Ainda caminhando pela vastidão furiosa e prolífera que é nossa cena brasileira, tenho que admitir que muitos grupos com uma longeva carreira dentro do underground, me são apresentados constantemente. Eu fico surpreso com tamanha dedicação que essas bandas têm em se manter na ativa, mesmo com a ingrata situação que parte, tanto pela falta de um incentivo cultural, quanto por parte do próprio público, que se diz apreciador do Metal nacional.  Por outro lado, muitas vezes eu acabo me sentindo mau em não ter descoberto essas bandas anteriormente.

Mas, como sempre gosto de frisar, eu estou neste meio justamente para aprender, conhecer, e sempre que possível, dar voz e valorização ao trabalho dessas pessoas que estão há tempos lutando em prol dos nossos sons mais extremos.

E a banda com a qual me deparei dessa vez, é o Hierarchical Punishment, pela parceria que tenho com o selo Extreme Sound Records. Por isso hoje, trago o trabalho mais recente do grupo Psychotic Disorders, lançado no dia 09 de maio de 2021.

Nascida em 1994 na cidade de Santos, São Paulo, a banda tem como propósito a execução de um Death Metal rápido, agressivo com pitadas e influências advindas do Grindcore.  Já a temática lírica do grupo, é atípica a bandas do gênero, que optam pela carnificina e podridão exacerbada (o que em momento algum, chega a ser um demérito).

Aqui, o cotidiano mundial e os problemas sociais, são os grandes inspiradores das letras compostas, em totalidade neste trabalho, pelo guitarrista Grell, único membro fundador ainda presente.

A formação responsável por gravar o petardo, ainda conta com o guitarrista Morto, Alexandre Martins no contrabaixo, Arthur Mendes nos vocais e Luiz Carlos Louzada na bateria. Ouso afirmar, que Louzada é um verdadeiro polvo dentro do nosso underground, sempre esgueirando os tentáculos para abraçar diversos projetos, tornando-o um dos seres mais proativos e devotos ao Heavy Metal brasileiro.

Sem a menor cerimônia o ouvinte é arrebatado com toda a brutalidade do Hirerarchical Punishment com Don’t Look Back. E considere o título da faixa de abertura como um aviso, pois se você adentrar desprevenido a este universo, consequentemente, será atropelado pelo grande entulho sonoro jogado sem dó nem piedade pela banda durante o decorrer da audição. A letra questiona se o ser humano é capaz de trilhar o próprio caminho, ou se apenas é uma mera marionete nas garras de um destino pré-determinado a todos por uma entidade ainda maior.  Nesta primeira amostra do disco, podemos presenciar toda a brutalidade e vontade que emana tanto dos instrumentos quanto dos vocais guturais e cavernosos de Arthur.

A continuidade do tema presente na primeira música, parece continuar em Escape The Fate.  Temos um eu-lírico que pode ser interpretado como a voz do destino, se dirigindo a todos como um ser onipotente e inescapável. Talvez a mensagem mais clara passada na letra é que não passamos de meras formigas tentado nos esconder de algo muito maior, preparado para selar nossos destinos, não importando o quanto corramos.  Destaque aqui para os momentos de breaking down, que somados a letra, me passaram a sensação de ser as marretadas do destino acertando implacavelmente sob nossas próprias vidas.

Angels and Demons foi o primeiro single disponibilizado pela banda para apresentar um pouco de toda a atmosfera contida neste álbum.  A sonoridade desta faixa é caótica e tem algumas pitadas que me remeteram ao saudoso Death. E em meio ao caos sonoro destilado, temos o desespero e conflito de um eu-lírico, que desnorteado pela rapidez com que sua vida se esvaí, começa a se questionar sobre a existência de um Deus, colocando em cheque todos os propósitos. Talvez as dúvidas levantadas, sejam a representação demoníaca do tormento que o leva a questionar se a existência se trata de algo sacro ou maldito.

Devo admitir que a quarta faixa, Emotional Evisceration foi uma das mais complexas em se encontrar um significado.  Vale e muito a pena ressaltar o contraste que essa música faz. O instrumental é rápido e dilacerante assim como uma evisceração. Já a parte emocional advém dos versos contidos na letra, que posso tentar descrever como uma espécie de réquiem a uma mente, que há muito tempo busca retomar sanidade e controle, em uma tentativa de impor ordem perante ao caos.

