Sem sombra de dúvidas, o Doom Metal é uma das vertentes mais fascinantes do Heavy Metal para este que vos escreve.

Se por um lado, o Thrash e o Death Metal buscam evocar todo um sentimento de fúria e ódio, (sejam eles causados pela sociedade, política, ou apenas para servir como pano de fundo para aqueles pensamentos trôpegos que exprimem as mais mórbidas formas de se matar um indivíduo que vagueiam repentinamente nos cantos mais vertiginosos de nossas mentes), por outro, temos o Doom Metal, que também pode exprimir tais sentimentos, porém, de uma forma mais lúgubre, capaz de proporcionar certos momentos de beleza, em meio a temas mais tristes e funestos. Afirmo ainda, que a função dessa categoria, é te colocar em outro estado de espírito, algo mais contemplativo e imersivo.

Mas ressaltando o argumento da beleza em meio à atmosfera lúgubre, creio que o disco que disserto a seguir se encaixe perfeitamente a todas as características que descrevi no parágrafo anterior. Sem mais delongas, In The Entrails Of My Mind, do Low Levels of Serotonin.

Formado em 2017 em Americana, São Paulo, a banda é um verdadeiro exército de um homem só, liderado por William Gonçalves, multi-instrumentista que integrou no passado a banda de Death/Black Metal Desdominus.  Vale ressaltar, que o álbum tema desta resenha, é o segundo do grupo, sucedendo o primogênito Katharsis de 2019.

Ao darmos o play ao trabalho nos deparamos com Intro, uma faixa que te prepara para o que está por vir nas oito faixas que se avizinham. Possuí sintetizadores e pianos que contrastam muito bem com a levada lenta, quase ritualística da bateria, proporcionando uma sensação gradual de queda ou descida ao ouvinte.

Essa “queda” é bruscamente interrompida com a chegada dos dedilhados distorcidos de O Último Anseio. Sério, a impressão de ter atingido o chão de forma brutal é bem consciente, ainda mais se você escutar o disco com bons fones de ouvido, de preferência deitado e no escuro, exercício que proponho a se fazer. A faixa, única cantada em português tem autoria da letra e interpretação de Tiago Tzepesch, um entusiasta escritor de poemas e histórias depressivas voltadas ao universo vampiresco. Ao todo, Tiago contribuiu com cinco das seis letras presentes no disco.

E realmente, podemos interpretar a música como um desses seres eternos, que na canção parecem presenciar o passar das eras, encarando toda esta findaria passivamente. Talvez o último anseio do título, seja uma espécie de clamor pela morte. Destaque para os sintetizadores, que em conjunto com as guitarras arrastadas, cria uma aura ainda mais mística para a composição.

My Piece of Shade traz certa continuidade a temática da faixa anterior, ainda com Tiago nos vocais, porém se utilizando de um estilo vocal mais voltado ao gutural. Aqui, o eu lírico remoí as magoas e angustias do passado. Toda essa dor causada por essas memórias seja talvez, a sensação mais próxima que o personagem tem da morte, e é justamente esse sentimento   libertador que traz um pouco de alento a este espírito atormentado. Mais uma vez ressalto a genialidade da adição dos sintetizadores, e também a mudança no andamento da música no trecho da letra onde o narrador relata a libertação da própria alma, dando a faixa um tom único e teatral.

Lost In Time vem emendada na sequência. De introdução bem cadenciada, o contrabaixo e o piano se fazem mais presentes, além é claro, do dueto entre o vocal clean de Willian, e a primeira participação de Douglas Martins, da banda Deep Memories, nos vocais guturais.  A letra aborda um espírito que vaga por entre uma colina a procura de uma gélida voz que canta uma doce melodia perdida agora no tempo. E levando em consideração a próxima faixa, eu não duvidaria que o quinto petardo do disco fosse uma espécie de retratação dessa melodia citada na letra…

Ah Coming Home, que timbre que esse riff inicial tem!

Uma belíssima faixa instrumental capaz de causar doses cavalares de arrepios, com a guitarra disparando melodias simples, porém, incríveis, carregadas de um feelling absurdo. A atmosfera dessa música é tão cativante, que sinceramente, fazem você viajar e esquecer a ausência dos vocais.

Em Hazy Days há uma troca de andamento que soa estranha em um primeiro momento, mas que pode se tornar mais palatável em demais audições. Aqui os vocais guturais que interpretam a letra composta por Tiago Tzepesch, são de Guilherme Malosso, membro do Motherwood. A nébula do título, apesar de conter certa beleza, parece agir como uma prenunciação para dias mais obscuros. É uma faixa carregada de climatizações e mudanças ao decorrer da execução, tornando-a a mais diversificada do trabalho.

Inner Blast traz um riff um pouco mais pra cima, que de início, parece destoar das demais composições do álbum, o que não significa ser uma faixa ruim. Apenas vamos dizer que as pitadas de Death Metal aqui, foram mais acentuadas.  Acho realmente admirável as entradas mais dramáticas contidas no meio da música que Willian consegue encaixar com maestria. Destaco também, o trecho de vocal uníssono que fazem uma excelente ponte para o retorno ao riff inicial. Se a faixa anterior é a mais diversificada, posso afirmar que Inner Blast talvez seja a mais experimental.

Fechando o disco sem deixar cair o ritmo, Silent Rhymes of Sorrow, traz de volta o uso cativante dos sintetizadores (acho que nunca ouvi um álbum de Doom Metal, cujo esse instrumento me chamou a atenção dessa forma). A música carrega bem o clima de encerramento, tanto sonoramente quanto liricamente falando, trazendo um eu lírico se questionando como foi se tornar um ser tão frio, e que ao final, abraça de vez a imensidão do vazio.

Lançado em 22 de abril de 2022 pelo selo Heavy Metal Rock, In The Entrails Of My Mind é um trabalho que dá gosto em ouvir e, com toda certeza, figurará em minhas indicações de melhores do ano.

A mixagem do álbum é coesa, e em nada prejudica a ambientação fantástica do instrumental magistral criado por William. Em relação a algumas faixas, senti um pouco de estranhamento nos vocais guturais, talvez por estar mais habituado com estilos encontrados em bandas como Jupiterian, Doom VS e Burial, que apresentam uma abordagem mais cavernosa. Entretanto, em momento algum essa estranheza atrapalha ou tira o brilho do trabalho. Trata-se de algo inicial, cujas próximas faixas nos deixa mais habituados fazendo essa sensação desaparecer por completo.

Já os vocais limpos me fizeram lembrar o mesmo estilo adotado pelo meu grande amigo Ricardo Di Sevo quando gravou o debut da igualmente competente Sulphurian, Preludium: Tempus Fugit.

Gostaria de agradecer imensamente ao meu irmão de site, Maykon Kjellin e a galera do Som do Darma por ter enviado o material físico e pela oportunidade e confiança depositada em meu trabalho.

Em suma meus amigos, se são os baixos níveis de serotonina que fazem a sonoridade deste projeto soar tão única e bela, mal posso esperar para ver o que sairá em um futuro, quando esses mesmos níveis se encontrarem na reserva… Discaço!

Tracklist
1- Intro
2- Um último Anseio
3- My Piece Of Shade
4- Lost In Time
5- Coming Home
6- Hazy Days
7- Inner Blast
8- Silent Rhymes of Sorrow

Nascido no interior de São Paulo, jornalista e vocalista da Sacramentia. Autor do livro O Teatro Mágico - O Tudo É Uma Coisa Só. Fanático por biografias e colecionismo.