotecnia, a equipe de segurança solicita que os fotógrafos permaneçam encostados na grade de proteção, o que limita bastante a movimentação para tirar fotos. Mas mesmo com essa limitação, foi impossível não se empolgar.

O Charon mostrou por que continua sendo tão querido pelos fãs. Todos os integrantes pareciam extremamente confortáveis no palco. J.P. Leppäluoto (voz) demonstrava todo o seu carisma. Além da carreira no Charon, Leppäluoto tornou-se uma figura bastante conhecida do público finlandês graças à participação em diversos programas de televisão e também por integrar outros projetos musicais, como o famoso . Toda essa visibilidade parece ter contribuído para o sucesso do retorno da banda.

O repertório do Charon trouxe clássicos como “Little Angel”, “Craving”, “Colder” e “As We Die”, fazendo o público (e eu!) cantar literalmente do começo ao fim.

Fotos: Luciana Paltila

Um momento especial fora do palco

Após o show, o Charon participou de uma sessão de autógrafos.

Era claro que eu não deixaria essa oportunidade passar.

Foi muito legal rever os integrantes, conversar rapidamente com eles, registrar mais algumas fotografias e conseguir um autógrafo que, posteriormente, dei de presente para minha mãe, que também é uma grande fã da banda.

Foi um daqueles momentos que transformam uma cobertura jornalística em uma lembrança pessoal inesquecível.

Surpresa positiva: Sparzanza (Suécia)

Ainda embalada pela apresentação do Charon, voltei ao palco Smith para acompanhar o show da banda sueca Sparzanza. Confesso que conhecia pouco o grupo antes do festival. Fiz uma breve pesquisa apenas para saber o que esperar, mas a apresentação superou minhas expectativas.

Misturando groove metal e hardcore, a banda mostrou muita energia, músicos extremamente entrosados e uma presença de palco contagiante. E talvez nenhum cenário pudesse combinar melhor com aquele momento: o sol brilhava forte durante toda a tarde, algo raro e muito bem-vindo no verão finlandês. Apesar do calor, a brisa vinda do lago e das florestas ao redor deixava o ambiente agradável, criando a atmosfera perfeita para aquele showzaço do Sparzanza!

Fotos: Luciana Paltila

The Gathering (Holanda) conquista até quem não é fã

Depois da energia do Sparzanza, chegou a hora de acompanhar uma banda bem diferente do restante da programação: o The Gathering. Confesso que o rock alternativo, com elementos progressivos e uma atmosfera bastante melancólica do The Gathering nunca foi exatamente o meu estilo favorito. O grupo segue um caminho bem diferente do metal extremo que costuma dominar meus fones de ouvido. Ainda assim, bastaram poucos minutos de apresentação para entender por que o The Gathering possui uma legião de fãs tão fiel.

A vocalista Anneke van Giersbergen é carismática do começo ao fim. Simpática, sorridente e extremamente talentosa, ela fez questão de interagir com o público durante toda a apresentação, chegando inclusive a arriscar algumas palavras em finlandês, para alegria dos fãs (adoro!).

Aliás, era impossível não perceber a quantidade de pessoas vestindo camisetas da banda. O público cantava junto praticamente todas as músicas, mostrando que aquela era uma das apresentações mais aguardadas da noite para muita gente.

Musicalmente, o grupo entregou um show impecável. Os músicos demonstraram enorme qualidade técnica e uma química evidente no palco. Mesmo para quem não acompanha a carreira da banda de perto, a energia transmitida durante a apresentação era contagiante. O encerramento veio em altíssimo nível com “Strange Machines” e “Saturnine”, duas músicas que arrancaram bastante empolgação da plateia.

Fotos: Luciana Paltila

Mudança de última hora traz Before the Dawn (Finlândia) para os palcos

Na sequência, quem deveria subir ao palco era a banda polonesa Decapitated. Eu já havia assistido ao grupo durante o Hellsinki Metal Festival e estava bastante animada para revê-los.

Infelizmente, poucas horas antes do início da apresentação veio a notícia do cancelamento. A maioria dos integrantes que estavam na Polônia teve seu voo cancelado e não conseguiu chegar à Finlândia a tempo. Para evitar um espaço vazio na programação, o Before the Dawn aceitou o desafio de assumir o horário.

Mesmo com pouco tempo de preparação, a banda mostrou enorme profissionalismo e entregou mais uma apresentação potente. O show começou com “As Above, So Below”, faixa do álbum “Cold Flare Eternal” (2025), e terminou com “Deadsong”, clássico do disco “Deadlight” (2007), uma música que gerou bastante agito da plateia.  Foi uma substituição digna de aplausos e uma demonstração da força da cena finlandesa de metal.

Fotos: Luciana Paltila

Muito além dos palcos

Entre uma apresentação e outra, aproveitei para explorar melhor a estrutura do John Smith Rock Festival.

Como fotógrafa, nem sempre é possível assistir aos shows completos, já que também faz parte do trabalho registrar o ambiente, conversar com o público e mostrar um pouco da experiência do festival como um todo.

Foto: Luciana Paltila

E foi justamente nesse momento que ficou evidente o cuidado da organização com os visitantes.

Uma das áreas mais curiosas era chamada, em finlandês, de Välikuolema, algo que poderia ser traduzido livremente como “morte temporária”. O espaço contava com camas onde os visitantes podiam simplesmente descansar por alguns minutos entre um show e outro, além de pontos para recarga de celulares.

Foto: Luciana Paltila

A praça de alimentação oferecia opções bastante variadas, desde kebabs até comida asiática e outros pratos internacionais.

Outro espaço curioso era dedicado aos solteiros que quisessem conhecer novas pessoas durante o festival: uma espécie de área para encontros, mostrando que o evento também aposta na interação (e quem sabe no amor) entre o público.

Foto: Luciana Paltila

Havia ainda enormes áreas gramadas para descansar, além das tradicionais lojas de merchandising, acessórios e uma boa estrutura de área VIP.

Foto: Luciana Paltila

Para quem vinha de outras cidades, as opções de hospedagem também eram variadas. Era possível ficar no próprio Spa Hotel Peurunka, acampar na área do festival ou, como foi o nosso caso, hospedar-se em Jyväskylä e utilizar o transporte oficial disponibilizado pelo evento.

Mokoma (Finlândia) encerra a primeira noite

Já devidamente alimentada e com as baterias recarregadas, era hora do último grande show da noite: Mokoma. O grupo é um dos nomes mais populares do metal finlandês, misturando Thrash Metal, Metal alternativo e elementos bastante característicos da cena local. Bastaram os primeiros acordes da banda no palco John para a plateia explodir em energia.

Canções como Takatalvi, Kuolemanlaakso, Sydänjuuret e Hei Hei Heinäkuu fizeram milhares de pessoas cantar, pular e acompanhar cada momento da apresentação.

Mais uma vez ficou evidente algo que marcou todo o primeiro dia do John Smith Rock Festival: mesmo quando a banda não fazia parte da minha playlist habitual, as performances ao vivo conseguiam conquistar completamente o público, e também quem estava ali trabalhando.

O Mokoma encerrou a primeira noite em grande estilo, fechando um dia que combinou organização impecável, paisagens incríveis, grandes apresentações e a certeza de que os próximos dias ainda reservavam muitas surpresas.

Fotos: Luciana Paltila

O primeiro dia terminou deixando aquela sensação rara de que o tempo passou rápido demais. E se a quinta-feira já havia sido inesquecível, a expectativa para a sexta-feira era ainda maior.