Na estrada desde 2004, quando foi formado em São Paulo, o Desalmado tem em seu currículo cinco trabalhos lançados desde então. Fora isso, tem participação em grandes festivais como SWR de Portugal, Feto Fest na Espanha e Abril Pro Rock no Brasil. Além disso, dividiram palco com nomes como Entombed e Obituary, lendas do Metal extremo.

Fiel ao Grindcore, não só por conta da sua sonoridade brutal e sim também pelas atitudes e posições para expor as entranhas perversas desse mundo alienado. A banda deixa claro o quão importante é se opor contra um sistema manipulado pelas classes ‘dominantes’. Desalmado é formado por Caio Augusttus nos vocais, Estevam Romera na guitarra, Bruno Teixeira no baixo e Ricardo Nutzmann na bateria.

Tivemos o prazer de conversar com a banda, mais especificamente, o vocalista Caio. Confira nosso bate-papo com Caio Augusttus vocalista do Desalmado:

Caio, obrigado por ter dado esse espaço de conversar com O SubSolo. Admiramos muito o teu trabalho. Para começaram, vamos falar um pouco sobre o início do Desalmado, como foi o começo de tudo?
Caio: Foi o padrão de muita banda, nos encontramos na internet, marcamos ensaio e fomos insistindo pra ver no que iria dar. Mudanças de formação, alguns desencontros musicais até chegar a algo que alcançamos e formatamos uma identidade, foi um processo e tanto, mas acho que no fim, valeu a pena.

São 17 anos de estrada, certo? Quais foram as maiores vitórias alcançadas e quais foram as maiores dificuldades encontradas, relacionadas ou não com as vitórias?
Caio: Acho que os dois grandes festivais que tocamos, o SWR de Portugal e o Abril Pro Rock disparam como a maior realização da nossa carreira. Outro lance é que nós conseguimos desde muito cedo trabalhar a parte de vídeo da banda, hoje em dia as bandas dependem demais desse contato virtual, e por algum motivo, o Desalmado teve essa facilidade. Uma outra parada fundamental é que demos sorte de ter gente que corre junto demais, o maior exemplo é a Nata do Manger que sempre me ajudou muito, então tudo isso considero vitórias consideráveis. Dificuldade tem de monte, viver no underground é sempre estar correndo contra a maré, mas essa é uma realidade enfrentada por qualquer um que realmente ama música, isso não tem como fugir.

Quais são as influências da banda e como vocês as utilizam para montar o som do Desalmado?
Caio: Atualmente tem muita influência de death metal e sonoridades de sons mais ambientais, tristes, carregados. Acho que acaba ficando aliado com velhos temas e bandas, você vê sepultura, morbid angel, napalm death, tá tudo devidamente misturado para que o som do desalmado ganhe corpo.

Sabemos que a cena underground BR é cruel. Quais são as diferenças que a banda sente no cenário hoje em dia comparado com o que era quando vocês começaram?
Caio: Tenho pra mim que hoje o underground brasileiro é muito bom, talvez a melhor safra de bandas da história venha dos últimos 5 anos. Quando surgimos também teve um boom de bandas boas, era o período que todo mundo queria fazer grindcore, tava todo mundo cansado do new metal e partindo para um role mais rápido e desgraçado, comparável a aquela época, acho que no geral as coisas melhoraram um bocado.

O Desalmado já representou o BR na Europa, como foi a experiência? E daria para enumerar pontos positivos e negativos de tocar lá no velho mundo?
Caio: É experiência que levamos pra vida, aprendemos demais, o principal lance é cair na real, na estrada você vai entender se quer ter banda de verdade ou ensaios de final de semana pra fazer shows para roqueiros velhos bêbados, que no geral, são chatos. De pontos positivos acho que a estrutura e quantidade de lugares pra fazer som, normalmente você vai sempre tirar um som mesmo que seja de algum muquifo podre e ingrato, isso é positivo demais, de negativo acho que é a expectativa que se cria, todo mundo acha que vai chegar na europa e se deparar com o cenário incrível de shows lotados, mordomias e o caralho a quatro. Não! Não é isso que existe, estar na estrada na europa é comer o pão que o diabo amassou, mas pelo menos a gente ganha várias histórias pra contar.

