Quando uma nova banda surge no cenário nacional, sempre me deparo com uma ingrata e já batida frase: “Essa é a nova promessa que irá salvar o Rock/Metal”. E eis que uma dúvida paira sobre a minha fétida cabeça: “Salvar de que, ora bolas? (Para não dizer coisa pior)“.

Acho que a afirmação deveria ser abolida de vez da nossa chamada cena, assim como outros termos que além de datados, passam uma sensação de imediatismo e até mesmo de prazo de validade.

Bom amigo leitor, depois deste pequeno desabafo, hoje trago a resenha de um trabalho que não salvará o metal, não o elevará a níveis estratosféricos e, nem tão pouco, fará com que o estilo tenha destaque na grande mídia, como por exemplo, ser tratado de forma totalmente estereotipada em programas como o da Fátima Bernardes.

Esta obra vai muito além destas futilidades, e o melhor de tudo, a qualidade e o ineditismo são elementos apresentados como um mero bônus, totalmente despretensiosos. Uma característica presente, mas que não é o “X” da questão, vamos assim dizer.

Hoje falarei do primogênito Where Rats Dwell do Black Dagger.

Mas antes de adentrarmos nesta funesta obra, precisaremos regressar ao ano de 2020. Não preciso nem explicar a situação pela qual passávamos (e ainda passamos) não é mesmo?

E foi durante esse pandêmico momento que Thiago Gasulla, deu início ao projeto, sendo até então o único membro da banda. Influenciado por grupos clássicos do Black Metal como Bathory, Ungfell, Grylle, Véhémence e Summoning, o Black Dagger traz a brutalidade e sujeira do gênero, aliada com pitadas saborosas de música medieval e teatralidade pura.

Apesar de ser um projeto de um homem só, o músico contou com a ajuda de Vitor Munhoz, que além de ajudá-lo com as linhas de baixo, bateria e teclados, foi o responsável por produzir o petardo.

 

Os dedilhados iniciais trazem uma sensação de calmaria ao início do disco e por algum motivo, me remeteu à clássica Canon in D. Mas é uma questão de segundos para um urro perturbador que clama pelo título perturbador da faixa de abertura Sicillian Bull arrebatar o ouvinte, carregando em seguida um riff profano e poderoso. E que sonoridade crua e cruel meus amigos, que se casa perfeitamente com a temática lírica que retrata a mórbida estória de um dos instrumentos de tortura mais tenebrosos já criados pelo homem. O Touro de Bronze.

Muito se discute sobre a veracidade desta invenção, e é um daqueles típicos casos em que o feitiço se vira contra o feiticeiro, mas se a tomarmos como um fato chegamos ao seguinte relato.

O touro veio ao mundo pelas mãos do inventor Perilo de Atenas a mando do tirânico Fálaris, que governou Acragas na Sicília, Itália, durante o século VI a.C. Ironicamente, o criador fora vítima da própria criatura, enquanto demonstrava ao soberano a forma como a máquina funcionava.

Para se ter uma noção, o aparelho funcionava como uma espécie de câmara no formato exato do touro. Por dentro, havia um canal semelhante à válvula móvel de um trompete, que ligava a boca ao interior do “animal”. A vítima era colocada e fechada. Em seguida o instrumento era posto em cima de uma fogueira. À medida que a temperatura aumentava no interior do touro, o ar ficava escasso, obrigando o executado a recorrer ao orifício na extremidade do canal. Os gritos do condenado saiam pela boca do bovino, dando a ele a falsa sensação de vida…

 

As próximas duas faixas do álbum dedicam-se a relatar sobre um dos muitos períodos de expurgo que a raça humana viveu. E sem dúvida um dos mais tristes e sádicos foi, sem dúvidas, a Peste Negra, doença que assolou a Europa durante os anos de 1347 e 1351.

