Com a correria do dia a dia, são poucas as bandas que ainda me fazem acompanhar cada novidade com real expectativa — quanto mais parar para escrever detalhadamente sobre um lançamento.E, sem sombra de dúvidas, o Six Feet Under é um desses casos. Desde que o icônico ex-vocalista do Cannibal Corpse publicou em seu perfil oficial no X que o novo trabalho estava prestes a ser concluído — prometendo ainda um “death metal puro, 100% real, sem encheção de linguiça, sem produção exagerada ou truques modernos” — meu radar passou a captar qualquer novidade relacionada à banda.

Assim, pouco tempo após a chegada de Next to Die — o décimo quinto disco na discografia do Six Feet Under (desconsiderando a série Graveyard Classics) —, finalmente consegui me sentar para ouvir o trabalho como ele merece. E é justamente nessa imersão que voltamos a encarar o universo sombrio e mórbido de uma das grandes referências do death/groove metal mundial.

Approach Your Grave abre o disco de forma lânguida e arrastada, com peso quase colossal, já evidenciando uma mudança: a voz de Chris Barnes surge mais exposta e sem efeitos, diferente de Killing for Revenge e mais eficaz do que em Nightmares of the Decomposed (2020). Essa abordagem pode refletir sua fase mais recente de sobriedade e remete a uma versão mais madura — e ainda podre — dos primórdios, como em Eaten Back to Life (1990) e Butchered at Birth (1991). Apesar da surpresa inicial, a faixa cresce com o tempo. A letra acompanha um assassino à espreita, calculando cada passo antes do golpe final.

Destroyed Remains pisa no acelerador: mais rápida e mordaz, traz um riff triturador de Jack Owen daqueles que fazem o pescoço balançar automaticamente enquanto você “palheta” sua air guitar — sem abrir mão de trechos mais cadenciados, que ajudam a dar respiro e reforçam o peso. Em termos líricos, a faixa soa como uma continuação direta da anterior, explorando as diferentes formas de ocultar o corpo da vítima.

Na sequência, o disco engata uma trinca de singles que anteciparam o seu lançamento.

Mister Blood and Guts evoca o clima dos antigos programas de TV dedicados a filmes cult e de terror, conduzidos por apresentadores excêntricos — como o saudoso Cine Trash, eternizado pelo lendário Zé do Caixão. A letra acompanha um vilão misterioso — uma figura fantasmagórica de capa preta e cartola — que invade uma sessão de cinema e ataca espectadores desprevenidos, deixando um rastro de sangue e horror. A música ainda ganhou um videoclipe que reforça essa estética retrô, reproduzindo o visual característico das antigas TVs de tubo.

Mutilated Corpse in the Woods, segundo Owen, surgiu de forma inusitada: a partir da observação da esposa de um pingente de quartzo cintilante em uma loja de antiguidades. O objeto acabou servindo de ponto de partida tanto para o título quanto para o desenvolvimento da ideia central da música. A narrativa também bebe de relatos de crimes reais, resultando em uma abordagem ficcional sombria. Destaque para o breakdown no refrão, que gruda na cabeça e fica ecoando por horas.

Unmistakable Smell of Death foi o primeiro single divulgado pelo Six Feet Under. É uma faixa pesada e, em vários momentos, mais cadenciada, apostando na lentidão para construir uma atmosfera densa e sufocante. Nos vocais, Barnes remete diretamente aos primórdios da carreira, soando como uma versão mais madura daquela entrega visceral ouvida em Butchered at Birth. Já as guitarras de Jack Owen aparecem afiadas e melódicas na medida certa, criando um contraste interessante com a base mais “podre” — no melhor sentido possível — sem abrir mão do espírito old school ou cair em uma sonoridade moderna demais.

Chegando à metade do disco, “Wrath and Terror Takes Command” traz um leve eco de “Feasting on the Blood of the Insane”, de Maximum Violence, antes de engatar rapidamente em mais uma saraivada de riffs certeiros e mordazes. A faixa se sustenta em uma letra que começa como um grito contra a opressão, mas logo descamba para um cenário em que a violência toma conta de tudo, transformando a ideia de libertação em puro terror — dentro daquele exagero sombrio que é marca registrada do death metal.

Sem qualquer cerimônia, Skin Coffins escancara o lado mais groovado do Six Feet Under, com aqueles riffs que fazem você franzir a cara enquanto balança a cabeça em total sintonia com o peso. Por cima disso, Barnes discorre sobre o tormento que nos  atravessa tanto em vida quanto na morte.