Rolou de vocês tocarem com bandas bem influentes como Entombed e Obituary, rolou também o apoio de grandes nomes da cena mundial como Max Cavalera mencionando o Desalmado como uma das bandas que ele curte além de entrevistas com Gastão e João Gordo. Como essas situações impactam na evolução da banda?
Caio: Tocar com Entombed nos mostrou que era possível ter uma banda e ir além, tocar com o Obituary mostrou pra nós como é possível ser responsável pelo próprio show e fazer algo com qualidade. Acho que ter o lance mencionado pelo Max foi um ponto fora da curva, foi legal, não sei se ele já ouviu algo do Desalmado de fato, mas se ouviu espero que realmente tenha curtido. Sobre o Gastão, toda vez que olho no youtube e vejo que fui entrevistado pra ele fico incrédulo, afinal, ele foi meu professor de música, foi o de muita gente e tava lá um dia sentado no mesmo sofá que o cara. Do Gordo, porra, viramos amigos, assim, não que um frequente a casa do outro, mas a gente se conhece e ele respeita demais o trampo da banda, isso é foda pra caralho, ainda tem os caras do Krisiun que sempre foram as grandes referências para nós, esses sim, amigos pra caralho mesmo, tudo isso é demais.

Gostaríamos que o Desalmado indicasse algumas bandas underground que sejam do gosto de vocês para nós também darmos uma ouvida. – Essa pergunta não poderia deixar de ser feita: Como a pandemia afetou a banda?
Caio: Aguardem o novo do Manger Cadavre? vem foda, outra banda, Exsim, Ankerkeria, Vazio, Mee, poderia falar de muita banda aqui. A pandemia afetou a banda mas a gente conseguiu se manter muito ativo nas redes, fizemos duas lives por conta, lançamos clipes e estamos pra soltar disco, de alguma forma nos viramos para não enlouquecer, nem toda banda conseguiu tal feito, no geral, se parar pra olhar para o cenário brasileiro, o Desalmado talvez tenha sido a banda que melhor se virou sozinha nesse trágico momento.

Muitas bandas estão com dificuldades de se manter ativas por causa da pandemia, qual o conselho ou dica que o Desalmado pode dar para essas bandas?
Caio: Não se cobrem, mantenham a saúde mental no lugar, todo mundo tá enfrentando uma merda gigantesca e aprendendo. Se der pra compor, agiliza a composição, se rolar gravar algo, grave, mas não entre na neurose de produzir demais porque isso pode ser contra produtivo, pode desencadear muita coisa ruim para o grupo também. Se conseguir fazer tudo com tranquilidade, mete as caras nas redes e vai levando tudo no seu devido tempo.

Recentemente foi lançada a pedrada “Your God, Your Dictator”, qual o tema abordado nesse som?
Caio: É uma crítica às religiões abraâmicas, à sustentação moral e financeira do capitalismo, de como essa estrutura nos trouxe a um estado de exaltação da individualidade e de guerras culturais que irão nos levar a um período distópico e de ruínas. Todo mundo é ateu, todo mundo tem seu deus, todos estão prostrados frente ao seu ditador, essa é a mensagem central da música.

Sobre o álbum novo, o que podemos esperar dessa produção em termos de letra e sonoridade? Já temos data de lançamento?
Caio: Em termos de produção é disparado o melhor álbum do Desalmado, nada do que fizemos poderá se comparar a produção desse disco. É um disco carregado de sentimentos, continua tendo a sua parte de denúncia, mas ao mesmo tempo ele fala o que a conjuntura do mundo que vivemos, nos afeta na nossa individualidade e rotina do dia a dia, esse álbum foi composto antes da pandemia e reflete muito o período da pandemia. Em termos de som, espere o Desalmado diversificado, denso e pesado.

Agradecemos tua disponibilidade mais uma vez. Deixamos esse espaço para que deixe uma mensagem aos leitores d’O SubSolo e fãs do Desalmado.
Caio: Fortaleçam o underground pesado, obrigado a todos e todas que sempre deram força para o Desalmado, se conquistamos algumas coisas, foi graças a nossa base de fãs que sempre nos empurrou pra frente. Meu agradecimento ao Subsolo por abrir espaço para uma banda como o Desalmado.

Marcelo Prudencio, Divulgador de bandas da Cena Underground BR, Casado, Carioca 42 anos,.