Há eventos que simplesmente acontecem. Outros conseguem criar uma atmosfera tão própria que, quando a noite termina, fica aquela sensação de que você participou de alguma coisa que merece continuar existindo. O CWCore já gabarita nessa segunda categoria.

Em sua terceira edição, o festival voltou a ocupar a cena curitibana com uma proposta que continua sendo tão necessária quanto simples: colocar bandas autorais da cidade no centro da noite e reunir em um mesmo espaço quem acredita que o underground não precisa pedir licença para existir. E o resultado foi uma daquelas noites em que fica difícil encontrar um único culpado pelo caos. Bandas entregando tudo no palco, público lotando a casa, mosh, crowd surfing, brincadeiras, fantasias, correio elegante, prisão, quentão e uma organização que, mesmo diante dos inevitáveis contratempos, conseguiu fazer a coisa toda fluir melhor do que o esperado.

Isso porque o CWCore não tem cara de evento montado por quem apenas descobriu o underground ontem. Há um cuidado muito particular em cada detalhe, justamente porque existe gente ali que conhece esse universo por dentro. É um festival feito por verdadeiros entendedores da cena para quem gosta do underground sem maquiagem, sem fórmulas prontas e sem a necessidade de transformar tudo em algo excessivamente comportado.

A história do CWCore começou em 2024, a partir de uma conversa entre Matheus Felippe e Geert, que trabalhavam em um bar com uma estrutura interessante para receber shows, mas que não oferecia tanto espaço para bandas autorais.

Ao mesmo tempo, os dois já conheciam uma parcela considerável da cena local e acompanhavam de perto bandas que, muitas vezes, apareciam apenas como atrações de abertura. Daí nasceu uma inquietação bastante legítima: por que não criar uma noite dedicada exclusivamente à produção autoral da própria cidade?

A proposta acabou encontrando um público disposto a embarcar na ideia. A primeira edição superou as expectativas e, mais importante, deixou uma demanda clara: as pessoas queriam outra.

A segunda veio com uma nova provocação. Em vez de simplesmente repetir o formato, a organização resolveu transformar o festival em uma edição de Halloween. Se os eventos temáticos costumavam ser território quase exclusivo das bandas cover, o CWCore decidiu fazer diferente. A casa cheia, as fantasias e a participação do público mostraram que havia espaço para experimentar e, ao mesmo tempo, fortalecer aquilo que já estava funcionando.

A terceira edição chegou, portanto, não como uma tentativa de provar que a ideia funciona, mas como consequência natural de algo que já criou raízes.

As bandas

Minha dupla de guerra também estava lá 🙂

É, como quase sempre acontece nos meus rolês underground, eu não estava sozinha. Minha grande amiga e eterna duplinha de aventuras, Amanda, também estava presente, só que dessa vez em uma condição um pouco diferente da habitual. Amanda foi uma das peças fundamentais para fazer o CWCore III acontecer, integrando a organização do evento. Ou seja: enquanto normalmente estamos juntas curtindo o caos, dessa vez ela também precisava cuidar para que o caos acontecesse da maneira certa.

E isso acabou significando que quase não conseguimos compartilhar a noite do jeito que sempre fazemos.

Para completar a missão, Amanda ainda assumiu a responsabilidade de registrar fotograficamente o evento. Então, enquanto eu estava preocupada em sobreviver ao mosh de longe e observar a quebradeira com segurança, ela estava circulando por todos os cantos, trabalhando e capturando os momentos que agora permitem que essa noite continue viva também através das imagens.

Sim, ela sempre responsável por queles cliques maravilhosos que conseguem transmitir a energia do rolê mesmo para quem não estava presente.

Minha duplinha estava trabalhando. E, embora eu tenha sentido falta das nossas tradicionais andanças, conversas e travessuras durante o rolê, não poderia estar mais orgulhosa de vê-la fazendo parte de algo tão bonito e tão importante para a cena.

Talvez um dos grandes méritos do CWCore seja entender que um festival não precisa terminar no momento em que a banda deixa o palco. A organização criou uma série de intervenções que transformaram o público em parte ativa da noite.

Hanny, por exemplo, quem também faz parte da organização, apareceu como a responsável pelo correio elegante. E, considerando a quantidade de gente que sofre de uma timidez inexplicável justamente quando aparece aquele crush, a iniciativa foi quase um serviço de utilidade pública.

Era só escrever o recado, entregar e torcer. Porque coragem para entrar no mosh muita gente tem. Agora, mandar uma declaração para o crush é outro nível de brutalidade.

E havia mais.

Entre as brincadeiras, a famosa prisão permitia que, por um valor simbólico, você mandasse qualquer pessoa para trás das grades durante alguns minutos. Uma ideia completamente absurda, evidentemente. Portanto, perfeita. Esse tipo de detalhe ajudou a construir uma experiência que não dependia exclusivamente das apresentações das bandas. O público tinha motivos para circular, conversar, brincar e se envolver com o evento.

É justamente aí que aparece o tal “capricho” do CWCore.

Não é um capricho meramente estético. É o cuidado de quem sabe que uma boa noite de underground é feita também daquilo que acontece entre uma banda e outra.

E quando o som começou…

Bom, aí não havia decoração, correio elegante ou prisão que segurasse a galera.

O Hardcore tomou conta da casa.