The Darkness traz riff mordazes que dão ao ouvinte o clássico efeito de balançar a cabeça inconscientemente. A letra traz a decadência total da humanidade, que gradualmente está envolta pala escuridão do título.  Quando estamos totalmente envolvidos pela atmosfera da faixa, o término logo se aproxima. É nessa hora que pressionamos o botão de repeat.

Human Nature é uma verdadeira pedrada sonora digna de formar os mais caóticos mosh pits quando executada ao vivo.  A letra aborda a obsessão da humanidade pela busca de solucionar os mais complexos mistérios da vida, quando sequer consegue responder aos mais simples.

As questões envolvendo nossas escolhas são apresentadas em The Choice.  Aqui a letra questiona em quais momentos alguns de nós perdem a pureza e inocência de uma criança, e enveredam para caminhos obscuros, tornando-se seres capazes de cometer as mais pútridas atrocidades. O dedilhado contido na faixa traz um tom macabro, que contrasta perfeitamente com a temática proposta.

Já os riffs galopantes e blast beats em The Madness fazem cama para a temática, que aborda todo o desespero de se acordar em determinado lugar perdido, totalmente desprovido de memória. Ao final, conclui-se que a loucura é a condição mais severa capaz de derrubar o ser humano.

The Moment of Truth apresenta as linhas guturais mais graves e cavernosas de Mendes, em uma faixa que me remeteu bastante ao Six Feet Under em algumas passagens.  Sem sombra de dúvidas um dos pontos altos do trabalho.

Sendo a mais curta do álbum, Road talvez seja a música com maior carga melódica partindo das guitarras de Grell e Morto. Aqui, a tomada de decisão por qual caminho um indivíduo deve seguir durante determinada jornada é o tema central da faixa.

A penúltima faixa Memories, traz um respiro de milissegundos ao ouvinte, antes de voltar a esmurra-lo sem cessar. Destaque para o groove de contrabaixo de Martins, e o pedal duplo da bateria de Louzada. Sem sombra de dúvidas, outro saldo positivo no repertório do disco.

Turning Point é carregada de groove, sendo a faixa mais longa e mais carregada de mudanças e climatizações, trazendo um satisfatório e balançante final a audição de Psychotic Disorders.

Gravado entre os anos de 2017 e 2019, o segundo álbum de estúdio do Hierarchical Punishment passou por três estúdios diferentes, sendo eles O Beco Studio, Dragon Studio e Dakota Studio, todos situados em Santos. Já a mixagem e masterização foi realizada em 2020 por Ivan Pellicciotti.

Já a arte de capa ficou a cargo de Bruno Bacchiega tatuador e também vocalista da banda Invokaos, que entregou um trabalho simples e ao mesmo tempo cativante, que faz com que os olhos passeiem por toda a arte buscando as inspirações e mensagens presentes em cada traço.

Para o lançamento do bom e velho formato físico, uma verdadeira união ocorreu entre a Extreme Sound Records e outros nove selos e gravadora do nosso underground.

Seria realmente uma utopia, se todos que enxergam o Death Metal como mero barulho e berraria, parassem para se atentar a temática das letras. Posso dizer sem medo algum ou exagero, que Psychotic Disorders é um trabalho carregado sim da brutalidade inerente desta vertente do Metal Extremo, mas vai muito além disso. A carga filosófica e existencialista contida nas letras de Grell fazem do trabalho, um dos mais ricos que já encontrei liricamente e filosoficamente falando.  A mixagem do trabalho é muito competente e consegue extrair todo peso dos músicos envolvidos, sem uma produção que prima pela perfeição, trazendo uma sonoridade pesada,brutal, porém, muito nítida e sólida.

Não sei ao certo, se o título do trabalho se trata de uma afirmação da banda, colocando todas as reflexões e indagações presentes como as chamadas desordens psicóticas, ou se assim são consideradas, somente perante a mentes mais intrucadas e corrompidas pela ignorância, seja ela advinda do cotidiano ou pela manipulação religiosa.

Também não descarto em hipótese alguma, se tudo que interpretei enquanto ouvia e acompanhava o encarte do CD, foi equivocado ou não passou de mero devaneio. No mais, aconselho que faça o mesmo, e tire suas próprias conclusões…

Tracklist
1-Don’t Look Back
2-Escape The Fate
3-Angels And Demons
4-Emotional Evisceration
5-The Darkness
6-Human Nature
7-The Choice
8-Madness
9-Moment of Truth
10-Road
11-Memories
12-Turning Point

Nascido no interior de São Paulo, jornalista e vocalista da Sacramentia. Autor do livro O Teatro Mágico - O Tudo É Uma Coisa Só. Fanático por biografias e colecionismo.