Horror, Despair and Plague, inicia-se com um riff medieval que é de certa forma bem mais “alegre” se comparado a primeira faixa do álbum. Mas essa alegria desvanece com a chegada de guitarras mais densas e pesadas que automaticamente fazem ao pescoço do ouvinte balançar. Aqui, vale se destacar o quanto os vocais de Gasulla, são singulares em relação a tudo que já ouvi em bandas de Black Metal, soando da forma inerente do estilo, porém, tendo uma alta carga de personalidade e uma busca sem temor em pontos com uma forte carga de experimentalismo. Preste atenção nessa faixa e verá bem o que estou tentando explicar. Uma combinação perfeita do peso profano da vertente com teatralidade.

E se a segunda faixa retrata toda a podridão e depravação aliadas à forma tirânica com que Igreja (sim, com letra maiúscula, pois na época era ela que ditava as regras e as leis da sociedade) lidou com a horrenda situação, Peste Negra me pareceu funcionar como um prólogo às avessas, contando os eventos que culminaram na tragédia da canção passada.

E lembra que eu mencionei a ousadia no DNA do Black Dagger?

Pois bem, os caras conseguem jogar um coro de “lá, lá, lá” no refrão da música sem soar piegas e soma ainda mais ao fator interpretação/imersão da obra.

Marching to The Guillotine possuí uma daquelas temáticas que quanto mais se pensa sobre ela, mais angustiantes os pensamentos se tornam. Aqui o ouvinte é apresentado às últimas linhas de raciocínio de um condenado a ter sua cabeça decepada pela lâmina de uma guilhotina.

Ballad of The Mad Pyromancer é um épico de seis minutos, lamuriante, angustiante com direito a um triste assobio que ecoará em seus ouvidos por um bom tempo. A lúgubre canção retrata os efeitos devastadores causados pela loucura de um antigo mago piromante, deixando um rastro de destruição através de uma tempestade flamejante.

When The Fire Fades Away pareceu-me uma espécie de continuação para a saga do mago louco, trazendo inclusive um propósito para a destruição que o mesmo causou. Uma espécie de renovação, purificação e o início de uma nova causada por esse batismo de fogo descrito na letra.

Chegamos à faixa mais longa de Where Rats Dwell, a atmosférica Sadistic Idol of The Congregation, que apresenta os martírios e a degradação mental e física de um vagabundo considerado herege pela igreja. Apesar de ser uma das letras mais explicitas no sentido violência de todo trabalho, considero-a a mais filosófica também, a partir do momento que entramos em contato com os questionamentos do personagem principal a respeito de Deus e seu rebanho…

E chegamos ao final da audição com as duas últimas faixas do álbum. Tragedy of The Guild é uma típica história medieval de caçada, assassinato e traição em uma Gilda de mercenários. Já With a Rope Around My Neck assim como Marching to The Guillotine, retrata a execução de um personagem, porém, agora por enforcamento.

Ao final da experiência, a sensação de singularidade no que acabou de ouvir vem de imediato, necessitando de outras rodadas para uma melhor captação de todas as nuances que a obra apresenta. O Black Dagger, prova com este trabalho de estreia, que não é necessário posar de malvadão das profundezas para trazer o frescor e inovação tão bem vinda em nosso cenário. É uma banda que torço para que cresça, e principalmente, que Where Rats Dwell ganhe uma versão física. Será um dos meus itens mais preciosos da coleção.

Por hora, aguardemos o próximo registro da banda (que já está sendo gravado) enquanto recapitulamos este incrível compilado de histórias macabras…

 

TRACKLIST
01) Sicilian Bull
02) Horror, Despair and Plague
03) Peste Negra
04) Marching to the Guillotine
05) Ballad of the Mad Pyromancer
06) When the Fires Fades Away
07) Sadistic Idol of the Congregation
08) Tragedy of the Guild
09) With a Rope Around My Neck

 

 

Nascido no interior de São Paulo, jornalista e antigo vocalista da Sacramentia. Autor do livro O Teatro Mágico - O Tudo É Uma Coisa Só. Fanático por biografias e colecionismo.