Mind Hell faz jus ao título: é uma verdadeira traulitada sonora que acerta o ouvinte dos dois lados do fone, sem dar espaço para respiro. Essa com certeza é uma boa pedida para uma playslit enquanto se joga um bom jogo de tiro à moda antiga, como Doom, Quake e afins. Inclusive, a faixa poderia muito bem ter saído do excelente Torment (2017).

Naked and Dismembered é uma verdadeira montanha-russa sonora, com riffs que parecem uma espiral de caos e confusão, somados a tremolos que intensificam ainda mais essa sensação de desordem.

Se a primeira parte do disco foi mais arrastada, é bom ter guardado fôlego: Grasped from Beyond só reforça ainda mais a velocidade que a banda imprime nesta metade do trabalho. Já a faixa-título vai perdendo fôlego aos poucos, desacelerando e fechando a atmosfera até preparar o terreno para o desfecho do álbum, que se distancia do impacto direto e mergulha de vez no clima mais denso e introspectivo.

É nesse contraste que o disco se encerra de forma tão atmosférica quanto começa, com Ill Wishes — uma faixa singular, que foge dos padrões estabelecidos ao longo da discografia do Six Feet Under. Cadenciada como a maioria do trabalho, ela se destaca pelo tom mais melancólico, flertando sutilmente com o Doom Metal. Aqui, o eu lírico mergulha em um estado quase catatônico, como se atravessasse uma experiência de quase morte. Nessa perspectiva, não há respostas grandiosas — apenas o vazio absoluto diante da eterna pergunta: o que vem após a morte?

Lançado oficialmente em 24 de abril de 2026 pela Metal Blade Records, Next to Die foi gravado no Criteria Studios — estúdio que já rendeu clássicos ao Six Feet Under, como os álbuns Maximum Violence (1999) e True Carnage (2001). O décimo quinto registro de estúdio da banda está disponível em CD e Vinil.

A produção ficou a cargo de Jack Owen e Chris Barnes, enquanto a mixagem e a masterização foram conduzidas por Mark Lewis, que já havia trabalhado com o grupo em Undead (2012) e Unborn (2013), no MRL Studios. A abordagem de Lewis imprime ao material um caráter mais cru, quase analógico, equilibrando peso e clareza. O resultado é um disco que soa fiel às raízes do Death Metal, mas sem as limitações técnicas que marcavam as produções do fim dos anos 80 e 90.

A capa leva a assinatura do artista indonésio Sandy Rezalmi, dono de um traço marcante e inconfundível dentro do underground.

Além do novo disco, o Six Feet Under também anunciou uma turnê pela América Latina. A série de shows marca o retorno da banda ao continente e inclui a primeira passagem pelo Brasil desde 2011, quando realizou uma única apresentação em São Paulo durante a turnê de Graveyard Classics 3. A turnê começa por Belo Horizonte (30/10), Recife (31/10), São Paulo (01/11) e se encerra em Curitiba (02/11).

Em suma, Next to Die funciona como um verdadeiro amálgama de tudo o que o Six Feet Under construiu ao longo de mais de três décadas de atividade. É possível notar a abordagem mais direta e rítmica de Haunted (1995), assim como as pitadas de Thrash Metal que já davam as caras em Killing for Revenge (2024).

Ao mesmo tempo, ao fim da audição, fica a sensação de que a banda realmente desacelerou em digamos uns 60% do disco — mas sem jamais abrir mão do peso que sempre marcou sua trajetória e trouxe excelência nos breves momentos acelerados. Essa lentidão, somada aos “novos” vocais de Chris Barnes, soa quase como um corpo em lenta decomposição, como se essa purga cadavérica acabasse se transformando em algo mais refinado — como um vinho pútrido, maturado a sete palmos da terra —, uma maturidade lapidada pelo tempo de estrada. É como se o próprio título, Next to Die, apontasse para a banda, que parece consciente desse processo e o traduz em som.

Se for um álbum de despedida — o que, sinceramente, espero que não — o Six Feet Under consegue transmitir essa sensação de adeus de forma bastante convincente.

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Tracklist: 
1. Approach Your Grave 
2. Destroyed Remains 
3. Mister Blood and Guts 
4. Mutilated Corpse in the Woods 
5. Unmistakable Smell of Death 
6. Wrath and Terror Takes Command 
7. Skin Coffins 
8. Mind Hell 
9. Naked and Dismembered 
10. Grasped from Beyond 
11. Next to Die 
12. Ill Wishes 

 

Nascido no interior de São Paulo, jornalista e antigo vocalista da Sacramentia. Autor do livro O Teatro Mágico - O Tudo É Uma Coisa Só. Mentor do projeto Path of Heresy.