Com o Belvedere cheio, o público transformou a área diante do palco naquele ambiente onde a distância entre “assistir ao show” e “participar do show” deixa de existir.

Mosh para todos os lados, crowd surfing e aquela quantidade saudável de insanidade que faz qualquer pessoa minimamente sensata observar a pista e pensar: “talvez seja melhor ficar quietinha aqui onde estou”.

E foi exatamente o que fiz. Como boa mocinha, mas também como apreciadora assumida da violência metaleira em bom tom, escolhi meu lugar estratégico e permaneci sentadinha, em segurança, acompanhando a quebradeira de camarote.

Porque vamos combinar: Hardcore sem alguma possibilidade de perder um dente para uma voadora mal calculada perde um pouco a graça.

Mas existe uma diferença importante entre intensidade e falta de bom senso. Mosh faz parte da cultura, assim como a adrenalina e a liberdade de se jogar na música, mas cada pessoa precisa reconhecer seus próprios limites e fragilidades, assim como respeitar o espaço de quem está ao redor. Para as mulheres, essa discussão ganha ainda mais peso. A cena Hardcore ainda carrega comportamentos e estruturas que podem tornar determinados ambientes pouco acolhedores. Por isso, iniciativas que incentivam mais mulheres a formar bandas, subir ao palco e ocupar esses espaços são fundamentais.

A cena só cresce quando mais gente consegue fazer parte dela, e quando os rapazinhos protegem as gurias.

Agora vamos falar dos homens por trás do caos. E se o CWCore tem uma identidade tão particular, é porque existem figuras que merecem destaque nessa história: Matheus e o Geert. As mentes criativas responsaveis por transformar uma conversa de faculdade em um dos rolês temáticos mais interessantes do underground curitibano, e obviamente não poderiam simplesmente organizar o evento e ficar de fora da brincadeira.

Então o Matheus resolveu entregar tudo.

Com saia maravilhosa e sardinhas no rosto, Matheus apareceu caracterizado e assumiu o posto de “caipira mais charmosa” da noite.

Se eu fosse um rapaz, pegava.

Brincadeirinha.

Ou não. 🙂

De qualquer forma, é impossível não reconhecer a disposição de quem está por trás do evento. Existe uma diferença enorme entre produzir um rolê e realmente entrar no espírito dele. E isso fica evidente no CWCore. A cena existe porque alguém faz acontecer

No meio de tantos eventos, festivais e shows, talvez seja fácil esquecer que nada disso surge sozinho. Existe alguém negociando espaço, conversando com bandas, pensando em divulgação, resolvendo problemas, organizando detalhes e tentando fazer com que tudo aconteça. O CWCore representa justamente esse tipo de movimento.

A galera

Não existe aqui a pretensão de substituir ninguém ou disputar território. Pelo contrário: a força está em criar mais um espaço para que bandas autorais possam mostrar seu trabalho e para que o público tenha motivos para descobrir o que está sendo produzido na própria cidade. Nesta edição, Declive, Sufffer, Mustaphorius e meu xodó paranaense: Atrocitus fizeram parte dessa construção, representando diferentes caminhos dentro do Metal e do Hardcore e reforçando a diversidade que existe na produção underground curitibana. E o público respondeu da melhor maneira possível: comparecendo.

Curitiba estava fria, para surpresa de zero pessoas. E, obviamente, não seria uma noite curitibana de respeito sem alguma estratégia contra o frio. O quentão marcou presença e ajudou a combater aquela temperatura clássica de Curitiba, enquanto lá fora a cidade lembrava a todos por que os curitibanos desenvolveram métodos próprios de sobrevivência durante o inverno.

E, como eu também precisava deixar minha contribuição oficial para a noite, meu humilde fogãozinho deu o sangue, ou melhor, deu o quentão, e entrou para a história como mais um pequeno colaborador dessa festa. No final das contas, saí com exatamente aquilo que esperava encontrar: um evento cheio, barulhento, divertido, estranho na medida certa e profundamente conectado com a cena que pretende representar.

Para mim, foi um dos melhores rolês do ano.

O CWCore III mostra que existe público para banda autoral. Existe gente interessada em descobrir artistas da própria cidade. Existe espaço para criatividade. Existe vontade de participar. E, principalmente, existe uma cena que continua se movimentando.

Talvez essa seja a maior vitória do CWCore: não apenas colocar quatro bandas no palco, mas criar uma noite em que todo mundo, músicos, organizadores, fotógrafos e público, tenha a sensação de estar ajudando a construir alguma coisa.

E se depender da energia dessa terceira edição, Curitiba ainda vai ouvir falar bastante desse pequeno grande caos chamado CWCore. Que venha a quarta, como diría Amandinha, já estou com as roupinhas de ir. De preferência com mais bandas, mais mosh, mais maluquice, mais gente ocupando a pista, mais cliques da Amanda e, por favor, mais quentão.

Porque frio curitibano a gente até aguenta.

Mas Hardcore sem quebradeira, aí já é pedir demais.

 

Especialista em traduzir o peso do Metal em conteúdo autêntico, crítico e sem filtro. Nem tudo que eu escrevo é sobre música, mas tudo começa nela, porque há conexões que nascem no som e só se revelam depois do último acorde, no silêncio da noite. Entre palcos e bastidores, registro o que poucos percebem, algumas histórias não cabem em palavras, mas ainda assim, eu tento.